PARTE II – Caetano de Campos – Março de 1938. Carta do professor José Feliciano sobre Julio Ribeiro, publicada no jornal OESP…

23/03/1938(OESP)

“Sonhando com São Paulo e com Filologia

Velut Tristia Magistri Somnia…

Estamos em 1886-1887… Vejo uma sala do Curso Anexo, no velho São Francisco, Julio Ribeiro ensinando latim, com a sala cheia. Quis o aluno da Escola Normal como seu auditor. Escreveu as “Geórgicas”  de Virgílio(elle dizia “Vergilius”). Pronunciava o latim à moderna: ge=gh, j=i, v=u, c=k, ae=ai, oe= oi…

Donde (ghenus=genus, luria, clauis, Kikero, Caiser…

E que tradução! Virgílio ou Vergilio em termos castiços e frases elegantes.

Lembra-me que me interpelou, como fazia na Escola Normal, para dizer que “empar a vinha” era a tradução própria de “ulmis adjungere vites”…

                                                              Afficher l'image d'origine(ieccmemorias)

…Revejo a Escola Normal, rua da Boa Morte.(Foto abaixo: sobrado no meio da imagem, à direita; nota minha) Entra Julio Ribeiro, nomeado substituto de português pelo presidente, conde de Parnahyba. De novo, sala cheia. Abre o livro de chamada e lê meu nome.

(LEMAD e ieccmemorias)Afficher l'image d'origine
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_Foi o senhor quem escreveu àa meu respeito aquele artigo, etc. , etc.? Pois vai ser meu dicionário vivo…

E assim foi, aulas e aulas, no ensino da gramática sua, que era então a mais cheia de filologia moderna. Foi assim, logo depois, na clara, entusiasta explicação dos “Lusíadas”. Julio Ribeiro, neste ensino erudito e vivo, iria longe, se a política, a polêmica má e o mau romance o não enliçassem.

                  (mercado livre)Afficher l'image d'origine

Colaborei com ele na sua “Procearia”, onde conheci e estimei Theophilo Dias, que pôs em verso o antigo programa da revista. Revi com ele seu pesueno “Holmes Brazileim”. Sua “Gramática Latina”, moderníssima, ficou na página 122…

… Estamos em 1888? 1889 e 1893 a 1903, 1905… O discípulo virou mestre e até “festejado conferencista”, como se dizia então. Explica em uma dúzia de lições ou conferências, a “Gramática” dificílima do saudoso mestre. Na Escola Normal, com sua matemática, sua mecânica e sua astronomia, três a quatro anos substitui o professor de português e explica “Os Lusíadas”(…). Prepara a compreensão do poema  com a biografia do poeta, com a leitura de João de Barros, de outros clássicos e da Latino Coelho, “Mais famoso roteiro de Vasco da Gama”… Lê sobre netos escolhidos, églogas, canções, odes, ligando os assuntos com os episódios da vida de Camões.

Seu antecessor quisera suprimir “Os Lusíadas” no ensino, porque –dizia eles- Camões era incompreensível…

(…)

Mas Camões é compreensível e vamos explicar o seu  “Lusíadas.

(…)

                                                                              *

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Desperto. Meia-noite. Rua de Longchamps, Paris. Sobre a mesa, um artigo subversivo com a “Restauração do Latim”; e um folhetim de Plinio Barreto. Neste alcandora-se   um ilustrado professor de português (autor ou inspirador do artigo?), como inventor de “estradas novas”, no ensino do latim e dos “Lusíadas”, em meu caro São Paulo…

Leio uns trechos em que se desfigura à grega, o meu Camões, – Português de lei, – o que Humboltd celebrou como poeta nacional, poeta do Adamastor, do velho do Rastello, das descrições marinhas… “Bacharel latino”, mas livre das carepas de um pedantismo sem estilo e de mau gosto.

Desconsolado, vou reler minha série de “Notas Camoncanas” que  “O Estado de São Paulo” publicou há uns 16 anos.

Consolar-me-ei depois, relendo minhas lições camoneanas. E recairei em meu “longo esquecimento”, longe “ de gente surda e endurecida”. E, “ó gens” (ghens?) “paidagogista”.

“De vós não conhecido, nem sonhado”.

                                                               *

A moda, sonhada há meio século, não pegou. Pegará na movediça estrangeiromania do novo ensino descoordenado e pouco  estável?

Na Alemanha e na Itália, estava já pegada; a moda é nacional, porque ah! Não há chiantes, “j” ou “ge”, nem mesmo silabantes “ci” e “ce”(…) . Os ingleses as inventaram de outra moda, com “sh” e com “z” figurado “zh”, como em “azure” = “ azhur”. Com ingleses e franceses a pronúncia nacional é arquideformadora do latim.(1). Eles não mudam.

Por que havemos de mudar a nossa, com nossos abrandamentos evolutivos, com nossa pura, prosódica acentuação, que tanta falta faz aqui, apesar das injunções do Papa?

Acabemos com essa desnacionalização contínua de nossos hábitos e tradições.

Admiremos o estrangeiro, acolhamos professores estranhos, que saibam ensinar, bem, a nossos apedeutas, algumas coisas novas, coisas estáveis, com ouro melhor que a prata da casa… Mas, por piedade, não se arqueiem na posição servil de menosprezar os nossos, a boa erudição da casa, para admirar às vezes, “opera minora”, obras de fancaria, em língua estranha, em mau estilo.

Paris, fevereiro de 1938.

JOSÉ FELICIANO”

*No inglês, a famosa frase “Ven, vidi, vici” torna-se “vinai, vaidai, vaiçai”… “Horatius” = “”Horeichas”. (…) No francês a deformação é grande; é total quanto o acento prosódico ou tônico. Quando o Papa interveio com sua pronúncia à italiana, fundou-se uma sociedade para defender a “verdadeira” pronúncia “nacional”. Dela faziam parte intelectuais de primeira plana…

        

 

Para saber mais sobre o professor Feliciano, clique abaixo:

iecc-memórias -CCXXIII – Por falar nele… Professor José Feliciano de Oliveira!

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