POKÉMON GO (HOME)

POKÉMON GO (HOME)

by Renato Castanhari Jr.*

O privilégio começou restrito aos Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e Alemanha, mas não vai demorar para essa nova febre tecnológica de entretenimento e dependência química virtual contaminar cada canto do planeta: a caça aos monstrinhos desenterrados dos anos 90. E com isso, sacramentar outra dependência, tal qual um coração no peito, um celular nas mãos.
Se não bastasse esse aparelhinho ser o responsável por nos ligar em áudio e vídeo com o mundo externo e seus habitantes, dizer o melhor caminho para chegar ao destino, a temperatura em Tóquio, nos avisar a hora de tomar o comprimido, registrar o prato que estamos comendo no restaurante, e com quem, contar quantos metros de caminhada, pagar contas e mostrar o resultado do futebol com os melhores lances, chamar o taxi, entre centenas de outras funções, ele agora nos permite caçar, no real, monstrinhos virtuais, que surgem programados pelo Criador em qualquer canto, fresta, buraco, da terra. E pode incluir: fazer o redator escrever a frase mais extensa que ele já digitou na vida.
Graham Bell certamente está sem entender nem uma vírgula lá no outro plano e nós ganhamos mais uma imposição para não tirarmos os olhos da telinha, claro, nós os patetas que corremos atrás das soluções virtuais para compensar as carências reais.
Pokémon Go, mais um fenômeno instantâneo como Miojo, capaz de tirar do ostracismo uma empresa que já foi protagonista (os acionistas da Nintendo, de joelhos, agradecem a São Programador pela graça alcançada). Capaz de fazer um rapaz que mora no Queens, em Nova York, capturar um Pokémon na casa da sua ex-namorada, que mora no Brooklin. Sua atual namorada viu onde o rapaz pegou o monstrinho e, claro, fez as contas e terminou o namoro. Capaz de fazer uma multidão invadir o Museu Memorial de Auschwitz, na Polônia, à caça dos bichinhos e, claro, fazer com que a direção do museu proibisse o uso do aplicativo dentro das dependências do antigo campo de extermínio dos nazistas. Capaz de fazer a polícia de Melbourne, na Austrália, emitir um alerta pedindo que as pessoas prestassem atenção ao atravessar as ruas, visto que já houvera atropelamento de um incauto na caça do pocket monster. Ou a polícia de Goochland, na Virgínia avisar que o jogo não serve como desculpa para invadir propriedade alheia sem autorização.
Meus neurônios que já passaram dos sessenta têm dificuldades para entender como é possível algo estar em um local determinado visualmente sem estar lá na realidade. Mas eles já tiveram dificuldade de entender como uma máquina de fax era capaz de enviar um documento através de uma ligação telefônica, e na época eles tinham a metade dessa quilometragem. E o fax já virou jurássico.
Esses mesmos desgastados neurônios mostram apreensão quando esses monstrinhos cult chegarem para as Olimpíadas, como está anunciado. Uma coisa é caçar Pokémon, outra é ser caçado pelos meliantes do pedaço em meio à caça, um olho na tela e outro no trombadinha. Não vai combinar. Vai ficar sem celular.
O jogo bate recordes de downloads em todo mundo. Pretende tirar as pessoas de dentro de casa para o virtual interagir com o mundo real. Um fenômeno viral. Que certamente vai introduzir uma nova realidade, com novos e até agora impensáveis desdobramentos em termos de descobertas tecnológicas em nossas vidas. E que, tudo indica, irá ter efeitos colaterais em nossos comportamentos nesse admirável mundo novo.
Jogar bolinha de gude já foi excitante.

 
| 29/07/2016 às 9:26 am | Categorias: CRÔNICAS/CONTOS | URL: http://wp.me/p1GYYg-rr
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