Myrthes Suplicy Vieira

Juridiquês cá e lá

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Primeiro foi:
“Sou inocente.”

Depois foi:
“Errar é humano.”

Agora é:
“Não houve ilegalidade alguma e, se ilegalidade houve, não houve dolo.”

Interligne 18c

Ao saber dessa última forma de defesa entregue ao Senado pelo advogado da presidente afastada, não pude deixar de lembrar de um episódio ocorrido com meu pai há mais de meio século.

Meu pai era um homem extremamente supersticioso. Mineiro, tinha mil e uma manias, todas desenvolvidas desde menino como modo de se proteger de má sorte, inveja ou mau olhado. A coisa era tão complexa e multifacetada que, quando não sabia bem como explicar a razão de algum procedimento esdrúxulo, ele argumentava em tom de brincadeira que “corro o risco de meu filho nascer sem dentes e sem cabelos”. Dentre elas, uma se destacava: carregava consigo, no bolso da calça, por onde fosse, uma figa.

Anhangabau 1

Certo dia, a caminho do trabalho no centro da cidade, ele se preparava para atravessar o Viaduto do Chá, bem em frente ao atual prédio da prefeitura paulistana. Cuidadoso como sempre, ele olhou para os dois lados e, não tendo detectado nenhum sinal de perigo, desceu da calçada. Apressou o passo, mas não conseguiu terminar a travessia. Foi atropelado no meio da pista por um ônibus que trafegava pela contramão e acima da velocidade permitida. Certamente, contava ele, o motorista do coletivo devia ser um novato em treinamento que, ao se dar conta de que havia feito uma conversão errada, havia acelerado para escapar do flagrante e voltar ao trajeto habitual.

Um detalhe tragicômico, ao qual, diga-se de passagem, ele nunca fez menção: atada por uma corrente de ferro ao para-choque do veículo, havia uma imensa e pesada figa de metal. Com o movimento brusco de freada, a figa oscilou violentamente e atingiu meu pai na lateral da cabeça, provocando um afundamento significativo do crânio – talvez a lesão mais preocupante entre todas.

Figa 1

Socorrido por passantes, ele foi levado ao hospital. Havia quebrado várias costelas, uma das vértebras do pescoço, o braço direito e a clavícula do lado esquerdo. Passou vários dias internado e, quando voltou para casa, a família foi obrigada a enfrentar longos quatro meses de cuidados especiais: dando comida na boca, ajudando-o a se sentar e se levantar e se responsabilizando por toda sua rotina de higiene pessoal, já que os dois braços engessados e o pescoço imobilizado o impediam de exercer qualquer uma dessas atividades.

O trabalho também, é claro, foi prejudicado. Teve de se afastar temporariamente do cargo. O ócio e as longas horas sentado em casa logo o deixaram transtornado. Desenvolveu depressão, insônia, ansiedade, irritação e, consequentemente, problemas digestivos. Obcecado com a ideia de retomar sua autonomia no trabalho e como chefe da casa, ele decidiu processar a companhia de ônibus.

Onibus 8

Naquela época, não havia serviço especializado de ambulância para atender emergências. Ninguém havia pensado em anotar o nome das pessoas que o haviam ajudado a se levantar. Mesmo sem testemunhas que corroborassem sua tese de que o ônibus estava fora de rota e acima da velocidade permitida, ele foi em frente com o processo.

Alguns anos mais tarde, saiu a sentença definitiva: o juiz havia dado ganho de causa à empresa de ônibus, impressionado talvez com a surreal argumentação com que o departamento jurídico havia apresentado sua defesa. Anexada aos autos, lá estava escrito com todas as letras para a eventualidade de que alguém ousasse duvidar da total inocência da companhia: “…não havia nenhum veículo de nossa empresa circulando por aquele local, naquela hora, e, se houvesse, não havia motorista a bordo”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira, caetanista, é psicóloga, escritora e tradutora.

Anúncios
Esse post foi publicado em Expressão livre: textos dos leitores. Bookmark o link permanente.

3 respostas para Myrthes Suplicy Vieira

  1. Octaviano Galvão Neto disse:

    Prezada Myrthes, bom dia.
    Como sempre faço, me dediquei à leitura de mais texto de sua autoria, com atenção.
    Percebo que, talvez, ele seja fruto de que você, como a maciça maioria de nossa população, não teve possibilidade (ou paciência) para acompanhar, passo a passo, o desenrolar deste processo de impeachment.
    Assim me permita tentar colocar as coisas diante dos fatos que são, agora, incontroversos, no que diz respeito ao mérito, finalizadas as fases de acusação e de defesa, que resultaram na aceitação da continuidade do processo contra a Pres. Dilma:
    1. O procedimento do julgamento da admissibilidade do processo ocorrido na Câmara de Deputados, creio eu, não merece qualquer comentário. Creio, também, que seja de compreensão meridiana de que tudo não passou de uma farsa criminosa, comandada por um dos maiores criminosos do país, com os objetivos mais abjetos que se possa conceber.
    2. O processo no Senado, por sua vez, vem sendo levado dentro de um espírito que visa salvaguardar uma imagem democrática e legal para a posteridade.Entretanto, este é um processo claramente POLÍTICO, já que ficou comprovada o que seria a sua INADMISSIBILIDADE JURÍDICA, por falta de crime. Quem o diz, inequivocamente e com todas as letras para que possamos entender, mesmo não sendo advogados, não sou eu, claro, mas o MPF, os Técnicos do Min. da Fazenda, da CEF, do BB, dezenas de renomados juristas, etc . . .
    Todos eles, sem exceção, inocentam a Pres. Dilma de atos que pudessem ser considerados crime e mais especificamente crime doloso, como recomenda a legislação sobre a questão.
    Deste modo, creio eu, justifica-se plenamente a admissão do caráter meramente político do processo e impedimento
    3. Como mais significativa testemunha deste caráter político do processo, invoco o Pres. Interino Michel Temer que em recentíssima entrevista o assumiu, COM TODAS AS LETRAS. Não sei se foi ato falho, ou não, ou mera tentativa de justificar o afastamento da Pres. Dilma dentro da ideia de que “o conjunto da obra é ruim”, “ela não reunia mais condições de governar”, etc…
    Assim, sem entrar no mérito da questão como um todo, me atenho apenas ao que segue:
    1. Está muito claro, sem qualquer sombra de dúvida, para quem se atem aos detalhes e deseja entender o que se passa nesse contexto, que o impedimento que ora se propõe não se justifica JURIDICAMENTE. É apenas e tão somente uma ridícula, e nefasta, manobra política.
    2. O que agora se configura, também inequivocamente, é um atentado à Democracia no Brasil, uma afronta ao direito mais básico da população que é o direito de escolher os seus governantes.
    Para o bem, ou para o mal. E que seu julgamento tem foro privilegiado para ocorrer: AS URNAS ELEITORAIS.

    Cara amiga, me perdoe pelo que, a primeira vista, possa parecer proselitismo político ou excesso verbal, mas esta é uma questão MUITO delicada para mim. Não se trata de defesa do governo Dilma, de suas propostas, nem muito menos do(s) Partido(S) que ela representa.
    Simplesmente não consigo tratar este assunto de outra forma, a não ser de forma muito séria, pela importância e delicadeza política que representa.

    Abração.

    • msuplicy disse:

      Prezado Octaviano,
      Como você mesmo coloca, essa é sua visão das coisas. A minha é inteiramente diferente, ainda que igualmente séria. A mim também não escapa a importância e a delicadeza do tema. Respeito sua opinião (você sabe que a dissidência é altamente estimulante para mim) e tenho certeza de que, numa análise desapaixonada do que escrevi, você saberá identificar a falta de lógica da argumentação de defesa nos dois casos retratados. Só tenho um comentário a acrescentar: “político”, para mim, não é um palavrão. Estou cansada de ouvir acusados de malfeitos se defenderem argumentando que são vítimas de perseguição política. Até onde sei, a palavra “política” conota exatamente intercâmbio de poder. Independente do mérito, lembre que a presidente foi reeleita com base em um processo político e está sendo impedida com base em outro. Só nos resta esperar para saber quem está coonestando essa “manobra política”

      • Octaviano Galvão Neto disse:

        De fato, apesar da minha visão da questão como um todo, pacientemente espero que o tempo novamente se manifeste como ‘o senhor da razão’.
        O problema, como sempre, será o custo disso para nós todos.
        Mas, vamos em frente . . . aguardemos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s