Abertura dos Jogos Olímpicos de 2016 assistida na França.

(wilma schiesari-legris)

Paris, 06 de agosto de 2016.

                                                    Afficher l'image d'origine(Blasting News)

Uma hora da madrugada aqui*; embora não cedendo à letargia que nos leva ao sono, liguei a televisão para ver o que o Brasil mostraria ao mundo durante a Abertura dos Jogos Olímpicos de 2016.

O Maracanã, parecia uma safira talhada por grande joalheiro; no seu interior aguardavam o início da festa 80 mil pessoas procedentes do Rio ou saídas de outras partes do Brasil, muitos turistas do mundo todo, além dos 11 mil atletas e dos 18 chefes de Estado.

Não muito habituada a esse tipo de ritual, imaginei que veria uma coleção de quadros completamente kitsch como é hábito nesse tipo de evento. Grande surpresa!

Com pouco ouro e muita luz vestindo o espaço, construindo cenários e cobrindo os corpos de todos aqueles muitos artistas voluntários assim como de outros, os profissionais, desde o início da transmissão ao vivo, compreendi que desta vez chamaram artistas competentes para montar o espetáculo mundialmente televisionado e, graças ao “pai Goglee” constatei que ali tinha a criação artística da “menina maluquinha”, a cenógrafa Daniela Thomas e dos cineastas e roteiristas, Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”; “Ensaio sobre a cegueira”) e Andrucha Waddington. Nada mal!

A ideia do trio era de contar a nossa história oficial resumidamente, alertar o mundo para a aceleração do processo de aquecimento global, preparar os jovens – como o atleta que entrega a tocha ao outro, para que recebessem um mundo melhor,  e que, simbolicamente fossem plantadas muitas árvores para compensar os estragos que andamos fazendo…

Afficher l'image d'origine(P6)

Naquele espaço surgiu a narração visual, real e virtual da História do Brasil, começada no tempo das águas, fonte de vida, antes da aparição da floresta e do homem.

Rio de Janeiro - Cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016, no Maracanã (Reuters/Antonio Bronic/Direitos Reservados)(Agência Brasil)

Satisfação primeira ter visto os indígenas “de verdade” reproduzindo seus sons e danças, reconstruindo a sua aldeia e a sua arte de cestaria apenas com luz e fitas presas em invisível cabo horizontal; de dar água na boca à etnóloga Bety Mindlin!

Idém para os jovens que representavam os escravos; nada de branco pintado de preto como se fazia na época da “Boneca de Pixe” ou durante os filmes holywoodianos que o vento já levou…

Na ordem cronológia da História, revi meu país poeticamente contado, transformando o espaço no tempo, criando metrópoles modernas dotadas de belos edifícios rodeados das conhecidas favelas.

O problema foi o conjunto de comentários feitos por dois jornalistas franceses, cujos nomes não declinarei para que não percam o seu emprego na televisão do país; felizmente eles foram auxiliados pelo Rai, nosso ex-jogador de futebol, estrela do clube paris Saint-Germain há alguns anos atrás; quando o deixavam abrir a boca, ele dizia coisa com coisa, embora explicando algumas cenas, expressões ou palavras  do seu ponto de vista político e sujeito à sua apreciação ideológica.

   (Contraste Palestras)                Afficher l'image d'origine

Embora com francês fluente, porém claudicante na concordância, Rai salvou o que poderia ser salvo das águas turvas da completa ignorância dos dois comentaristas.

Não sei se foi por causa do ópio contido na fórmula de um potente remédio contra a dor, transe ou sonho, ou então um pequeno problema de audição de uma senhora à beira da terceira idade, mas imagino ter ouvido estonteantes besteiras a começar pelos anos do descobrimento, onde Cabral foi trocado por “Vargas”, e os descobridores,  citados apenas como “conquistadores”, prevalecendo esta última designação, mais conotativa aos espanhóis ao invadirem a América Latina; erro perdoável se comparado à data chegada dos escravos no Brasil nos anos “1650” para plantar (na ordem) “café” e cana-de-açúcar; ou à vinda da da família real portuguêsa um ano antes que Napoleão tivesse invadido Portugal, pois o locutor afirmou ter sido no século “XVIII”, apesar de ter assinalado a data em “1807”.

Não é nada, não é nada, a geografia imaginária fez os dois jornalistas franceses alegarem ao microfone  que a Floresta Amazônica possuía “8 milhões de Km2”, provavelmente englutindo o sertão do nordeste e caindo diretamente no oceano Atlântico, o que não arranjou as coisas!

Afficher l'image d'origine(globo.com)

Foi quando as luzes criaram uma linda favela virtual; ninguém soube explicar a razão daquele aparecimento, embora na realidade tivesse sido ela erguida no morro íngreme pelos homens que saíram na marra dos cortiços, atingidos pela febre amarela, deixando o perímetro da cidade para que o prefeito, o engenheiro Pereira Passos afrancesasse a capital federal e tirasse os pobres dali!

Com seriedade, um dos jornalistas afirmou que a palavra “favela” era uma metáfora da flor amarela que crescia por ali. Pessoalmente, aprendi que  “favela”, assim como “cortiço”, tem a ver com as abelhas amontoadas em “favos” de mel da colméia, os “cortiços”!

A “Capoeira”, antigamente treino para a luta que os escravos fugidos faziam dissimulando a técnica marcial em dança para não chamar à atenção os seus algozes caçadores, foi transformada em “coreografia africana”. Ils sont fous ces gaulois!(“Esses franceses são loucos!”)

                (wee move)                              Afficher l'image d'origine

Prevendo o show que viria em seguida, falou-se que Elza Soares, o maior amor do “futeblista madrilenho”, Garrincha, iria cantar para o público presente! E que Gilberto Gil e Caetano Veloso também.

Eram “os velhos” transmitindo algo de melhor para a nova geração, ali materializada por uma “cantora e compositora”, realmente das piores!

(Agora sei porque é difícil vender os meus livros!)

Nunca havia visto “Anitta” e o destino quis que ela aparecesse em cena para que eu desligasse a televisão. Chamei o “pai Goglee” pela segunda vez e li tudo sobre o seu curto passado e presente sucesso; aproveitei para ver algumas imagens no Youtube afim de compreender se aquele número merecia mesmo ter sido apresentado e caí em desgraça: pena perdida e sono idem!

Os brasileiros quiseram mostrar valores adquiridos e enraizados no Patropi; concordei até com o Paulinho da Viola remasterizando o hino Nacional, e os “velhinhos” mostrados, afinal Gil e Caetano são jovens que conseguiram viver muitos anos!

Também aceitei Regina Casé cantando, agora que ela é conhecida internacionalmente por causa do Filme “A que horas ela volta?”; ou Gisele Bundchen desfilando para 80 mil pessoas, pois na verdade deve ter desfilado para 80 milhões!

Elogiada a cenografia, inspirada emo obras de Vasarely, com estilização das fotos de Yann Arthus-Bertrand e a arte J.R. nos cubos enfileirados que deram origem à representação do 14 Bis, elogiado o trabalho dos voluntários, plugados à direção artística com seus fones de ouvido, mais ou menos criticando negativamente os artistas que se apresentaram (Será que nos 40 anos que fiquei fora do Brasil não apareceu nenhum outro gênio musical comparado ao Tom Jobim, Caetano, Gil e Chico?) chego quase ao final desta minha crônica.

Bem; se somente foi triste a apresentação – muito prazer e obrigada!-  da Anitta, –  então os “velhos” estão perdoados!

(MTV)

Ficou-me apenas uma pulguinha atrás da orelha: 11 mil atletas puseram uma semente no receptáculo que vai ser plantado em torno da Vila Olímpica, batizado Ilha Pura.

Por que não fazer o plantio dessas 11 mil  árvores na zona devastada da região de Mariana,  pela imperícia da Samarco,  em vez de criar um parque privado construído pelas “conhecidas” empresas  Carvalho Hosken e Odebrecht, para os prédios com áreas de lazer, piscinas e outros tralalalás onde os apartamentos de dois, três ou quatro quartos  que recebem atualmente os atletas serão vendidos a um preço forte? 

Abraços plantados;

wilma.

 

*20h no Brasil, dia 05/08/2016.
Anúncios
Esse post foi publicado em Quem sou eu?. Bookmark o link permanente.

11 respostas para Abertura dos Jogos Olímpicos de 2016 assistida na França.

  1. Maria de Lourdes Correia de Souza Renault Baeta disse:

    Ei Wilma! Ontem tudo foi lindo na abertura…. Incluindo a vaia ao mais covarde te todos os presentes! Como você fique pasma ao escutar os comentarios dos 2 infelizes comentaristas! Houve momentos de querer telefonar para a TV para pedir que calassem! Beijos! Maria

  2. Levantar as falhas é fácil, o difícil é projetar e fazer, pra mim que sou cega em geografia não vi erros nem gafes, tudo lindo, criativo, natural e maravilhoso, o que importava mesmo era a imagem em todos os sentidos, a beleza original vinda desta nesguinha de terra abençoada, coberta de espumas que se dissolvem mas voltam eternas. Parabéns ao ex presidente LULA que batalhou e conseguiu trazer a Olimpíada 2016 pra cá, para o nosso amado BRASIL. MPerez – em 06/08/16 – Rio das Ostras – RJ – Brasil Brasil Brasil Brasil!!!

  3. Mansur Lutfi disse:

    A apresentação foi deslumbrante. Não esperava tanto. Quero ver de novo para fruir de tanta beleza simples e humana. Nada foi kitsch, nada falso.
    Se você se desesperou com os comentaristas franceses assessorados pelo Raí, imagine o que foram os comentários sobre as comissões dos países que desfilaram. O vergonhoso é que não têm nenhum escrúpulo em localizar os países (principalmente as ilhas e arquipélagos) onde bem entendessem. E a confusão entre países que foram da URSS e os da Cortina de Ferro! Para eles era indiferente. Maior vergonha alheia!
    Gostei do teu comentário, recheado de referências importantes.

  4. Marisa disse:

    Muitas criticas pertinentes de brasileira que pode analisar de fora a abertura da Olimpíada.
    Avalio que foi um espetáculo realmente artístico, com mensagem politizada para o mundo. Porém, o evento de forma geral deveria ser considerado em seu alto custo.
    Terá a nação o devido retorno? O retorno financeiro para o povo que sofria/sofre as agruras das deficiências nas áreas de Educação, Saúde, Segurança, enquanto via a construção do “Olimpo” no Brasil? Muito pouco provável, pra não dizer impossível. Mas os nossos “políticos- deuses” não estão nem aí…
    Por fim, gostei demais da observação crítica da cronista, quanto ao destino a ser dado as sementes plantadas pelos atletas: as áreas degradadas pelo desastre ambiental da Samarco.

  5. Wilma, muito bom ver a visão de quem assistiu esta abertura longe de nossas terras, inclusive com as citações aos comentaristas, que sem as informações necessárias, podem fazer uma leitura diferente. Pelo menos tiveram a preocupação de ter o Rai para ajudar de alguma forma.
    Difícil ter uma unanimidade, sempre irão existir pontos discutíveis e que poderiam ter soluções diferentes de acordo com a visão, cultura, expectativas, preferências pessoais de cada um.
    O mais importante para nós é que tivemos a oportunidade de recuperar parcialmente nossa autoestima tão maculada, tão violentada, maltratada por governantes corruptos, sem escrúpulos e compromissos com a causa social que eles tanto invocam e menosprezam.
    Dar crédito a esses governantes medíocres, que focaram a realização desses jogos com a intenção maior de aproveitarem mais uma oportunidade de desvios de verbas, superfaturamento das obras, é um atestado da cegueira e falta de equilíbrio na avaliação do caos em que nos encontramos.
    Valeu como uma lavagem da nhaca, da alma, de um povo que não merece um desgoverno como o que temos há mais de uma década.

    • Pior é ver os maravilhosos filmes de LENI RIEFENSTAHL colobarodara de Hitler, que em 39 filmou os Jogos de Berlim, sabendo que pouco depois desaguaria a II Grande Guerra Mundial.
      A cineasta, uma das melhores dos anos 30/40,
      esteve no lugar errado e no momentos histórico que ela mesma ajudou a criar.

  6. Piores foram as velharias: Madona, Frank Sinatra e outros que aparecem no Brasil só pra arrancar dinheiro até dos favelados…apenas um palpite. Desejo deixar aqui meu elogio à crônica
    da comentarista escritora repórter Wilma Shiesari Legris, sempre bem-vinda,fidedigna, incansável nos pormenores das informações descritivas e factuais. Que saúde! MPerez

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s