“Visita-surpresa!”

A VISITA

Posted by in CRÔNICAS/CONTOS

2016 Arte Puio + smFui dormir tarde na noite anterior, fiquei trabalhando em cima de um livro que estou finalizando e deve ser lançado ainda no próximo mês, uma biografia com muitas fotos, não era tarefa fácil.
Acordei cedo, precisava imprimir um boneco do livro. Terminei de fazer a arte, salvei os arquivos no pendrive e corri para a gráfica rápida. Deixei o material lá e passei no banco para tirar um dinheiro, pagar contas, depois, pegar o boneco, almoçar rápido e ir para a reunião com o cliente. O dia prometia. Mas eu não tinha ideia do quanto!
Estava retirando o cartão de débito, depois do saque, quando senti uma presença conhecida na máquina ao lado da minha: meu pai.
Meu pai? Não pode ser! Pensei enquanto olhava para ele surpreso.
– Pai, o que você está fazendo aqui??
– Oi filho, vendo saldo, tirando um dinheirinho. Disse ele com aquele sorriso que era sua marca registrada. Meu coração acelerou, por pouco não cai no chão de susto. Não estava entendo o que estava acontecendo.
– Mas pai… pai… como assim??? Você…
Ele não deixou eu terminar a frase. Me pegou pelo braço e começou a andar ao meu lado em direção à porta do banco. Eu continuava sem entender, mas o prazer, o amor, a surpresa de encontrar com ele só me fazia olhar, querer abraçar, era uma saudade difícil de explicar. Esses dias, véspera do dia dos pais, o meu ainda fazia aniversário na semana, deixava a carência de estar com ele potencializada, não pensei que iria vê-lo, jamais, e agora ele estava ali, sorridente, ágil, super bem, incrível, não conseguia acreditar.
– E então, está com fome? Estava com saudade, vim te ver, podemos almoçar, conversar, estou por sua conta.
Eu continuava atônito, só conseguia olhar para ele, ouvir sua voz, absorver sua presença emanando uma energia contagiante, inebriante. Este era o meu pai, um ser humano único, amoroso, sensível, companheiro, tudo estava bom para ele, estivesse a gente onde fosse, na praia, no sol, debaixo do maior temporal, com o carro quebrado na estrada, na piscina do navio, na fila do banco, não importava. Ele encarava a vida com um otimismo, alto astral, uma certeza que no fim tudo dá certo, que era difícil vê-lo triste, sem um sorriso no rosto. Claro que teve, como todo mundo, momentos complicados, não agradáveis, pesados, mas ele dava um “Tudo bem”, e tudo ficava bem de alguma forma. Sentiu profundamente a morte da minha mãe, depois da minha tia, irmã dela, foi uma fase complicada, mas nem isso impediu que, do nada, um sorriso abrisse o seu rosto iluminando quem estivesse em sua volta.
Agora ele estava ali, falando, sorrindo, encantando, como sempre. Ter ainda um pai ao lado para abraçar, curtir, é algo que a gente só percebe o valor e a grandeza quando não se tem mais. A vida anda tão acelerada, a tarefa de dar atenção às múltiplas escolhas do dia a dia, nem sempre as que mais importam ou necessárias, faz com que não nos atentemos para o tamanho das perdas que inevitavelmente acontecem.
Poder, do nada, resgatar essa companhia, essa perda que sentimos profundamente, é uma conquista que não dá para mensurar, um sonho dourado que não tem preço. Eu me sentia assim.
Não pensei mais em pegar os impressos na gráfica, na reunião marcada que seria desmarcada, nada mais importava. Fomos almoçar, conversamos, conversamos, conversamos, curtindo cada palavra, cada menção, aos canalhas governantes, a liderança do nosso Verde, campeão do primeiro turno do Brasileiro, a abertura das Olimpíadas, aniversário das crianças, tudo e todos.
Acordei um pouco mais tarde do que a hora que coloquei no despertador. A noite tinha sido longa, fiquei até tarde em cima do livro que vai ser lançado no próximo mês. Precisava finalizar os arquivos, levar para a gráfica rápida fazer o boneco, ir ao banco, pagar umas contas, almoçar rápido para a reunião com o cliente.
A sensação de ter estado com o meu pai ainda me entorpecia, deitado na cama. Dia dos Pais, e ele veio me visitar. Que saudade, pai!

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4 respostas para “Visita-surpresa!”

  1. Nice Brigato disse:

    Maravilhoso texto… Dá vontade de adormecer, pensar e esperar este sonho acontecer com a gente!

  2. Você tem toda razão, Wilma, vou ter um dia muito feliz, pode incluir um final de semana.
    Obrigado, Nice, este tipo de retorno faz a gente que rabisca palavras ter o motivo de continuar rabiscando.
    Obrigado, Wilma.

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