Depois dos jogos: Myrtes Suplicy Vieira, José Horta Manzano e eu!

O florão da América

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Pode ser que eu me engane, mas guardo a nítida impressão de que duas visões contrastantes, praticamente opostas, do Brasil se digladiaram nas cerimônias de abertura e de encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016.

A primeira me emocionou até às lágrimas por ter sido proposta com a alma. Retratou com incrível senso estético e sutileza o país que poderíamos ter sido caso tivéssemos aprendido a tempo a reconhecer e explorar com responsabilidade social os imensos recursos naturais e humanos de que dispomos. Inovou ao incorporar terapeuticamente o lado B, sombrio, de nossa história. Corajosamente deixou de lado o ufanismo inconsequente e se permitiu representar também nosso passado de cumplicidade com a escravidão, de descaso e aniquilamento das tradições indígenas, de instrumentalização arrogante da mão de obra imigrante. Graças à delicadeza e tom poético das imagens, pôde ilustrar também o Brasil que poderíamos vir a ser caso o desejo de transformação habitasse o coração de todos. O país que seríamos capazes de construir se e quando nos sentíssemos todos, de fato, donos deste país. Simbolicamente, nos apresentou ao mundo como o espaço privilegiado do sonho, da esperança, do potencial, da semente ávida por germinar e se erigir em árvore bela, de raízes profundas.

A segunda, paradoxalmente, só fez por me distanciar emocionalmente. Para mim, significou tão somente um espetáculo elaborado com a cabeça, de caso pensado. Apresentou apoteoticamente ao mundo o Brasil que somos apesar dos pesares, o país que nos orgulhamos de exibir “para inglês ver”. Trabalhou exclusivamente com os arquétipos já consolidados na cabeça de todo estrangeiro: aquele país tropical onde predomina a festa, a mistura, a informalidade… e, infelizmente, a alienação. Aquele pedaço do mundo onde o circo consegue disfarçar inconscientemente a falta de pão, onde a alegria é ensaiada e a igualdade é vivenciada com alívio apenas em dias de Carnaval. A superação de limitações, como de hábito, não foi convidada para a festa. Em consequência, o bombástico festival de cores e de sons deixou em mim novamente uma triste assinatura: já está bom assim, não é preciso se esforçar mais, esse é o máximo a que podemos aspirar.

Não digo estas coisas com rancor. Sei que estávamos todos merecendo um intervalo, que precisávamos de alguma forma de catarse. As duas cerimônias valeram por isso. Apenas não consigo ocultar de mim mesma uma certa tristeza, amargura ou inquietação com os contornos que o futuro de nossa pátria pode assumir uma vez terminada a festa. Sinto medo de que o desânimo tome conta mais uma vez de nossos espíritos antes que a faxina esteja realmente concluída.

JO 2016 8Apavora-me a ideia de que um novo controlador-geral da nação surja para nos ditar o ritmo, as tarefas de cada um e as áreas que ainda falta limpar. Que um novo salvador da pátria consiga mais uma vez nos seduzir com a promessa de dias melhores se fizermos tudo que seu mestre mandar. Que acreditemos mais uma vez que o futuro a Deus pertence e que, por pura cordialidade, aceitemos transferir alegremente a Ele a responsabilidade pela construção.

(*) Myrthes Suplicy Vieira, caetanista, é psicóloga, escritora e tradutora.

A mágica acabou

José Horta Manzano(*)

Os Jogos Olímpicos que se acabam tinham sido motivo de preocupação, não só no Brasil como no exterior. Havia receio de atentados, de manifestações de rua conduzidas por hordas de descontentes. Temia-se sobretudo que o vírus Zika matasse metade dos visitantes enquanto balas perdidas cuidavam de liquidar os demais.

Favela 1Felizmente, o mundo não caiu. Para turistas e enviados estrangeiros, que receavam não escapar com vida da estada no Rio, até que não foi tão catastrófico. Tirando um ou outro assaltozinho e uma fieira de furtos, os Jogos transcorreram dentro do que se pode esperar de um país de Terceiro Mundo. Até que não foi tão mal. Ficou a conta pra pagar mas, como Deus é brasileiro, há de se dar um jeito.

A meta lançada ao ar pelo Comitê Olímpico Brasileiro ‒ de classificar o país entre os 10 melhores do mundo ‒ não se realizou. Fica a incômoda impressão de que não era bem uma meta, mas uma simples esperança. Dez melhores? Por que não entre os oito melhores? Ou entre os doze melhores? Por que visar uma classificação e não um número de medalhas? Favor encaminhar eventuais questionamentos ao COB.

Nas semanas que antecederam a Olimpíada, a mídia europeia falou muito do Brasil em geral e do Rio em particular. Dado que imagens de gente fina se tostando ao sol de Ipanema são demais batidas, a tevê preferiu focalizar o lado B do Rio de Janeiro, os aspectos mais sombrios. Foram mostradas cenas de polícia subindo o morro, de bandidos sendo caçados, de rodinhas de crack, de brucutus percorrendo favelas, de muita pobreza.

No entanto, para quem observa de fora, as duas semanas dos JOs foram um refrigério. Dezenas de canais de tevê mostraram diferentes modalidades de esportes, a mídia falada e escrita teceu loas aos campeões e lamentou alguns fracassos. Em resumo, todas as atenções estiveram voltadas para a competição e as mazelas foram esquecidas.

Agora, terminado o espetáculo, volta-se à realidade. Impeachment, falcatruas, corrupção, desvio de dinheiro público, desemprego, inflação já estão voltando ao noticiário. O que é bom dura pouco. O circo foi desmontado e o Brasil real ressurgiu.

                               Interligne 18h

O legado
No Brasil, falam do «legado» dos Jogos. Pra começar, a palavra é inapropriada. Legar é dar de graça. Os despojos deixados pelas competições continuarão sendo bancados com o dinheiro do contribuinte brasileiro. É como legar algo a si mesmo, um despropósito.

(*) José Horta Manzano, caetanista, é o redator do blog BrasilDeLonge e colaborador do Correio Braziliense)

Esperançosos, racionais ou descrentes?

wilma schiesari-legris (*)

Os dois mais antigos cronistas colaborados deste bolg , meus amigos Myrthes Suplicy e José Manzano, deviam ter sido os melhores alunos da sua classe na época em que foram colegas no Clássico do então Instituto de Educação Caetano de Campos: ideias embasadas em conhecimento de causa, escrita elegante, habilidade dissertativa, primor sintáxico, estilo inigualável…

Nota 10!

Quanto a mim, por razões diametralmente opotas às dos meus colegas, obtinha nota dez nas redações escolares, levada pelo delírio que desaguava num estilo espontâneo e sarcástico: eu já era psicótica e não o sabia…

Talvez por isso mesmo, embora criativa, a excentricidade casada ao bizarro me conduziu à essa impulsão, sempre refletindo muito mais com o fígado do que com o cérebro, dentro do meu mundo eufórico ou depressivo.

Os Jogos Olímpicos, que no inconsciente coletivo representam força, graça, agilidade e euforia, potência,  são para mim o motivo de uma profunda tristeza; como bem escreveram meus colegas, “acabada a festa sobra a conta a pagar e a esperança do mundo até que daqui a quatro anos a roda recomece a girar”.

Eu, ao contrário me fixo nos Jogos de 1936: Berlim, verão, estádios novinhos em folha, juventude esportiva, gente nas ruas, esportistas do mundo todo sendo acolhidos como se aquele fôsse o melhor dos mundos.

Era o auge da hipocrisia do Reich, suspendendo momentaneamenteas perseguições feitas aos judeus, apagando as estrelas de Davi incrustradas a pincel banhado a cal pelos soldados da Wehrmacht nas vitrinas dos comerciantes que praticavam aquela religião, recolhendo os cartazes antissemitas colados em postes e muros, tratando os turistas a pão-de-ló e até pedindo autógrafos aos esportistas estrangeiros que fugiam aos critérios arianos que o regime pregava.

Com superioridade numérica de medalhas entre os concorrentes, os alemães mostraram ao mundo que eram os deuses do estádio e que estavam prontos para dominar o planeta  expandindo sua ideologia nazista; nos próximos quatro anos, eles ainda seriam os maiorais e haveriam de colher mais medalhas ainda no prometido solo japonês.

Não aconteceu; todos sabemos para onde conduziu o complexo de superioridade germânica, quando Hitler confundiu os campos de batalha com os estádios e, o triunfo da vontade embutido no peito de cada alemão não foi suficiente para criar a hegemonia alemã na Europa.

Em 1940, por razões óbvias, o Japão não realizou a 37a Olimpíada.

Em 2020  acolherá o País do Sol nascente os deuses do Olimpo ou nova interrupção dos jogos olímpicos poderá acontecer?

Em quatro anos teremos tempo de não matarmos nem de morrermos no hemisfério  norte do planeta?

Quem estará dando as cartas? Líderes governamentais dominados pela sede de poder tentando imperar no solo da ex-União Soviética ou a potência árabe compradora de times de futebol?

Em todo caso, a 36ª Olimpíada quiz deixar claro ao mundo, com um recado bem dado, que na Terra somente prestava o solo aleméao e para isso até contratou a cineasta Leni Riefenstahl para filmar o evento, de maneira que o espectador ao visionar o filme, pudesse se concientizar que chefe só havia um e que deveríamos nos inclinar à sua vontade.

O filme “Os deuses do Olimpo” é um dos mais belos da cinematografia alemã dos anos 30/40 e serviu à imunda propaganda do regime nazista; pago tres vezes mais caro que um documentário da época, podemos ver planos antológicos de grande modernidade para a época, confundindo, propositalmente, os ginastas arianos com os deuses gregos da Grécia Antiga.

Infelizmente qualquer cinéfilo ou crítico de cinema deverá se inclinar à beleza inovadora dos planos milimetricamente escolhidos na filmagem e na monatagem por Leni Riefenstahl, que graças ao apôio incondicional do Reich levou mais de dois anos para terminar a obra, rodada tanto nos jogos, como nos estádios vazios, em travellings vanguardistas, em enquadramentos impensáveis (plongée e contreplongée dos atletas), em movimentos laterais de câmera com conotação estética invejável, com narração fílmica reunindo os tres elementos fundamentais, a saber: terra, água e fogo; era a 7ª Arte à serviço do demônio!

Assistam ao filme e apreciem sua longa introdução onde Leni ressuscita a Grécia Antiga, classificada pelo regime de “ariana”, até o momento em que o discóbulo de Miron , em metáfora evidente, se confunde ao jovem atleta teutônico.

Passado esse intróito, cada disciplina é apresentada através de atletas alemães, geralmente filmados à parte, depois dos eventos concluídos, mesmo se Winner ou Jesse Owens, esportistas norte-americados negros, tivessem mostrado ao mundo a superioridade de sua arte.

Os palnos intrigantes de Leni Riefenstahl se contam às dezenas, entre pontas de lanças inclinadas para o futuro, sinos em dobre que lembram o capacete dos soladados alemães, pombos-correio soltos às centenas como os aviões no campo de batalha, clarins paradisíacos anunciando a entrada no estádio – seja do atleta que alumia a tocha, seja do corredor da maratona no final do filme,- tudo meticulosamente mis-en-scène, absolutamente falso ao verdadeiro documentário que o filme pretende ser.

O epílogo da obra, mostrando os atletas do mundo todo e suas bandeiras inclinadas em frente da tribuna oficial ao som do hino japonês como se estivessem dobrados à autoridade do führer e o plano americano do ariano recebendo os louros, deixam claro as intenções do regime.

O filme ficou pronto em abril de 1938; depois sabemos como acabou a história.

 

(*) wilma schiesari-legris, é caetanista roxa e escritora nas horas de delírio; lançou este blog em 2010.

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Expressão livre: textos dos leitores. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s