…e a crônica do caetanista Humberto Migiolari.

Humberto Migiolaro                             hmigiolaro@lpnet.com.br

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EU SOU BRASILEIRO, COM MUITO ORGULHO…

 

            É lindo, muito lindo, eletrizante, chega a arrepiar. Aquela galera toda, de mãos dadas, bandeira na mão, camiseta amarela, boné da seleção, em uníssono, muitas lágrimas exibidas nas faces. A imensa multidão, estádio lotado, canta irmanada louvando a gloria de uma nação que nos invade o peito. Parece que o mundo se fecha em torno das pessoas, só se percebe o amor à pátria, o orgulho, quase vaidade de um povo benquisto. Todos se amam, todos são irmãos, o hino nacional capengado no estribilho soa emocionante antes dos eventos, mão direita no peito, olhar altivo, coração saltitante.

            Nas competições esportivas sente-se pulsar o patriotismo cochilado, somos todos amigos, nos queremos bem, somos irmãos de pátria e sentimento. Cada gol provoca um rolar de gritos frenéticos, abraços e beijos a quem estiver ao alcance. A nação felizarda, amada e idolatrada, salve-salve. Nem sempre se impõe a vitoria de nossos ídolos, mas mesmo assim eles são saudados como guerreiros que tombam com o sorriso do dever cumprido. Não existem limites para o amor à pátria, nos esportes, nas festas de ruas, nas copas, cozinhas e lajes. Roda a caipirinha com limão de padaria, a gelada em copo birola, o fumo cheiroso da costela e lingüiça na brasa. É dia de jogo, é dia de vitória cantada de antemão em prosa, verso, euforia de massa que sempre ganha na véspera. Quando se confirma a vitória, é um corre-corre e sinfonia de buzinas de Fuscas, Brasílias, Mercedes, bicicletas enfeitadas. A nação merece, é nossa pátria mãe gentil, diz o hino no subir da bandeira.

            O povo canta e declina slogans ensaiados e decorados em repetições infindas. As ruas, praças e avenidas se vestem de verde-amarelo, na imensa glória de um povo que sabe o que quer, embora não ligue muito para isso. O que vale é a festa, a reunião dos amigos, da turma da esquina, do condomínio enfeitado, das bandeiras na janela. Deus é brasileiro e mora no Rio de Janeiro, diz o refrão. O Papa é argentino, mas tem sangue brasileiro. Nação abençoada, terra das vitórias, mesmo que às vezes incompreendida pelos juízes e julgadores.

            Nas ruas as manifestações (lembram?), era uma voz única, um povo irmanada na luta contra a injustiça, a imoralidade, a falcatrua, a miséria e o desemprego. Faixas exibiam o descontentamento, a revolta das pessoas, grande parte delas no celular e postando selfis no facebook. A carestia, inflação, pobreza, a educação e a saúde apenas em horário político acordava as pessoas, que saiam para os protestos. Mas, interessante, não exibiam no rosto a tristeza do desalento. Ao contrário, cantavam, dançavam, namoravam e faziam charme para as câmeras. O brasileiro é alegre, afoga as mágoas com sorriso na face,…

            A Copa da falcatrua e superfaturamento de obras não coibiu o povo de comemorar cada resultado como a gota de vida que ressurgia. A glória alemã fez brotar as lágrimas da tristeza. Mas logo secaram, nosso povo é invencível.

            As emissoras, jornais, revistas, a mídia enfim, ressaltaram à exaustão as façanhas de um baianinho que ninguém sabia que existia e de uma moreninha de aparelho nos dentes apoiada pela Marinha. Na praia as pessoas se abraçavam na gloria do ouro da dupla masculina. No ginásio de esportes a vitória do grupo de comando sério empolgou a mais não poder a euforia da vitória. O Maracanã resgatou o desastre de 1950 e a tragédia do Mineirão. Somos campeões, vingamos os inimigos mesmo que nos pênaltis. O povo saiu, bailou, gritou, se embandeirou outra vez. E assim corre a vida…

            Segunda feira, Ah a segunda feira! Como é sofrida a ressaca da vitoria e da derrota mal contada. É dia de basquete, de pular cedo, de comer o pão amanhecido, manteiga no finzinho, café fraco, mas bem docinho. Depois é o ponto do ônibus, a estação de trem, o metrô abarrotado. A moça espremida no ônibus se deixa roçar pelos patriotas de boné verde amarelo. Gritar é perigoso, ficar quieta é mais saudável. Chegar tarde ao emprego, o chefe é um tirano, direto para o RH, logo se arranja outro emprego. Agora o importante é comemorar, na roda da gelada com o patrocínio da indenização.

            Amanhã é outro dia, e ele chegará de certo e de direito. Povo ordeiro, feliz, patriota e honesto. Lembram aquele taxista que entregou na TV a pasta cheia de dólares? E o outro segurança que devolveu na delegacia uma carteira recheada encontrada ao acaso?

            O povo é feliz ou se faz de tolo, mesmo que as crianças passem necessidades, que os velhos sejam esquecidos, que as mulheres sejam maltratadas, que se diga adeus às esperanças, que se perca o trabalho e a dignidade, que a casa seja invadida, que o celular seja roubado.

Educação de verdade? Saúde sem fila, hospitais aparelhados? Estradas minimamente transitáveis? O que se mostra evidente é a moralidade política caolha que só enxerga o que quer. Imundice nas estatais, empreiteiros coniventes e em cumplicidade com a roubalheira do governo.

Morte indigna nas macas dos corredores dos hospitais? Assalto? Assassinato? Seria isso motivo de festa e comemoração? Ora, eu não perdi o emprego, não estou doente, nunca fui assassinado, isso só acontece com os outros:

            EU SOU BRASILEIRO, COM MUITO ORGULHO…

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