Crônica semanal do caetanista Renato Castanhari Jr.

HAJA CORAÇÃO!

by Renato Castanhari Jr.

2016 Ricardo Coração smDesde a semana passada, a rotina se alterou, o coração acelerou. O meu, dos familiares, dos amigos e do meu irmão. No caso dele, Ricardo, de mais de um coração.

O seu original cumpriu com a missão e descansou, parou de bater daquela forma mágica, que a gente, por tê-lo no peito desde que nascemos, nem nos atemos a como o seu funcionamento é inexplicável racionalmente. Não tem uma fonte de alimentação visível, não tem um carregador, nada, funciona independente da nossa vontade, se altera em batimentos seguindo nossas emoções, nos mantém vivos por uma fonte divina. E o que durante séculos nem se cogitava, o original hoje pode ser substituído por outro, por compatibilidade orgânica, vindo de outro ser que o Ricardo nunca viu na vida, nem mesmo o nome do portador original ele sabe. E por um milagre operado por mãos e mentes privilegiadas, esse coração doado passa a prolongar a vida de quem o recebe no mais absoluto anonimato.
Agora o Ricardo embala um coração renovado, que bate no seu compasso, que está aprendendo os seus passos, que será guiado e irá se emocionar e disparar pelo seu olhar. Ainda estão se conhecendo, se percebendo, mas a afinidade vem de outros mundos, que só os irmãos de espécie podem entender e justificar.
Ser testemunha desse milagre, estar presente e vivenciar este momento, sentir o bem que um anônimo desconhecido pode proporcionar a um irmão de alma, ao meu irmão de sangue, com o simples ato de doar sua fonte de vida, é uma experiência única, difícil de colocar em letras e linhas. E ao mergulhar neste ambiente jamais visitado, ainda somos presenteados por histórias outras que o nosso coração, já tão rodado, se vê novamente obrigado a acelerar, de prazer e gratidão. Como a do taxista pego na porta do hospital.
Jorge é taxista já há algum tempo, mas antes foi jockey no hipódromo de São Paulo. Herdou o dom do pai, jockey consagrado dos tempos de L. Rigone e Dendico Garcia. Ao comentar com ele sobre o meu irmão, o transplante feito, ele contou a história de uma prima, Camila.
Camila era uma jovem do interior que veio estudar em São Paulo. Na escola conheceu Alberto e se apaixonaram ao primeiro olhar, no primeiro encontro. Namoraram por alguns anos, noivaram e casaram seus corações, que acabaram por se unir de uma forma que nem a morte foi capaz de separar. Para Alberto, ela chegou tragicamente, dez anos após o casamento com Camila, em um acidente de carro, na volta de uma reunião de trabalho. Alberto ficou alguns dias na UTI, em coma, e Camila, atendendo ao seu pedido, doou todos seus órgãos, inclusive seu coração quando ele parou de bater.
Passaram-se doze meses, o tempo já havia amainado o coração de Camila, que ainda batia triste pela morte de Alberto, mas que se via obrigado a seguir batendo pela vida que tinha pela frente. E sem explicar a razão, ele acelerou ao entrar na reunião de aniversário de uma amiga do escritório, Sophia. Estavam presentes colegas e alguns familiares de Sophia, coisa simples, apenas os mais chegados, entre eles Cacá, primo de um amigo que visitava São Paulo naquela semana.
Camila foi apresentada a Cacá, seus corações já se conheciam.

Há exatos 12 meses, Cacá tinha nascido de novo e estava lá para comemorar seu novo aniversário. Há exatos 12 meses, Cacá recebeu um coração novo, após seis meses de espera internado. Um doador generoso havia sofrido um trágico acidente fatal, após voltar de uma reunião de trabalho. Ele se foi, seu coração ficou em busca do coração do seu amor, amiga de Sophia, do escritório.

 
Renato Castanhari Jr. | 31/08/2016 às 11:31 am | Categorias: CRÔNICAS/CONTOS | URL: http://wp.me/p1GYYg-rZ
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3 respostas para Crônica semanal do caetanista Renato Castanhari Jr.

  1. Jéthero de Faria Cardoso Junior disse:

    Belíssimo!

  2. Ele vai saber que você gostou! bjs

  3. Obrigado Jéthero, pelo comentário.
    E a você, sempre, Wilma, pelo espaço.

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