Leandro Karnal e eu… “RODA-VIDA” (wilma legris)

EU:

Domingo, dia 4 de setembro,  o jornal “O Estado de São Paulo”, colocou a quarta crônica do meu novo mestre, Leandro Karnal.

Uns dias antes eu terminava minha crônica sobre o mesmo tema de domingo passado, que o mestre escreveu com brilhantismo no meu jornal preferido.

Comecemos pela escrita da amadora e depois vocês poderão se delectar com aquela do mestre.

Boa terça-feira para vocês daqui do Limousin onde desde o dia 27 de agosto acampo diante da casa do casal Périchon, sozinha no vilarejo de pedras, onde a “box” pirateada me permite de enviar estes textos.

Abraços corujas,

wilma.

06/09/2016.

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Roda-vida

(wilma legris)

Nasceu numa primavera de setembro dos anos 40.

Sua mãe lhe protegeu e lhe esquentou o corpo amoldável e evolutivo durante os nove meses  de alto verão e de inverno intenso, com garoa e geada, dentro do seu ventre elástico e cáustico.

Viu a luz e chorou pela primeira vez, quando, de cabeça para baixo como uma galinha antes de conhecer a morte com o pescoço torcido e alongado, teve suas nádegas esquentadas pelas palmadas do doutor de plantão e colocado num berço duro da maternidade, novidade última  cidade.

Chorou pela dureza da vida, da palmada e do colchão.

Por incompatibilidade de gênios, nem a sua mãe lhe amamentou nem ele se sentia à vontade diante daqueles seios inchados e redondos, repugnantes ao amor conjugal e materno; assim sendo,  seu complexo de Édipo não teve a mesma intensidade que normalmente atinge os meninos em geral.

Dos nove meses no ventre aos nove meses fora, sua vida se restringiu a um leito cheio de cobertas, e a troca incessante  e obsessiva de curativos umbilicais, cuja ferida se recusava a cicatrizar, esperando que lhe colocassem de volta no calor do ventre, agora livre.

Fraldas e mais fraldas de algodão eram superpostas por cueiros de flanela, tudo fechado com enormes  alfinetes de segurança e, por cima, muita roupa,  quente demais para os meses que se sucediam.

Mamou  leite ora extremamente quente, ora deveras frio, em mamadeira de vidro com bico em látex amarelado e. somente começou achar prazer na dieta quando os dentes lhe começaram a nascer e a tetinha artificial lhe servia de massageador à gengiva amaldiçoada pelo aparecimento dos primeiros dentes.

 Graças àquele sofrimento sem par, gritou muito, chorou despudoradamente e, não por vingança, mas por desespero, proibiu o sono dos justos aos seus pais durante alguns meses, quando a dentição se mostrava cortante naquela boquinha pequena.

Teve muita febre, e o que aparecia no interior das suas fraldas não era nada reconfortante para aqueles que cuidavam da sua higiene; somente ficava cheiroso depois do banho diário e do uso abusivo de óleos duvidosos e talcos baratos, que lhe exalavam um odor gostoso de bebê asseado; mas depois vinha a mamadeira dada às pressas, o arroto proibido e ele  vomitava na roupa limpa; aquela involuntária  reação estomacal provocava frases de indignação e repúdio por parte daqueles que cuidavam do garoto naqueles momentos vulneráveis do começo da sua vida.

Para que se distraísse durante o tempo no qual não dormia e que era infinitamente mais curto que o do repouso, compraram-lhe um carrinho de bebê alto, grande e largo para que ele fôsse conhecer o Jardim da Luz.

Punham-no numa grande “estica”, sempre com roupas de lã tricotadas por muitas mulheres amigas da família e, apesar do calor intenso do verão escaldante ou do frio de rachar da estação que veio a conhecer mais tarde, passeavam-no por entre a verdura dos canteiros, em busca de outros bebês como ele, para trocarem ideias de caráter comparativo entre si.

Quase menininho, chorou muito durante aquelas caminhadas embaladoras e mais ainda, quando, envelhecido de alguns meses, sabia se levantar e queria engatinhar.

O carrinho não lhe conviria mais e tampouco as rançosas mamadeiras engrossadas com farinhas lácteas.

Deram-lhe sopas e sucos, deram-lhe um “chiquerinho” de madeira e deram-lhe palmadas de pouca relevância, naquele lugar onde os panos serviam de escudo  e diminuiam a intensidade do gesto.

Também ingeriu muitos purês de legumes, verduras e frutas, que davam um trabalhão danado para serem preparados; as hortaliças eram disformes e vendidas na feira-livre; hortaliças cheias de mosquitos e outros bichos da lavoura. Tudo era deveras lavado e colocado em grande bacia com água avinagrada, cortado depois de descascado à faca e cozindo numa engenhoca nova naquela capital e chamada panela-de-pressão.

Até os seus trê anos de idade, dormiu muito, chorou muito e comeu pouco, o que lhe acostumou às seringas de vidro com agulhas de metal que a enfermeira usava depois de esterelizá-las na caixa de aço que  lhes  serviam de estojo; era a maneira de obter a vitamina nossa de cada dia, porque foi um menino fraco e mole.

Comer, dormir, chorar, balbuciar algumas sílabas e depois algumas palavras, ouvir as correções de praxe, as ordens e as desaprovações, para depois  o afastaram da palavra por algum tempo e, somente aos quatro anos começou a falar: primeiro de fora para dentro e depois de dentro para fora; falava com as formigas, com o cachorro do vizinho, com o travesseiro e com os bichos de pelúcia dura, dentro do seu cercadinho chamado de chiqueiro porque as crianças e os porquinhos devem ter alguma semelhança.Pouco a pouco, passaram a  servir-lhe os alimentos sólidos nas épocas exatas que eram prescritos pelo do médico da casa.

Tendo andado, corrido e caído, mesmo dentro do andador e, caído, levantado e fugido, quando sem a engenhoca podia galopar dentro de casa, foi o guri crescendo neste mundo redondo.

Como todos os meninos  logo frequentou a escola e escalou todos os embaraçados anos escolares até a adolescência,crescendo, experimentando o que lhe era dado, e sempre querendo experimentar do resto.

Deu trabalho durante a adolescência; finalmente era a primeira vez que o termo fôra usado no planeta e os usos e costumes estavam mudando devido à americanização do país; mesmo assim, fora da escola, sua vida ainda se parecia com a vida de bebê, sempre atrelado aos rituais caseiros, aos horários impostos e aos gostos  duvidosos dos pais.

Evidentemente que cresceu e conheceua juventude dos primeiros rocks importados, do chiclete e do chicote.

Com o passar do tempo e a diminuição das guloseimas e das chicotadas, tornou-se um homem.

Também se casou, e  teve uma excelente companheira que, como ele, não conhecia nada da vida. Construiu com ela uma família normal e, provavelmente sem o querer, deve ter feito filhos à sua imagem e semelhança.

Trabalhou muito para sustentar mulher e filhos até a chegada do dia mais importante da sua vida depois que passara dos 60: a tão sonhada aposentadoria, que o levaria conhecer o mundo, agora que os filhos estavam criados, a mulher amofinhada pelo cotidiano doméstico e que a economia do país se abria para o exterior, facilitando as viagens pelos vôos charters. Iria, enfim, conhecer a Europa.

Veio um tal de Plano Collor que levou com ele todas as suas expectativas e junto, as suas poupanças.

Ficou tão deprimido com a façanha do governo, que suas últimas economias serviram apenas para pagar um advogado que resgatou o suado dinheiro, com a devida desvaloriazação.

Os filhos, naquele momento histórico de consumo desenfreado, queimaram o que sobrou da  grana com roupas e outras bugigangas importadas, deixando para sua mulher e ele apenas a expectativa frustrada de viajarem um dia, irem para Paris, de deitarem num apartamento de um grande hotel da Praça Vendôme, de jantarem pelo menos uma vez no Tour d’Argent, de visitarem museus, assistirem às óperas, enfim, de encontrarem a materialização de sua quimera.

Era um momento da sua vida em que o dólar estava às alturas, o sistema overnight era um modo comportamental de ser, e o corpo e a alma não obedeciam  mais às ordens que  ele lhes dava.

O doutor diagnosticou um câncer.

 Naquele tempo um câncer era de matar!

E foi assim, que  ele conheceu o mundo ao avesso; primeiro emagreceu por causa da ansiedade, e depois porque os resquícios do tratamento não eram de dar apetite; pelo contrário, o fato de pensar que deveria comer era um meio eficaz de ter crises de enjôo, vômito e diarréia.

Andar era-lhe difícil, porque as fraldas descartáveis que sua mulher mandava vir dos Estados Unidos eram desagradáveis ao uso e às trocas frequentes.
Claudicante, primeiro andou com uma bengala que fôra do avô, coisa fina do século XIX; depois improvisaram-lhe um ancestral do andador, com o carrinho de feira que ele empurrava, atolado de peso para que não perdesse o equilíbrio.

A passagem para a cadeira de rodas foi tão banal como para um bebê que passeia pela primeira vez no seu carrinho.

Nem percebeu o amolecimento paulatino dos músculos da perna; somente os braços faziam esforço, mas , com a perda avolumada de peso, logo sua mulher lhe serviu de cuidadora.

Ficou mais fácil para todos que ele se mudasse diretamente ao leito, sempre coberto com várias camadas de roupa, no começo daquele processo recuador.

Mais rapidamente que na época da sua primeira infância, perdeu rapidamente os dentes, que mais lépidos para cair lhe davam saudade da época da sua primeira dentição.

Imediatamente a dieta teve de ser adaptada ao seu estado global e foi passando da carne moída ao purê , e do purê à sopa.

Não fosse o seu estado de decadência se acelerar, ainda estaria tomando consomés, caldo de carne sem nenhum legume; mas eis que teve de ser alimentado por sonda e por via-venosa, encontrando algo muito parecido com o leite, alimento sem gosto que corria pelos tubos flexíveis até chegarem ao ponto perfurado do seu corpo.

Agora passeia pelo lado de lá do espelho: retrocedeu ao seu estado inicial: quando bebê não falava, dormia muitas horas por dia … Agora apenas emite alguns sons guturais e dorme como um recém-nascido, sedado pela morfina.

Sono de Morfeu!

 

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