Lygia Fagundes Telles; obrigada pelo livro que a senhora me ofereceu em São Paulo.

(wilma schiesri-legris)

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Seminário dos Ratos

Ah! Senhora Lygia… Pretensão minha ou temos alguma coisa em comum?

Se for o caso, melhor para mim pois lendo os contos que estão no seu livro – presente de Deus!, diria Ruben Braga-  fiquei com vontade de um dia me parecer com a senhora, pelo menos na arte de escrever.

Também achei que a senhora guarda uma alma de atriz aplicando o método Stanislavski aos seus personagens; Eugenio Kusnet teria tido muito prazer em trabalhar com a senhora nas aulas de interpretação que ele dava em São Paulo durante os anos 60, pois criando um monólogo interior para muitos dos seus personagens, todos se tornam mais reais que se tivessem nascido de carne e osso.

 

Minhas impressões:

 

Apesar de ter lido fabulosas fábulas certamente alegóricas que quase representam um certo realismo mágico apaulistado, achei tudo mais real que o real. Então as onívoras FORMIGAS do primeiro conto, mais que devorar, não eram elas capazes de ordenar, estruturar e conservar os ossos miudinhos do esqueleto do anão – nosso monstro interior, provando pelo trabalho bem feito –são operárias obedientes! , que ele nos volta à tona na primeira opotunidade em vida sonhada ou em sonho vivido?

E o que dizer do monstro aprisionado em Maria Emília, obsecada pelo tormento de sua vetusta e imoral virgindade?

Mesmo com a cumplicidade de Mariana (liberté, égalité et fraternité) Maria Emília (o avesso da “Mimi” de Puccini?) somente é capaz de fazer uma leitura no primeiro grau de tudo que acontece à sua volta, incapaz de violar a sua solidão cercada de jornais, filmes, reclames, óperas, movimentos feministas e comunicação de todos os tipos.

Apesar de viver num mundo que evolui comunicando, a solteirona é incapaz de refletir; não aprendeu a pensar. Escrever ao diretor do jornal, exigir dele a censura que coaduna com sua pequena inteligência de pequeno-burguesa é sublinhar o papel das senhoras de Santana ou das mães de família que desfilavam por conta da Opus Dei, com Deus, pela Família e Propriedade, impróprias e inoportunas ao desabrochar de suas próprias filhas e da Nação pré-64.

 TiGRELA não seria o alter-ego selvagem de uma mulher livre? E não é saltando no vazio que poder-se-ia cair com os pés no chão? Afinal o vazio não está cheio de ar?…

HERBARIUM metafórico –Eros e Tanatos em luta na cabeça da menina que torcia para a sobrevivência do primeiro, ela evoluindo dentro do cenário selvagem de um sítio-gineceu, onde tronavam a mãe e a tia adivinha (adivinha ou prestes a repetir a História?), sendo o único homem presente, aquele visitante pontual, confusamente primo ou agregado familiar, botânico e latinista, em convalescência de incógnita doença.

… e  como nenhuma folha do herbário que fizera com a mocinha devia ser banal, a menina deu-lhe a mais preciosa (sua virgindade?) no momento em que compreendeu a partida definitiva daquele homem que lhe fizera despertar para o amor doravante manchado de simbólico sangue.

Noutro conto, a opressão causada pelo calor de uma SAUNA serve para que o personagem principal passe o filme de sua vida dentro de sua cabeça; vida dividida entre a honesta criação de um pintor quiçá medíocre e a pintura comercial que o prostitui; dividido entre a Rosa (sexo feminino?), uma mulher  provinciana simples e espontânea,  e outra, cosmopolita viajada, sofisticada e rica, uma Marina, ponto  e porto seguro de ancoramento.

Um acerto de contas entre o personagem que é e aquele que foi, o presente e o passado sempre a dividi-lo  no espaço ficcional da sauna e o espaço ficcional do seu passado em diversos outros momentos e lugares;  uma viagem da memória (fragmentada) durante uma psicoterapia calorífera, suporosa e selvagem colocando os pingos nos devidos ii através de um longo monólogo interior.

POMBA ENAMORADA OU UMA HISTÓRIA DE AMOR, conto curto e expresso, apresenta personagens que evoluem nas camadas populares da cidade de São Paulo, menos corriqueiras na suab obra , com suas misérias culturais e seus preconceitos, passados nos trechos da capital paulista antes de sua decadência total. Premonição urbana ou sentimental?

Novamente a antiheroína naïve e kitsch, religiosa e supersticiosa vai perder no jogo do amor fantasiado para o antiherói primário, reacionário e machista que cruza seus caminhos oníricos para se lhe plantar a esperança na alma pelo resto da cruel existência daquela ENAMORADA.

Não se esquecer que existe AMOR, MORADA e NADA no adjetivo ENAMORADA! – e que no nome ANTENOR possamos enxergar o prefixo ANTE e por que não? –  NORTE, conotando ORIENTAÇÃO…

Ah! O inconsciente dos escritores…

 

WM

“Dáblio” é um “Eme” de ponta-cabeça?

Toc… Toc…Toc  (T.O.C. = Trouble obsessionnelle compulsive) ; a obsessão bate à porta de uma família de artistas decadentes, cada um com o nome iniciando por W, confrontados todos com a loucura narcisista da mãe, o complexo de Édipo não resolvido do filho Wlado e a obsessão gráfica da filha enlouquecida, Wanda, que precisava deixar uma marca pelo mundo e gravava aquelas duas letras sobre todos os suportes que encontrava.

A récita da loucura do clã é sublinhada pela reprodução de um contos de fadas- (do Martinho Pescador), dentro do qual se encontra um texto de metalitertura sobre o desejo extremo de possuir sempre mais e de ver sempre menos.

Dois personagens coadjuvantes também tem seus nomes começados por W: o doutor em psiquiatria, Werebe, e a jovem prostituta chinesa, alegoricamente chamada Wing(Asa), anjo da guarda ao avesso de Wlado.

A loucura de cada qual os leva à morte dos personagens e à morte da récita.

Os anos hippies fulguraram na imaginação dos jovens de todo o mundo e Amsterdã teria sido o paraíso do mais aberto paraíso artificial da época, depois do grande encontro em Woodstock.

Os personagens de Lua Crescente em Amsterdã são um casal de jovens destituídos do amor, dos sonhos, da saúde, da droga e do bem-estar que outrora devia ter existido em suas vidas dentro de seus lares reacionários situados longe da capital holandesa.

Travestidos em passarinho ou em borboleta, borboleta como alimento de passarinho, lua em quarto-crescente ou minguante, tanto faz, suas quimeras lhes foram devoradas durante as múltiplas viagens psicodélicas, que mesmo um pedaço de bolo trazido por um anjo loiro, não alimenta mais.

Entre sono e sonho, a morte sempre dá sinal de vida tocando suavemente o ombro do personagem que relata o seu passado de tradição judeu-cristã se rememorando de fragmentos da infância quando ELA já se incrustava nas procissões da igreja.

A percepção do mundo dos vivos é conotada pelo jardim, Édem fantástico, onde a vida se desenvolve em torno de seres antropomórficos de cimento e pedra, quiçá como aviso-prévio da efemeridade existencial que o personagem pressente e carrega consigo.

A mão no(seu) ombro é o sinal de morte, anúncio fúnebre inelutável, recado mandado do inconsciente e que nos põe cara a cara com a única certeza que temos.

Novamente a PRESENÇA da morte invade o universo de Lygia Fagundes Telles, quando um jovem resolve experimentar viver no hotel que trabalhara outrora, antes que caísse em decreptude, tanto o hotel, como a burguesia envelhecida e decadente que ali habitava, uma espécie de Davos tropical, onde se morre de velhice e não de tuberculose.

O quê poderia existir de mais imoral que a presença de um homem jovem, ágil e sadio, diante daquela assembéia de grabatários e dementes senis?

Condenado por unanimidade à pena de morte, ele não participou ao banquete platônico; jantou sozinho embora alguns hóspedes estivessem na sala do hotel do tempo.

O romeu-e-julieta servido como sobremesa ao som do trio de velhos ali presentes se comprovou corrosivo. Teriam os músicos tocado  O andante con moto do opus 100 de  Schubert?

 … A memória conduzida pelo perfume de uma flor noturna, dama-da-noite, pelo cheiro do bolo de fubá, pelos versos de Presságio II da poeta Hilda Hilst é constituída e construída de fragmentos de uma juventude ainda próxima da narradora, do seu mundo de dentro e o do seu mundo de fora, o de antes e o de depois na incerteza das escolhas.

NOTURNO AMARELO é o trem da memória num curto lapso de tempo onde desfilam os fragmentos de um passado quase recente de uma mulher quase madura, arraigada aos valores tradicionais e refinados de sua família solapada por um  destino pouco banal.

Ifigênia, fiel empregada da casa, aplicada na arte de tecer(dramas, histórias), abre-lhe as portas e fá-la entrar no passado desenrolando-lhe o fio que lhe chega ao inconsciente.

Sobra o amante banal, um jantar e a estrada, talvez levando a narradora à felicidade ou à Via Láctea…

Como de médico e de louco cada um tem pouco, em A CONSULTA não sabemos se estamos com Machado (O alienista) ou com Borges (não me recordo o nome do conto…), onde o paciente do Hospital Psiquiátrico, Maximiliano, descomplexado, assume à revelia doseu médico, as consultas do verdadeiro doutor e sugere ao ingênio Simon Gutierrez, que ele atende, que se mate afim de perder a obsessão da morte que tanto o incomodava, razão móbil da sua ida ao hospício.

Não sem razão a morte e a morte da juventude são quase uma só; e a loucura talvez seja a sanidade dos loucos.

  

Esse livro de contos começa com uma fábula e outra o conclui; um “secretário” do Estado Chileno, chefe da pasta do Bem Estar Público e Privado, metaforicamente de pé-quebrado; o chefe de relações públicas razoavelmente surdo e assaz covarde para “entrar numa fria geladeira” e um assessor de imprensa de braço igualmente roto, o diretor das classes conservadoras armadas e desarmadas com faro de cão; eis uma equipe de deficientes administrando um país de terror, auxiliados pelos experts americanos na difícil tarefa de eliminar os ratos revolucionários que incomodam o sistema. Eram os ratos do porão? Ou proporão os ratos uma solução?

(Penso na marchinha de carnaval:

Menina vai, com jeito vai,

senão um dia a casa cai!)

 

CAIU!

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Gratíssima pelo livro autografado; espero vê-la muitas vezes e aguardo suas impressões sobre os meus livros.

Abraços fortes,

wilma

06/10/16.

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4 respostas para Lygia Fagundes Telles; obrigada pelo livro que a senhora me ofereceu em São Paulo.

  1. Rosangela Lucia Desiderá Morais disse:

    Nunca me esqueci do dia em que Ligia Fagundes Telles esteve na Caetano de Campos conversando conosco, normalistas . Fiquei encantada, corri para ler todos os seus livros então disponíveis.Deve ter sido em 1968 ou 69., eu já tinha lido “As meninas”.

  2. E agora ainda reina! Trata-se de uma grande dama da literatura.
    Abraços, wilma.

  3. José Renato Nalini disse:

    Que glória sermos contemporâneos de Lygia Fagundes Telles!

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