Myrthes Suplicy Vieira X 3!

Queridos leitores,

Já publiquei neste espaço inúmeros textos da Myrthes Suplicy Vieira e até acho injusto que eles não se  tenham tornado livros.

Sua percepção do mundo animal associada aos  seus profundos conhecimentos de psicologia dariam uma obra interessante para uma leitura descontraída diante da lareira real ou virtual das nossas casas.

Sei o que significa publicar um livro, sei das dificuldades de divulgação que às vezes amargamos, mas um dia qualquer algum editor vai se aproximar de nós, e quem sabe se apaixonar por nossos escritos e nos ajudar nessa trilha intranquila que escolhemos traçar.

Além da Myrthes, temos outros escritores que colaboram com o blog e que, merecem uma atenção especial dos leitores, editores, jornais e revistas.

Seguem três dos últimos artigos que apareceram no blog do José Horta Manzano, BRASILDELONGE e aos quais solicito a sua atenção.

Abraços elogiosos,

Wilma.

09/10/16.

Personalidades caninas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

(in BrasilDeLonge)

É estranho como um pet, principalmente se for um cachorro, é capaz de denunciar com seu comportamento a maneira de seu dono encarar a vida. Explico melhor: se o dono é uma pessoa esportiva, o cachorro será elétrico, propenso à ação. Se o dono é um intelectual, amante dos livros, o cão será capaz de permanecer horas a fio deitado aos pés da cadeira onde o dono está sentado em absoluto silêncio, dormitando (ou, quem sabe, até “filosofando”).

Já contei aqui que sou uma pessoa repleta de manias e hábitos arraigados. No entanto, percebo que meu espírito burocrático foi transferido de formas distintas para minhas duas cachorras. No caso da mais velha, ele parece ter sido absorvido integralmente, sem tirar nem pôr. Sempre me surpreendo ao vê-la circulando livremente, sem guia. Ela faz sempre o mesmo percurso, dia após dia, cheira os mesmos lugares e caminha sempre no mesmo ritmo, não importa se está chovendo, fazendo frio ou se é um esplendoroso dia de sol primaveril. Rói cada grãozinho de sua ração com a paciência de um chinês ou como se conhecesse os benefícios da mastigação saudável. Se está com um petisco na boca, é pura perda de tempo tentar atraí-la com outro ou chamá-la para outra atividade qualquer. Enquanto não terminar o que está fazendo, ela nem mesmo se digna a levantar os olhos. Sua humildade se revela nas coisas mais simples: ela não aceita nada que considere grande demais, seja alimento, petisco ou brinquedo.

Cachorro 7Já no caso da mais nova, é mais difícil perceber como a rotina se entranhou nela. Festeira e carente por natureza, ela sempre se mostra disposta a incorporar uma novidade, seja de que tipo for. Se está mordiscando um petisco e é apresentada a outro, ela rapidamente cospe fora o anterior e abre o bocão. Se for possível, come os dois ao mesmo tempo. Se está pacatamente entretida com uma bolinha e alguém mostrar outra, ela corre de um lado para outro tentando decidir qual das duas prefere abocanhar. Se está sonolenta, basta chamá-la para passear que ela se levanta e dispara, sem nem mesmo olhar para trás. Precisa de movimento, agitação e atenção em tempo integral.

Outra coisa que me intriga desde sempre é como a mais nova parece observar e copiar o comportamento da mais velha, especialmente se ele provoca uma reação positiva em mim. Se elogio a capacidade da Molly de conter impulsos, a Aisha imediatamente tenta refrear os dela. Se a Molly tem um lugar favorito para dormir, na primeira oportunidade a Aisha a expulsará sem nenhuma delicadeza (já chegou a se deitar por cima da pobre coitada). Se a Molly escolhe um lugar para fazer xixi, a Aisha a segue e faz o seu exatamente por sobre o dela.

Por estes dias me dei conta de que, todo dia de manhã, a mais nova me espera fazer o café e depois me segue, trazendo consigo sua indefectível bolinha. Tão logo eu me sente, ela senta à minha frente e encosta a cabeça no meu joelho, o rabo abanando feliz, à espera de um carinho ou de que eu aceite brincar com ela. Se a ignoro, ela se afasta e vai deitar em algum canto distante, com uma cara de amuada de fazer dó.

Se eu tivesse de fazer uma analogia da postura característica de cada uma com a de atrizes tradicionais do cinema, diria que a Aisha é certamente uma mistura de Mae West e Greta Garbo. Só quem já a viu deitada no sofá, com a cabeça recostada numa almofada, olhar lânguido e o rabo pendendo em suave curva para fora do sofá, pode testemunhar a favor dessa tese. Às vezes, chego a pensar que um dia ela vai me olhar e dizer com cara de enfado: “I’m no angel” ou “Leave me alone”.

Crédito: WaveMusicStudio

Por outro lado, qualquer um pode perceber à distância que a Molly exala um ar de seriedade, tem a elegância de uma “lady” recatada como Audrey Hepburn, misturado a uma aura dramática de mistério, como Bette Davis. Muitas vezes, quando está deitada, cruza as patas da frente e me encara altiva, como se imperatriz ou esfinge fosse. Por vezes, tenho a impressão de ouvi-la dizer “Decifra-me ou te devoro”.

Não sei dizer se a raça ou a coloração do pelo interferem nessa avaliação. Aisha, uma Golden Retriever, tem a personalidade estereotipada das loiras fogosas: é extrovertida, exibicionista, explosiva e quer sempre ser o centro das atenções. Molly, uma Bernese Mountain Dog, traduz em tudo o padrão comportamental das morenas aspirantes ao esplendor espiritual: é tímida, assustadiça e desconfiada das pessoas que fazem muito estardalhaço. Ao mesmo tempo, quando se aproxima espontaneamente de alguém (o que acontece raríssimas vezes), pode-se apostar que ela encontrou uma alma gêmea.

santos-dumont-1De qualquer maneira, vejo-me forçada a admitir: tenho um lado defendido, de quem luta com unhas e dentes para preservar a própria intimidade, mas adoro também ser alvo de admiração. Pensando bem, talvez seja eu mesma uma combinação das tradições francesas e da malemolência insolente brasileira. Unindo os dois lados, só o meu desejo de fazer a Europa curvar-se ante o Brasil, como dizia a modinha que minha avó cantarolava.

(*) Myrthes Suplicy Vieira, caetanista, é psicóloga, escritora e tradutora.

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Nota destes blogueiros
A modinha à qual a autora se refere é a cançoneta em homenagem a Santos-Dumont composta por Eduardo das Neves e gravada pelo cantor Bahiano no longínquo ano de 1902. Quem quiser ouvir um trechinho dessa preciosidade pode clicar aqui.

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Baú de memórias ‒ 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma vez aberto, meu baú de memórias se recusa a ser fechado de novo. Desta vez, as recordações que inundam minha mente dizem respeito a uma experiência tragicômica vivida em família.

Meus avós paternos tiveram 15 filhos biológicos e adotaram outros 17. Meu avô era um rico e pacato fazendeiro de Minas Gerais e espaço não era propriamente o que faltava, nem em suas terras, nem em seu coração. Não é preciso muito esforço de imaginação, no entanto, para prever os infinitos problemas do cotidiano que ele e minha avó tiveram de administrar para cuidar de 32 filhos.

Na adolescência, como era previsível e inevitável, a convivência íntima acabou funcionando como combustível para que alguns filhos biológicos se apaixonassem por seus irmãos adotivos, ou vice-versa. Os mais determinados e rebeldes ignoraram a falta de benção do patriarca e se casaram. Logo a família crescia em ritmo exponencial.

filharada-1Quando, em 1929, explodiu o ‘crack’ da bolsa de Nova Iorque, a única saída que meus avós visualizaram para continuar mantendo com dignidade uma família tão extensa foi a de enviar os filhos mais velhos para trabalhar em São Paulo. Meu pai foi um deles. Aqui se profissionalizou e formou família. Só voltava à casa dos pais nas férias, levando consigo os 5 filhos.

Vivendo e estudando em São Paulo, eu não tinha como me manter em dia com os acontecimentos do ramo mineiro da família. Já não sabia quem tinha nascido, morrido ou casado e já não me lembrava mais quem era filho ou irmão de quem.

Certo dia, já adulta, recebi a notícia de que minha madrinha de batismo havia morrido. Como, na época, meus pais já estavam separados, minha mãe pediu que eu fosse dar a notícia a meu pai em seu novo endereço. Imaginando que o único vínculo que ligava minha madrinha a ele era o fato de ela ser casada com um tio adotivo, não me preocupei em tomar precauções especiais ao dar ciência do ocorrido. Ao ouvir a notícia, meu pai cambaleou, levou a mão ao peito como se estivesse tendo um infarto e, sem ar, disse chocado: “Você está dizendo que minha irmã morreu??”

Para meu supremo espanto, só descobri naquele segundo que ambos, minha madrinha e seu marido, eram na verdade irmãos adotivos de meu pai. Era tarde demais para fazer alguma coisa. Consolei-o como pude e o levei ao cemitério. Lá, uma multidão de parentes mineiros nos aguardava. Meu pai, ainda muito abatido, sentou-se a meu lado num banco do lado de fora da capela. Permaneceu calado a maior parte do tempo, limitando-se a me abraçar e segurar minha mão. Quando chegou a hora de fechar o caixão, ele levantou-se e perdeu-se em meio ao tumulto que se formou.

Foi quando um desconhecido se aproximou de mim e, com um ar entre curioso e lascivo, deu início a um verdadeiro interrogatório. Nome, idade, profissão, local de residência, nada escapou. Mesmo pressupondo que se tratasse de um amigo da família, eu me esquivava como podia das respostas, já que a tentativa de intimidade forçada só fazia aumentar minha irritação.

cimetiere-1Quando já me preparava para levantar e me afastar dele, veio a última pergunta que esclareceria de vez todo aquele imbróglio: “Desde quando você conhece o Oswaldo? ”. Sem entender o propósito de uma pergunta tão sem pé nem cabeça, respondi de mau humor: “Desde o dia em que nasci, oras!”. Totalmente constrangido, o rapaz abaixou a cabeça, levantou e foi embora.

Na volta para casa, perguntei se meu pai sabia quem era ele. Resumo da ópera: o jovem impertinente era um dos tantos primos que eu não conhecia. Ao testemunhar a forma afetuosa e íntima com que meu pai me tratava, ele simplesmente havia imaginado que eu fosse sua namorada atual.

(*) Myrthes Suplicy Vieira, caetanista, é psicóloga, escritora e tradutora.

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Ser ou não ser, eis a questão

Myrthes Suplicy Vieira (*)

in Brasil De Longe

Li estes dias o resultado de uma pesquisa realizada pelo Datafolha a respeito de como os brasileiros entendem a responsabilidade da mulher em casos de estupro. Ainda que o instituto venha enfrentando severa crise de credibilidade, o resultado não surpreende: 1 em cada 3 brasileiros acredita que a mulher vítima tem, de alguma forma, culpa pela violência sofrida, seja por se vestir de maneira provocante ou por “não se dar ao respeito”.

Por mais chocante que seja constatar que essas crenças machistas subsistem, acredito que a expressiva maioria dos estudos realizados sobre o tema até hoje conseguiu apenas tangenciar outras questões, que me parecem mais centrais do ponto de vista científico: Como se dá o desejo feminino? O desejo masculino tem o poder de deflagrar o feminino em qualquer situação? A tensão ajuda ou atrapalha na aceitação do intercurso e no atingimento do prazer? Qual é a relação entre gozo sexual e emprego de violência?

fiu-fiuA sexualidade humana comporta muitos mitos. Que a curva de excitação sexual tenha um traçado diferente no caso masculino e no feminino, é fato sabido e aceito há muito tempo. Que o estímulo visual seja mais decisivo para desencadear o desejo masculino, também. O que raramente se investiga e pouco se fala, entretanto, é sobre a capacidade “natural” que homens e mulheres têm de controlar o impulso sexual.

Em torno dessa última questão orbitam múltiplos fatores culturais, religiosos e outros relativos ao gênero propriamente dito. Ao menos no que diz respeito à cultura ocidental, a conduta feminina tende a ser sempre crivada por duas representações simbólicas presentes na tradição judaico-cristã: ou ela é Eva, a mulher ingênua, forçada a se submeter ao homem por não ter sido feita da mesma matéria-prima; ou ela é Lilith, a primeira esposa de Adão e feita do mesmo barro, a mulher-diabo, a serpente maliciosa que seduz prometendo bem-aventurança para quem ousar desrespeitar a proibição celestial e experimentar do fruto da árvore do conhecimento.

Se socialmente a mulher é tratada como legítima descendente de Eva, espera-se que ela se preserve virginal até que um laço conjugal tenha sido oficialmente reconhecido. Posteriormente, mesmo tendo jurado fidelidade eterna a um só homem, que, no mínimo, aparente recato ‒ seja em público, seja na intimidade do casal. A regra é clara e repetida à exaustão em todos os manuais de educação feminina: à mulher de César não basta ser honesta, ela tem de parecer honesta.

fiu-fiuSe, movida por ilusões de igualdade de gênero, a mulher se mostra fogosa com seu companheiro ou, pior, desejosa de novas experiências sexuais com outros parceiros, desperta imediatamente fúria, condenação social e dúvidas quase unânimes quanto à sua verdadeira natureza. Não será ela na verdade uma loba disfarçada em pele de angelical ovelha? Não terá ela manipulado o comportamento do homem, atiçando seu desejo através de posturas corporais, gestos, roupas, falas e silêncios cúmplices para depois recuar e se pretender vítima do que não pode ser controlado?

Eis um aspecto da questão da violência sexual que raramente vem à tona em estudos interculturais: afinal, o impulso sexual masculino não pode mesmo ser controlado? Em geral, no levantamento de responsabilidades, parte-se da premissa de que cabe à mulher bem-criada, de princípios morais sólidos, opor-se a investidas sexuais indesejadas. Nem sequer se discute na maior parte das vezes se a menor força física feminina seria de fato suficiente para deter um impulso considerado tão vital e tão incontrolável para o homem.

A pesquisa Datafolha vai mais longe e assinala uma outra realidade paradoxal. Apesar de homens e mulheres apresentarem porcentagens praticamente iguais (cerca de 30%) de concordância com a ideia de que a mulher é parcialmente responsável pelo estupro, elas divergem muito em outro aspecto: 85% das mulheres e 46% dos homens dizem temer ser estuprados.

fiu-fiuAí parece estar o cerne de uma questão psicológica que mereceria ser investigada mais a fundo. As perguntas que não podem ser existencialmente caladas são outras: Se eu estivesse diante de uma situação real de ameaça de estupro, resistiria ou não? Daria minha vida para defender a integridade do meu corpo e da minha alma? Se não resistisse, como explicaria para os outros e para mim mesma as circunstâncias que me levaram a fraquejar?

Indo dolorosamente mais fundo nesse questionamento, eu diria que há um outro medo ainda inexplorado. Mais profundo que o pânico dos piores pesadelos, ele atormenta em especial as mulheres (ainda que detectável também entre homens) em todas as partes do mundo: o medo de gozar durante um estupro.

Uma possibilidade terrível, sem dúvida, mas característica da imperfeita natureza humana. Uma probabilidade que não se ousa confessar nem para o próprio analista e que, no entanto, contém a chave da verdadeira liberdade psicológica, independente de gênero.

(*) Myrthes Suplicy Vieira, caetanista, é psicóloga, escritora e tradutora.

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