O reencontro de Myrthes Suplicy Vieira, que dedico à Itajaci Caldeira.

O reencontro

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Myrthes Suplicy Vieira (*)

Reviram-se após mais de meio século. Coração aos pulos, entreolharam-se com a empolgação de quem participa de uma expedição arqueológica e vai retirando aos poucos as grossas camadas de pó que recobriam peças delicadas e raras.

Perscrutaram com atenção e cuidado não apenas os contornos do corpo, mas a silhueta atual da alma de cada uma. Na cabeça, uma indagação persistente: O que foi que mudou? O que permaneceu inalterado depois de tanto tempo? Não havia tempo a perder com divagações, era preciso ir direto ao ponto. A cada minuto, novas rodadas de perguntas e respostas.

Chegaram a algumas poucas conclusões provisórias, ainda carentes de aprofundamento da investigação do valor histórico de cada máscara encontrada. Só haviam conseguido coletar até então dados a respeito dos contornos superficiais dos achados arqueológicos. A aparência de cada uma pouco importava, não era o foco principal da análise. Era fácil constatar em todas a perda do viço juvenil da pele, os centímetros a mais na cintura e a progressiva curvatura das costas. Faltava, no entanto, examinar como os membros daquele grupo remoto interpretavam agora as relações e o que permanecia sendo sagrado para cada um. Pouco se sabia ainda dos movimentos anímicos que haviam sulcado a superfície de cada rosto.

Com a cumplicidade de Wilma Legris www.ieccmemorias.wordpress.com

Divertiram-se com o jogo de luzes e sombras da viagem ao passado. Depois, o usaram como referência para compor e justificar a imagem atual. Aquela ganhou o perfil de matrona de aço ‒ temperado, é bem verdade, pelos revezes da vida. Ao mesmo tempo, soube conservzar o sorriso maroto e os olhos curiosos de menina apaixonada pela vida, que encara o mundo e as pessoas como se os visse pela primeira vez. A outra parece ter completado de maneira suave a transição entre a imagem de esfinge desafiadora que a caracterizava na adolescência e o perfil atual de mulher madura, descolada, segura de si e de bem com a vida. Uma terceira, ainda um tanto aturdida com o movimento pendular da história, colocava em um dos pratos da balança o orgulho pela autoridade técnica conquistada após décadas de dedicação aos estudos e, no outro, o inegável deleite com o patrimônio afetivo arrebanhado em família. A última, mais retraída, parecia continuar a não se permitir lambuzar-se com os prazeres mundanos, da carne. Sua figura de espantalho denunciava sua opção pelo ensimesmamento e um certo desleixo com outras formas de atração social. Oferecia apenas, em doses homeopáticas, pinceladas leves de seus altos e baixos no trabalho e no plano afetivo.

Constataram extasiadas que haviam cumprido, com mais ou menos sucesso, o roteiro de uma existência bem-sucedida para os padrões femininos desejados à época: casaram-se formal ou informalmente, tiveram filhos e, algumas, netos. A bem da verdade, uma delas havia escolhido compartilhar a própria existência apenas com filhos de quatro patas. Além do mais, sentiam-se apaziguadas com as escolhas que fizeram por sua forma de inserção na sociedade. Haviam desenvolvido carreiras profissionais respeitáveis, todas com passagens pela docência.

“Tivemos sorte”, parecia dizer com os olhos uma delas. Somos crias de uma mesma ninhada promissora. Nossa mãe, a escola pública, nos presenteou com alimentos essenciais para uma sobrevida digna. Nosso pai, o intelecto, nos ensinou a caçar e a sobreviver em ambiente hostil. Nossos irmãos, mesmo sendo tão diferentes entre si, nunca esqueceram como é bom poder se aconchegar uns aos outros em espírito.

Uma vez saciada a fome de informações factuais, passaram a rememorar momentos prazerosos vividos ao lado do amigo ausente. Não era preciso lamentar que ele não tivesse podido locomover-se de tão longe só para estar com elas. Ele estava presente de qualquer maneira, tinha sido mote e locomotiva do encontro. Gastaram alguns minutos elogiando seu fino senso de humor, a memória privilegiada, a inteligência arguta, a eterna disposição e presteza para refazer laços perdidos com o tempo.

x-Jacques Faizant (1918-2006), desenhista francês

x-Jacques Faizant (1918-2006), desenhista francês

Perceberam emocionadas, ao se despedir, que já não lhes restava a ansiedade juvenil de fazer juras de amor eterno, pegar todos os dados de contato, prometer nunca mais se separar. Já haviam se desapegado da angústia diante de laços que se esgarçam com o passar dos anos. A maturidade e a entrada na velhice haviam trazido consigo, como era de se esperar entre profissionais da área de humanas, a autocontenção, a ponderação, o equilíbrio emocional.

Ao final, a mais sábia dentre elas resumiu com humor e precisão milimétrica o verdadeiro significado do reencontro: “Somos o que éramos. Foi bom constatar isso”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira, caetanista, é psicóloga, escritora e tradutora.

 
 
 
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