15 de Novembro de 1889. Viva a Proclamação da República! Viva a Escola Normal!

(wilma schiesari-legris)

Queridos leitores,

Ao me dedicar à leitura dessa página do jornal O Estado de São Paulo datada de 17 de novembro de 1889, publicada dois dias depois da Proclamação da República na Capital Federal pelo marechal Deodoro da Fonseca, pude identificar que em São Paulo, as lideranças republicanas eram formadas exatamente pelos elementos da sociedade que reformaram o ensino público e ergueram o palácio da Praça da República, 53, onde funcionou a Escola Normal da Capital a partir de 1894, cinco anos após o golpe do marechal.

Interessante  recordar que Prudente de Moraes encabeçava a liderança republicana e a ele coube as rédeas do Estado de São Paulo, desde o Governo Provisório. Ao seu lado,  a Comissão Republicana, em presença do seu secretário Hippolyto da Silva, que policiou a cidade de São Paulo e, acompanhado de Vicente de Carvalho e Bueno de Andrade, Prudente de Moraes marchou para o Quartel com mais 300 patriotas voluntários.

Ás 11 horas, o governo provisório do Estado de São Paulo dirigiu-se ao paço da Câmara Municipal, liderado por Rangel Pestana e Gabriel Prestes; o presidente da câmara era “o cidadão” Domingos Sertório, mas os que presidiram a sessão foram Prudente de Moraes e Rangel Pestana.

Rangel fez a leitura do ofício do governo provisório republicano e ainda discursou acalmando os ânimos que porventura estivessem descrentes do processo, anunciando medidas iminentes.

Os despachos oficiais do novo governo foram enviados ao jornal campineiro “Diário de Campinas” relatando artigo por artigo a composição do decreto de 15 de novembro de 1889, assinado pelo Marechal Manuel Deodoro da Fonseca (chefe do governo republicano provisório e do seu Executivo), Ruy Barbosa ( Ministro da Fazenda), Benjamin Constant (Ministro da Guerra), Quintino Bocayuva (Ministro de Estrangeiros) e Eduardo Wandenkolk (Ministro da marinha)

Novas para O Estado de São Paulo:

Segundo a matéria do jornal “A Província de São Paulo” (OESP), datada de 17/11/1889, a constitição dos cargos pelos atos oficiais do Governo Provisório do Estado, formado por Rangel Pestana (diretor de “A Província de São Paulo”  depois, o ESP, onde era acionista), Prudente de Moraes (fazendeiro cafeicultor, mais tarde Governador do Estado de São Paulo e presidente da República) e o Coronel Mursa, foram nomeados os seguintes cidadãos:

José Alves de Cerqueira César- Tesouraria da Fazenda;

Julio Cesar Ferreira de Mesquita –(futuro proprietário do jornal OESP, cunhado de José Alves de Cerqueira César, um dos 16 fundadores do 1° jornal nota minha) – Secretário Interino do Governo Provisório;

Bernardino de Campos – (fundador do PR, futuro Presidente do Estado e da República,nota minha) 1° chefe da polícia :

Paula Souza de Queiroz, (engenheiro de familia de grandes proprietários de terra, ocupou cargos públicos desde o Império ,nota minha) – 1° Delegado da Capital

Luiz Americano- para o 2° posto;

Alvaro de Toledo e Horacio de Carvalho – oficiais de gabinete do Governo Provisório

Qualquer mera coincidência com o que você sabe sobre a Proclamação da República não é obra do acaso!

 

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(Caetano de Campos, Antonio Mercado, Paula Souza, Prudente de Moraes, Bernardino de Campos, Peixoto Gomide, Cel. Lisboa)

Agora vamos àquilo que nos interessa, isto é, a reformulação do ensino público através da Reforma do Ensino na Escola Normal e a sua transferência da rua da Boa Morte até a Praça da República.

Conforme irei me lembrando situarei o contexto da “re-criação” da nossa Escola e da evolução urbanística e social da cidade, essa última muito bem explicada por Robson Roberto da Silva (historiaehistoria.com.br/materia) no site da Unicamp, “História –e-história).

Em primeiro lugar devemos nos lembrar que o Partido Republicano foi inspirado pelo positivismo de Auguste Comte, com as mesmas ideias e ideais que levaram a França a substituir a monarquia pela República.

Os membros desse partido em São Paulo eram intelectuais, de famílias abastadas de grandes fazendeiros, quase todos bacharéis em direto, que tinham uma certa ideologia do quê devia ser o republicanismo. Seus fundadores, Prudente de Moraes, Bernardino de Campos, Julio Mesquita, Rangel Pestana e outros, participaram diretamente do Governo do Estado e da re-criação da Escola Normal de São Paulo.

A população de toda a Provícia de São Paulo (Estado) era na época, de quase 1.222.000 habitantes e a nossa cidade, pelo censo de 1890  contava com… 65.000 habitantes (1)

Sabemos  que os imigrantes incharam a cidade a partir daquele momento e acabaram por ser 7 vezes mais numerosos que a população paulistana no início do século XX,  ou seja,  75% da população da cidade.

Nem os imigrantes italianos, nem os negros, mulatos, caboclos e caipiras eram considerados “cidadãos” da República e residiam longe do perímetro daqueles que chamarei cidadãos republicanos de 1ª  e de 2ª zona (2)

Onde se encontrava a Escola Normal de São Paulo antes de ter seu prédio na Praça da República?

Resposta: Estava na antiga rua da Boa Morte, atual rua do Carmo; não longe da Sé, a Escola era situada em área passível de remodelação urbana nos fins do século XIX; ora a Escola era pequena em superfície para receber os alunos em número elevado que o projeto dos republicanos criara, ou seja:Escola Normal e escolas Anexas ( Jardim de Infância, Primário, Ginasial e Pré-Normal, Cursos complementares)

Com a proclamação da República e a entrada de uma ideologia laica, a igreja deixou de receber da Loteria as verbas destinadas àconstrução de sua catedral, que iria se instalar no Largo dos Curros, hoje Praça da República; era a laicidade no Poder e na Instrução Pública.

A Escola Normal ganhou o terreno que estava destinado à Igreja e as verbas da Igreja  também; ali construiu-se, para continuarmos com a reflexão positivista, o “templo do bem e do saber”, obra de Ramos de Azevedo, erguida em poucos anos e inaugurada em 1894.

Para quem trabalhava Ramos de Azevedo?

Resposta: Para o escritório de Ruy de Paula Souza, membro do PR e do Governo Provisório, que praticamente construiu tudo o que São Paulo teve de obras neo-clássicas…

Os  “cidadãos de 1ª zona”, para quem fôra criada a escola pública, começavam a se deslocar das áreas outrora nobres, do Velho Centro, para os Campos Elíseos, e para o este da Sé, onde foram construídos bairros higienizados, que inclusive assim se chamaram.

Entre os “cidadãos de 1ª zona”, sem negros, mulatos, caipiras e cablocos, haviam os brancos de família tradicional e gente da classe-média, os pequenos comerciantes, artesãos e pequenos funcionários, que teriam para os seus filhos, direito à entrada na Escola da Praça.

Aliás, a reforma que Gabriel Prestes organizou, com métodos europeus e americanos das melhores escolas do mundo, cabiam como uma luva à frequentação desejada pela Escola.

Os primeiros inscritos aos cursos das escolas anexas eram gente com sobrenome dos Barões do café, que se confundiam com os dirigentes do Partido Republicano e por consequência ao Poder.

 Ricos de berço ou pobre agregado aos barões, seus familiares, desfrutando de todas as melhorias que a República lhes havia concedido, eram os primeiros informados sobre tudo o que se passava na Escola Normal da Praça: assinavam o  jornal “A Provícia de São Paulo”, depois rebatizado “O Estado de São Paulo”, que pertenceu aos fundadores do PR e ao primeiro diretor do jornal OESP quando o mesmo mudou de nome.

Todas as informações circulavam no seio da elite de cidadãos da 1ª zona e tudo que se referia à Escola era publicado nos jornais acima citados, inclusive as notas administrativas da Escola Normal, com avisos para comparecimento de alunos para tal data à Secretaria, nomes dos candidatos aos diversos cursos, lista de aprovação e reprovação e eventos oficiais ligados à ela.

A  primeira conclusão é que quem não lia o jornal todos os dias, não poderia saber como entrar para a escola, se preparar para exames e se candidatar a uma vaga.

Basta ler no nosso blog ieccmemorias.wordprees.com os nomes dos alunos listados no primeiro decênio de funcionamento da nossa Escola na Praça, para conferir os sobrenomes que coincidem com os nomes dos donos do poder mais alto(de Moraes e Barros, Cerqueira Cesar, de Toledo, de Albuquerque, Queiroz, da Silva Telles, Gomide, Rangel, Ferraz, etc.. )  como os familiares de autoridades do poder mediano do coronel Dente!

Sempre disse que a Escola servia de sala-de-visitas aos visitantes ilustres que iam comer com os dirigentes seja no Palácio do Governo, seja na Rotisserie Sportsman.

Quando o PR herdou a cidade de São Paulo, com 65.000 cidadãos habitantes, o que havia para mostrar aos nobres visitantes?

O Palácio dos Campos Elíseos?

Não! O palácio somente começou a funcionar 10 anos depois da Proclamação da República!

O museu do Ipiranga?

Não; ele foi inaugurado em 7 de setembro de 1895 e os jardins nem sequer estavam prontos.

O Instituto Butantan?

Também não; o Instituto foi fundado em 23 de fevereiro de 1901!

O Theatro Municipal?

Ora! O teatro saiu do chão apenas em 1911!

Até o velho viaduto do Chá ainda estava em obras; São Paulo não tinha  NADA para estrangeiro ou dignidade nacional ver; tinha apenas a Escola Normal, com todo mundo nos trinques!

Do corpo administrativo, ao corpo docente e discente, tudo era a parte nobre de…Paris! Gabriel Prestes dirigia a escola, que teria Caetano de Campos como diretor, se ele não tivesse falecido antes da inauguração do prédio novo; aliás, ele era amigo íntimo de Rangel Pestana, que o indicou a Prudente de Moraes e, sua esposa, apesar de modesta, se não me engano vinha da família de Cesario Mota; Mimi Varela, que dirigiu o Jardim de Infância era do café-society; a poetiza Zalina Rolim Xavier de Toledo, que foi inspetora do Jardim falava muitos idiomas e formou-se, como as demais, graças aos preceptores estrangeiros contratados pela sua família; D. Maria Guilhermina Loureiro de Andrade era formada nos EUA; Rosina Soares, da alta sociedade, também tinha sido formada por mestres estrangeiros.

Os salários eram altíssimos e até Miss Browne que vinha por parte de Horace Lane, emprestada colégio americano, ganhava muito bem a sua vida, mesmo sem saber falar português!

Por que Gabriel Ptestes preferiu largar sua cadeira de deputado para dirigir a Escola?

Claro que ele ambicionava uma educação de alto nível ali para os “cidadãos” da nova era; além de ser republicano da gema (em breve vocês poderão ler as palavras de Lourenço Rodrigues sobre esse diretor, que vão ser publicadas no blog e que nos mostram não somente a sua ambição mas os caminhos para torná-la realidade) Gabriel Prestes era um gênio em política; evidente que o seu salário era conveniente ao posto de “embaixador” para os diplomatadas que ele sabia que iria receber! Afinal, muitos dos professores da Escola da Praça eram estrangeiros, muitas crianças brasileiras já vinham com o idioma francês ou inglês na ponta da língua para homenagear os convidados de honra.

A Escola Normal somente começou receber alguns poucos alunos com sobrenomes principalmente italianos, quando certas categorias de alunos migraram para colégios particulares fundados por mestres da ENC: Colégio Macedo Soares, Colégio Rio Branco, Escola de Mary Cyridião, da avenida Angélica e até o Liceu Francês, que começou a funcionar graças à presença de professores da ENC que ali fincaram as suas diretrizes pedagógicas.

Na galeria de fotos de classe apresentada no saguão do Instituto de Educação “Caetano de Campos”, em exposição montada em finais do ano 70, praticamente não vimos nenhum aluno de cor, senão um aqui, outro acolá, que faziam parte transitoriamente de classes do primário e  que abandonavam logo por motivo de repetência.

No entanto, algumas vozes atuais, pregam que se não os tinham na Escola da Praça é porque estavam nas suas lidas, incompatíveis com os horários escolares…

Viva a República!

 

Segundo Jobson Roberto da Silva,

(1) “Esse fenômeno social e demográfico se explica pelas intensas transformações que o Brasil vivenciava desde a segunda metade do século XIX. A época da derrocada do sistema escravista coincidiu com o aumento da inserção do industrialismo nas cidades brasileiras e a ascensão do mercado de trabalho livre. Diante de tal configuração socioeconômica, não havia mais espaço na nova sociedade industrial e burguesa para instituições arcaicas como a escravidão. Contudo, o processo de libertação da população negra e mestiça em 1888 não veio acompanhado de plena cidadania, essa população será apartada dos processos produtivos, sociais e políticos, sendo relegados a uma situação de marginalização socioeconômica e urbana. “Nessa época em que a “ciência” passa a ocupar o trono do saber, comanda também mais de perto uma série de submissões: a do negro escravo ou recém-liberto, (…). ”O crescimento industrial impulsionou a expansão urbana da cidade, antes a participação das indústrias na economia brasileira era incipiente, porém o aumento na virada do século foi significativo”.

Segundo eu mesma,

(2) Se analizarmos bem a configuração social, seriam considerados CIDADÃOS apenas aquele conjunto de indivíduos brancos, com raízes ou não no mundo dos “quatrocentões”, excluindo-se, além do negro recém alforriado e dos mulatos, os caboclos e caipiras do interior do Estado que iam para a Capital.

O imigrante também não teria sido considerado “cidadão”num primeiro tempo, pois não lhe deram a oportunidade de gozar dos projetos urbaníticos, positivistas, higienizadores e “higienizantes” que a cidade pôs em obra; se ficassem na cidade para engrossar a mão de obra da indútria nascente, habitariam em cortiços e em áreas afastadas onde o progresso republicao não dava às vistas, também usavam black tie e não assinavam o jornal OESP!

A  iluminação elétrica, o rádio, o bonde elétrico, o telégrafo, os automóveis, as linhas telefônicas, os novos edifícios e lojas sendo construídos,  toda aquela modernidade e progresso não era para eles!

Pelo discurso progressista das autoridades, aqueles “cidadão de segunda zona”, ” em substituição do escravo negro, tinham um perfil de “civilizados e laboriosos” que  traziam sua cultura para desenvolver a nação.”

Para o autor acima citado,

“A mentalidade da superioridade da raça branca em contraste com a inferioridade da raça negra e mestiça será a pedra angular das políticas públicas e sociais dos governos da Primeira República, onde os ex-escravos e libertos terão que carregar o estigma da escravidão, demonstrando que ser liberto não significava necessariamente ser cidadão. “Indolência, nomadismo, desperdício, (…), larga margem de ócio, falta de disciplina, muita dança, fumo, bebida: (…) A figura do ex-escravo fica assim associada ao malandro/vadio/maloqueiro, figura que povoa até hoje nossa mitologia política diantede tal difamação, a população negra e mestiça ficou apartada das melhorias urbanísticas, sociais e culturais da modernização da cidade de São Paulo, sendo relegados a viverem distante dos melhores bairros, empurrados para as periferias. “As oportunidades para os negros em São Paulo eram limitadas. O impacto da imigração no lugar dos negros no mercado de trabalho foi devastador, tanto ideológica quanto quantitativamente.”Restavam para eles os piores trabalhos, os serviços mais pesados: carroceiros, limpeza de bueros e coleta de lixo, além de atividades informais, como vendedores ambulantes.”.

Mas, não eram apenas sobre os negros, pardos e mulatos que as autoridades políticas e a intelectualidade paulista desferiram seus ataques cientificistas, todo e qualquer tipo racial legitimamente nacional entrava na categoria da inferioridade: o caboclo e o caipira (individuo típico do interior do Estado) eram taxados como preguiçosos e indolentes. “(…) os nacionais sempre foram encarados como vadios, inaptos para o trabalho (…). Daí a vida errante, utilizando-se dos recursos naturais da terra, (…) Daí a medicância e indigência de um povo (…) ferrado pela desclassificação social (…).” Essas políticas sociais e idéias científicas sobre inferioridade racial colocaram os nacionais numa péssima posição na sociedade. “Considerar vagabundos os que não estivessem assalariados, ou agregados a alguma pessoa ou família era também uma maneira de (…) marginalizar a experiência social e cultural dessa parcela despossuída da população. Em todo o percurso da modernização de São Paulo, os negros e mestiços vão ser considerados cidadãos de segunda classe.

“É interessante observar que a cruzada pela modernização e higienização urbana concentrou-se mais intensamente nas áreas onde predominava o elemento nacional. Por exemplo, o Largo do Rosário, Vale do Anhangabaú e Sul da Sé, considerados degradados e perigosos pelas autoridades políticas. “De maneira geral, (…), nota-se, a partir dessas imagens do Sul da Sé, que essa região deveria ser frequentada e habitada por uma população no geral pobre e com uma significativa presença da parcela nacional, desde os tempos da escravidão.( Lucio Kowarick)

https://i1.wp.com/smdu.prefeitura.sp.gov.br/historico_demografico/img/mapas/1895.jpgPlanta da Cidade de São Paulo 1895 (2)

https://i1.wp.com/smdu.prefeitura.sp.gov.br/historico_demografico/img/mapas/urb-1890-1900.jpg

 

 

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