João Lourenço Rodrigues: A Escola Normal da Capital – PARTE II – Caetano de Campos –

Prezados leitores;

A crônica publicada  hoje faz parte de um conjunto de escritos que João Lourenço Rodrigues fez especialmente para o jornal O Estado de São Paulo em 1944 e 1945.

Transcrevo aqui a primeira delas embora tenha em reserva as demais, que obedecerão a cronologia do blog para virem à tona.

Interessante ler com atenção esta primeira crônica de Lourenço Rodrigues onde assinalo em vermelho os nomes de todos os lentes e alunos que integraram a EN durante a época turbulenta do fim do Império.

As demais não lhes devem ser passadas em branco.

Abraços positivistas,

wilma.

17/11/16.

PS. as ilustrações virão depois que eu conseguir desativar o programa recém-instalado que não me permite chegar a elas.

 

 

10/12/1944 (OESP)

João Lourenço Rodrigues e o professor De Chiara assinaram dois artigos importantes:

João Lourenço Rodrigues:

A Escola Normal da Capital

Algumas figuras de outrora.

Quando vi pela primeira vez o Dr. Carlos Reis, um veterano meu amigo definiu-o num trocadilho:

_Este lente é excelente; pena é que ele não tenha dado ao ensino da língua vernácula o cunho prático que lhe imprimira Silva Jardim.

Do lente de Francês prefiro nada dizer e muito menos analisar os motivos de sua demissão a qual ia dando em terra com o diretor. Felizmente para este, o residente da Província era homem prudente: esperou que a poeira caísse e viu-se então com os fatos arguidos contra o Cônego Manoel Vicente(Diretor da Antiga ENC – nota minha) não passavam de grosseiro decalque daqueles que motivaram a demissão do lente de Francês.

Se bem me lembro, não foi preenchida a sua vaga, pois chegada a época dos exames, o Governo nomeou para examinador de Francês um professor ainda desconhecido na Paulicéia; chamava-se Tiburtino Mondim Pestana. Natural de Sergipe, exercera o magistério em Recife, ao tempo de Dom Vidal e, por ocasião da questão religiosa, fora um de seus partidários mais dedicados.

Quando o Bispo de Olinda veio preso para a Corte, Mondim Pestana deixou o Recife e, transferindo sua residência para Santos, ali abriu um colégio que veio a ter bastante nomeada na sua época. Muitos antes de Maria Montessori, o professor sergipano fez do seu “Juvenato Santista” uma “Casa dei bambini”; foi ele, em São Paulo, um dos primeiros professores a empregar o método de João de Deus para o ensino da leitura e o método intuitivo por meio das “Lições de coisas de Calkins”.

Perguntará o leitor por que cargas d’água esse luxo de pormenores, tratando-se de um simples examinador “ad-hoc”. É que Mondim Pestana não era um simples profissional do ensino, mas um autêntico educador. Sabia interrogar, e sempre afável, sempre de bom humor, conquistou gerais simpatias não só no correr dos exames de Francês, como depois na banca dos exames de suficiência.

Destacou-se logo dentre os demais examinadores, pois não se dedignava a conversar com os estudantes e, considerado deste ângulo de visão, não há exagero em afirmar-se que Mondim Pestana foi um percursor de Caetano de Campos na Escola Normal da rua da Boa Morte. Ele o foi ainda pelo seu desinteresse, pelo seu desprendimento, mas isso é uma outra história que virá mais tarde.

No “curriculum” da Escola Normal, inaugurava em 88, um curso superior de religião, colocado no 1° ano. Estava a cargo do padre Camilo Passalacqua, mais tarde Monsenhor do Cabido Paulopolitano.  Padre Passalacqua era lente de Pedagogia e metodologia  no 3° ano do Curso Normal e exercia a docência  da Religião Católica no 1° ano. O seu ensino era bem feito,mas de pouco alcance prático para a formação espiritual dos normalistas. Estes compreendiam, embora confusamente, que a inclusão de um curso de apologética na Escola Normal era antes de tudo, um meio de combater a hegemonia dos lentes positivistas, todos republicanos como Benjamim Constant, na Escola Militar do Rio.

Graças ao prestígio dos lentes positivistas e sobretudo de Godofredo Furtado, havia entre os estudantes bom número de simpatizantes com a doutrina de Auguste Comte: e tais estudantes , nos exames de 87, foram tratados com excessivo rigor. Enre os próprios professorandos, era tal o pavor que Alberto de Almeida Melo, ao ser arguido, teve vertigem e saiu da sala carregado…

Nessa atmosfera prenho de ameaças, houve alguns examinandos que deram belas provas de destemor. Um deles foi José Feliciano de Oliveira, um dos mais entusiastas do credo de Auguste Comte. No correr dos exames, teve ele uma discussão com o respectivo lente. A banca era presidida pelo Cônego Manoel Vicente, Diretor da Escola e os debates tinham-se acalorado a tal ponto que o presidente teve de intervir.  Calmo, senhor de si, não repreendeu o examinando recalcitrante, mas levou por diante discussão travada. José Feliciano manteve a nota, mas no fim de algum tempo foi reduzido ao silêncio. Segui-se uma pausa de ansiosa expectativa…

_ E então? Por que se cala?

_Simplesmente porque estou na posição de examinando. Eu sei que V. Exa. tem preparo muito superior ao meu; mas não sei se, posto no meu lugar, processaria de outra maneira…

Todo este rigor resultou ineficaz para deter os progressos do Positivismo na Escola Normal, pela simples razão de que uma doutrina perseguida só por isso conquista simpatizantes. A hegemonia dos Positivistas só veio a declinar, meses depois, com a retirada de Godofredo Furtado e Cipriano de Carvalho.

Essa retirada não pode ser averbada como vitória do Catolicismo sobre o Positivismo; ela representou apenas um triunfo efêmero da política imperial contra a propaganda republicana favoreada pelos lentes demissionários. Eles caíram mas o seu ideal ficou de pé e não tardaria a cantar a vitória. (…)

Vamos rematar a presente crônica rememorando os principais episódios do ano escolar de 89, especialmente nessa turma. Os exames do ano anterior haviam operado sensível redução nos efetivos das duas classes. Dos 4 alunos do 1° ano matricularam-se 32, mas na seção feminina a redução foi maior: das 71 iniciais ficaram 36.

O primeiro ano de 89 teve matrícula mais avultada: entre os calouros dessa turma alguns haviam (sido) predestinados a fazer brilhante figura no curso e mais tarde no magistério: Arnaldo de Oliveira Barreto, Antonio Rodrigues Alves Pereira, Benedito Tolosa, João Crisistomo, João Von Atzingen, Oscar Thompson e Pinto e Silva.

Encerradas as matrículas, a abertura das aulas ficou retardada por alguns dias por causa dos concursos de Matemática e Física. Na cadeira de Matemática foi classificado o Dr. Constante Coelho, lente interino, e em 2° lugar, o professor Azevedo Soares. Na cadeira de Física e Química, o 1° lugar coube ao Dr. Pedro Barreto Galvão e em 2° lugar sicou o lente interino, Macedo Soares.

(…)

Providas as cadeiras dos lentes positivistas, ficava ainda vaga a de Francês. A inscrição foi aberta mas Mondim não se inscreveu. (…) Ele tinha todas as possibilidades de vitória no concurso, mas desistiu em favor de um candidato do Governo e muito bem apadrinhado.(grifo meu)

Fez, porém, concurso para uma vaga de amanuense na Secretaria do Interior (…) onde chegou até a ocupar todos os postos superiores, inclusive o de diretor.”

Resumindo, o Cônego Manoel Vicente da Silva foi substituído pelo General Couto de Magalhães com a subida do Partido liberal e a queda do Conservador e, o Dr. Benevides fez mais uma vez o papel de “Carmerlengo”. Quanto ao nono diretor havia ansiosa  expectativa.

“A escolha recaiu  no Desembargador José Jorge Rodrigues, magistrado em disponibilidade. Tomou posse perante a Congregação (…) e intimou os alunos a comparecerem às aulas num dia de feriado.

A resposta foi uma greve geral; o diretor mandou considerar as faltas injustificadas, mas os prejudicados, apelando para a Congregação, obtiveram, não só o cancelamento das faltas , mas a manutenção do feriado tradicional.”

“Foi fundado o “Clube Republicano Normalista”

A gestão do deembargador foi tão curta que não chegou a durar 5 meses. (…).

                                                         *

Resumindo: coube ao Dr. Benevides, então secretário da Escola, dirigir os trabalhos do mes. O desembargador Manoel Rodrigues sumiu-se e o Cônego manoel Vicente  foi à formatura das turmas a pronunciou um discurso.

(…)

Tal foi o nosso 2° ano:  começou em situação Conservadora, continuou em situação Liberal e terminou em plena Era Republicana.

Vencera o ideal político, os lentes positivistas e Godofredo Furtado não tardaria a voltar com glória.

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