PARTE II – Caetano de Campos – 1945 – Nova crônica no jornal OESP de João Lourenço Rodrigues sobre a Escola Normal da Capital

 

FEVEREIRO de 1945

04/02/1945

A ESCOLA NORMAL DA CAPITAL

João Lourenço Rodrigues.

ALGUMAS FIGURAS DE OUTRORA

 

Em nossa última crônica, passamos em revsita os fatos capitais do último ano da nossa turma, diplomada em 1890.

Faltou-nos espaço, aí, para dizer o que foi a solenidade da nosa investidura, realizada a 17 de dezembro, sob a presidência do Dr. Jorge Tibiriçá, segundo governador de São Paulo.

                                             Afficher l'image d'origine (Porangaba)

Nessa solenidade, serviu-nos de paraninfo o Dr. Caetano de Campos, nosso Diretor e nosso lente de Biologia. Seu discurso foi estampado na íntegra, no “Estado de São Paulo” e já foi reimpresso duas vezes em folheto: a tanto basta para indicar a sua importância, não só como peça oratória de fino lavor literário, mas sobretudo como roteiro de líderes do ensino.

Ao ouvir o idolatrado Mestre, bem longe estivemos de adivinhar que aquela última lição que ele nos dava seria como que o canto do cisne.

Encerrados os labores do ano letivo, passada a faina febril dos exames finais, superadas as emoções da despedida dos seus primeiros discípulos, o Diretor teve que preparar o relatório do primeiro ano da sua laborosa gestão.

Pouco depois, isto é, a 1° de março de 1890, ele dava  a última penada na memória que logo depois apresentou ao Governador do Estado, sem dúvida a pedido deste, memória que pode ser considerada como anteprojeto de uma reforma integral do ensino público paulista.

Juntem-se a estes trabalhos do burocrata os encargos onerosos do médico, as lições absorventes da sua clínica e ver-se-á que o período de tres férias não foi para o Dr. Caetano de Campos aquele interregno de repouso a que le tinha direito, depois de um ano de intensa atividade.

Para agravar a sua situação, novas tarefas lhe atolharam com a reabertura das aulas em 1891.

O primeiro ano da sua gestão fora consagrado, como vimos, a obra básica da organização da Escola Modelo, destinada a servir de paradigma das futuras instituições congêneres.

No segundo ano contava ele poder atacar outra outra obra de maior vulto, nada menos que a remodelação da própria Escola Normal.

O programa desta devia ser reajustado, de modo que ela não se confinasse, como até antão, nas preocupações de um ensino puramente propedêutico.

No entender do Diretor, a Escola Normal, destinada à formação de professores, devia ministrar um ensino ajustado à sua finalidade específica, devia ser, antes de tudo, uma escola profissional onde os candidatos ao magistério se preparassem eficazmente para os misteres de sua carreira.

A terefa era árdua, exaustiva e não é para estranhar este fato; do seu livro correspondência oficial repontam aqui e acolá, notas de desânimo, referências veladas a certos elementos que, por falta de compreensão não lhe secundavam os esforços.


E para mostrar que suas queixas não eram infundadas, vamos referir um fato verificado no correr do ano 1891.

Certo dia, o lente de Economia Política fazia a sua preleção na seção feminina quando um dos seus colegas suspendeu a aula antes do toque da sineta. Os rapazes, como era de esperar, tiveram um alegrão e, ao transpor o corredor que havia entre as duas salas, fizeram insólito rumor. Obrigado a interromper a sua exposiçéao, o dr. Piza perdeu a calma e deixou escapar uma frase bastante pesada, a verberar o abuso.

Infelizmente a sua censura chegou ao conhecimento dos alunos alvejados, provocando da parte deles um protesto coletivo. Por proposta de um deles, constituiu-se uma comissão, que levou uma reclamação ao Diretor. Este, já informado do incidente, admoestou os rapazes por haverem perturbado os trabalhos, mas não se solidarizou com o lente na apreciação da conduta dos alunos. O fim do incidente foi a renúncia do lente; preferiu perder  a cadeira a retirar a malsinada expressão.

Nem no próprio corpo discente faltavam ao Diretor motivos de aborrecimento. Um caso apenas , para ilustrar: duas alunas havia cujo comportamento deixava muito a desejar. O Dr. Campos fez de tudo para conduzi-las ao bom caminho, mas vendo improfícuos  os seus esforços, outro remédio não teve senão eliminá-las.

Com isto muito devia ter sofrido a sua sensibilidade. Solicitou uma licença de 2 meses, mas não gozou dela até o fim: não lhe sofria o ânimo ficar ausente da Escola quando tantos problemas havia ali à espera de solução.acontecer às pessoas exaustas, enervadas.

Dias após, entrando na sala do 3° ano masculino para a sua aula de Biologia, foi dar com alunos a mexer com o microscópio que ele mandara levar para ali. Não sabendo lidar com o aparelho, tinham estragado as preparações destinadas a ilustrar a lição do dia.

O lente ficou visivelmente contrariado e os alunos, confusos, ouviram-lhe a admoestação sem recalcitrar.

Todos  se capacitaram de que o Mestre estava com a saúde bastante combalida, e infelizmente não se enganaram.

Dois ou tres dias mais tarde, achavam-se os estudantes reunidos à espera do sinal para o começo das aulas, quando lhes chegou esta desoladora notícia: o Diretor acabava de expirar vitimado por uma síncope cardíaca.

Passava-se isto na manhã do 12 de setembro de 1891 e, 16 anos mais tarde, numa conferência que proferiu na Escola Modelo do Carmo, René Barreto descreveu com cores vivas as cenas que se seguiram: é pena que nos mingue espaço para transcrever o seu relato cheio de emoção.

Horas depois da morte do Dr. Caetano de Campos, o deputado Paulino de Lima, fazendo-lhe o necrológio no Congresso Estadual, dava este testemunho altamente expressivo: habitando nas proximidades da Escola Normal, pôde observar que mestres e alunos, adultos e crianças, confundiam as suas lágrimas, irmanadas num pesar profundo.

A mágua foi imensa e a consternação, geral.

                                        *

Em 1930, a Escola Normal da Capital comemorou festivamente o cinquentenário da sua abertura. Iniciados a 2 de agosto os festejos terminaram a 12 de setembro, por ocasião do 39° aniversário do passamento de Caetano de Campos. Nesse dia , foi solenemente inaugurada na Praça da República a herma que, por iniciativa dos seus primeiros discípulos, lhe erigiram os professores da terra bandeirante, com o concurso da infância de todas as escolas.

(esculturasem saopaulo)

No ano seguinte, o ilustre professor José Feliciano de Oliveira, em artigo estampado na Revista “Educação”, averbou de ingratos, os promotores desse movimento, sob fundamento de que deixaram no olvido os grandes serviços de Gabriel Prestes; sim, de Gabriel Prestes, que ampliou e completou a obra do seu antecessor.

O professor José Feliciano, residindo em Paris e desconhecendo os pormenores da comemoração do cinquentenário, não foi justo na sua crítica. Na homenagem prestada à memória de Caetano de Campos não foram esquecidos os pioneiros na reforma do ensino na  primeira República.

Em duas faces da herma vêem-se as efígies do Dr. Prudente de Moraes e do Dr. Francisco Rangel Pestana, e no saguão da entrada da Escola pode-se ver também o medalhão de bronze contendo o retrato em relevo de Gabriel Prestes. Acha-se ele ali em muito boa companhia, no mesmo plano em que figuram Laurindo de Brito, Bernardino de Campos e Cesário Mota.

Não; Gabriel Prestes não foi esquecido, nem era possível que o fosse.

Para prova disto basta-nos transcrever para estas colunas o que escreveu o autor da presente crônica em certo capítulo de seu livro “ Um retrospecto”, publicado por ocasião do centenário da Escola Normal.

“Em fins de setembro de 1893 ocorreu um fato que causou entusiasmo e  surpresa ao mesmo tempo: foi a nomeação de Gabriel Prestes (foto abaixo) , então deputado, para o cargo de Diretor da Escola Normal da Capital. A escolha causou entusiasmo porque era a primeira vez que o Governoo confiava a um professor normalista a direção do instituto destinado à formação dos candidatos ao magistério público.

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“Mas além do entusiasmo, dissemos nós, o fato causou surpresa.

“Não se compreendia que o nomeado pudesse deixar a cadeira que ocupava com tanto brilho na Câmara dos Deputados para aceitar a direção que deveria ser para ele um posto de trabalho intenso e  de reais dificuldades práticas.

“O fato, contudo, era  perfeitamente explicável.

“Gabriel Prestes tomara parte ativa , preponderante na elaboração das leis que reformaram a Escola Normal e todo o aparelho escolar do Estado. Ele soube compreender que as melhores leis podem fracassar no terreno da aplicação, por uma regulamentação que não se inspire nos seus intuitos primordiais por uma execução que não esteja bem identificada com o seu espírito “. E se o seu descortino lhe patenteou essa verdade, sua abnegação não recuou diante da conclusão que se impunha: Gabriel Prestes deixou a Câmara dos Deputados e em princípios de outubro (93) entrou no exercício do cargo de Diretor da Escola Normal. Até aqui  “Um Retrospecto”, quase integralmente.

A posse do novo Diretor seguiu-se imediatamente à retirada de um dos melhores lentes da Escola Normal – o Professor João Vieira de Almeida, catedrático da 2ª cadeira de Português. João Vieira mantivera outrora, muito boas relações com Gabriel Prestes, mas havendo mais tarde  cortado relações com ele, julgava-se incompatível agora com a nova direção da Escola.

Apresentou o seu requerimento e não mais  pôs os pés na Escola Normal. Prestes conhecendo o valor do catedrático retirante, fez todo o possível para evitar a perda desse magnífico elemento.

Trabalho perdido: Vieira de Almeida era teimoso e não voltou atrás. E foi este o primeiro espinho que Gabriel Prestes encontrou no começo da sua gestão. A ele estava reservada, como compensação, a glória de instalar a nossa então única Escola Normal no suntuoso palácio da Praça da República.

A Escola Modelo do Carmo continuou onde se achava, mas lançou o seu primeiro rebento. Este acompanhou a Escola Normal tendo à sua frente Miss Browne. Por proposta de Gabriel Prestes a nova Escola Modelo teve como patrono Caetano de Campos, seu ilustre antecessor. Este fato é altamente expressivo porque mostra  o apreço em que Gabriel Prestes tinha os serviços do primeiro reformador do ensino normal. A inauguraçéao do novo edifício deu-se a 2 de agosto de 1894 e essa faustosa efeméride foi condignamente comemorada no ano passado.

Concluamos:

Integrante da turma normalista de 1890, fiz o curso Normal de 3 anos na Escola da rua da Boa Morte, mas criado o 4° ano, tornei , com minha esposa, aos bancos escolares em 1896.

Já, então, funcionava o curso complementar da Praça, sob a regência de René Barreto. Designado para praticar na sua classe, recebi o encargo de ministrar aos meus alunos aulas de Escrituração Mercantil, duas vezes por semana.

Classe prestigiosa era o 2° ano  de então. Para prova, basta-me citar seus componentes: José C. Cardoso Neto, Joaquim Silva, Armando Gomes de Araujo, José Ferraz de Campos, Henrique Gaspar Midon, Jacomo Stavale, Arthur Coelho, Antonio Peixoto, Eurico Borges de Almeida e Nili Costa.

O primeiro e o último formaram-se mais tarde na Faculdade de Direito e fizeram ambos brilhante carreira.  Cardoso de Melo chegou a Presidente do Estado, na segunda república,  e nesse caráter veio um dia a Campinas.  Para cumprir um dever cívico, incorporei-me à multidão que foi recebê-lo na gare da Paulista. O Presidente avistou-me e, rompendo através do povo foi abraçar-me. Não refiro o fato por vaidade, mas para pôr em relevo o cavalheirismo do meu ex-aluno.

Joaquim Silva(autor dos nossos livros de História do Brasil – nota minha) tem tido para comigo os desvelos de um filho e o mesmo posso dizer de Jacomo Stavale e de quase todos os integrantes dessa turma que tanto honrou o magistério paulista.

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Há poucos dias, na capital, tive o prazer de encontrar Jacomo Stavale, autor, como Joaquim Silva  de valiosas obras didáticas. Referiu-se ele com muita benevolência aos meus rodapés nesta folha e recomendou:

_ Não vá esquecer-se de Gabriel Prestes: foi ele o laço de transição entre a antiga e a atual Escola Normal.

Sim, Gabriel Prestes foi uma das maiores figuras da Escola Normal da Capital. Mas não é nos limites de um simples rodapé que se poderá realçar a obra que se realizou em 5 anos de direção no período áureo do ensino público em São Paulo. A turma de Jacomo Stavale(foto)  escolheu-o como paraninfo em 1898, quando ele já não mais era diretor da Escola Normal.

                       (jacomostavele)

Ora, essa turma deverá festejar em 1948 o cinquentenário de sua formatura e terá então ensejo para prestar à memória  do ilustre pedagogo um preito de homenagens à altura dos seus grandes méritos.

A ele, pois, a minha sugestão e o meu apelo.

Componente de uma das últimas turmas da antiga Escola Normal, fiz um relato da vida normalista do meu tempo e esbocei os perfis de alguns dos seus vultos  mais característicos. Minha missão está concluída. Se, como disse, voltei a ser aluno na Escola da Praça da República, salta aos olhos que no meu tirocínio de alguns meses apenas, não teria eu elementos para uma séria tentativa de reconstituição histórica.

Os colegas que vieram depois são mais qualificados  para continuar, ampliar e quiçá corrigir o meu depoimento de aluno.

CURIOSIDADE:

  JOSÉ JOAQUIM CARDOSO DE MELLO NETO (1883-1965)


TERCEIRO GOVERNADOR E NONO INTERVENTOR

Período de governo: 01/1937 – 04/1938

Natural de São Paulo, formou-se em direito em 1905, pela Faculdade do Largo de São Francisco. Foi presidente da Sociedade Elétrica de Rio Claro entre 1910 e 1934. Na própria faculdade onde estudou foi professor durante trinta e três anos (1920/1953). Fundou o diretório estadual do Partido Democrático – PD. Em 1930 foi prefeito da cidade de São Paulo.Revolucionário de 1932, foi deputado constituinte (1933/1934), deputado federal (1935/1937). Eleito 3º Governador pela Assembléia Legislativa, no dia 30.12.1936, com a implantação do Estado Novo por Getúlio Vargas, foi mantido como 9º Interventor de São Paulo. Exerceu o cargo até 27.04.1938. Enfrentou, em toda a sua gestão, forte oposição por parte do Partido Republicano Paulista – PRP,uma vez que pertencia ao PD (Partido Democrático). Pouco antes de deixar o governo, em março de 1938, assinou ato criando o Departamento Central de Estatística do Estado de São Paulo.Foi deputado federal de 1946 a 1951. Entre a política e a vida empresarial, foi fundador e presidente do Banco Mercantil de São Paulo e presidente da Tecelagem Pirassununga. Faleceu em São Paulo em 1965.

… de JANEIRO de 1945 encontrei apenas a informação transcrita abaixo:

25/01/1945 (OESP)

Decidido o afastamento de Ernestina Ipolito, professora da EN de Itapeva, a fim de prestar serviços junto à Escola Normal  “Caetano de Campos”.(SI -347/45)

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