Poema “naif”de Paulo Frigério…

Queridos leitores:

Quando a Cida (Bogossiam – IECC 68)  me entregou o livro de onde saiu o  poema transcrito abaixo (“Travessias – prosa e verso”), não sabia que ali haveria de encontrar tantas palavras de doçura e humanismo; não estou falando  apenas do poeta, mas do ser humano que se encontra por trás do menestrel.

Anda raro encontrarmos gente que é gente, aparentando não ter artifícios, sem outra preocupação de ser simplismente feliz e de nos fazer feliz.

Paulo Frigério é um ser delicado, com um coração “deste tamanhão” , capaz de nos pegar pela mão e inventar uma “sinfonia pastoral” para que a ouçamos no caos da realidade de hoje.

Até breve.

Abraços desrimados, rimados e arrimados,

wilma.

29/11/2016.

A ESCOLA MISTA DO BAIRRO DA ESTIVA

Paulo Frigério (in: “Travessias – prosa e verso”.)

A escola mista do bairro da Estiva

Nossa escola,

saudoso templo do saber primário,

alfabetizadora eficiente,

trilhava pelos caminhos suaves

das Cartilhas Sodré

e Aventuras de Pedrinho.

A pata nada… pata-pa…

nada-na… macaca-ma…

B com A… BA…

Assim se escreve o a…

assim se escreve o b…

dizia a professora com calma,

desenhando cada letra.

Letras, palavras e contas

iam enchendo o quadro negro

e ocupando nossas mentes.

Geografia de mundos nebulosos,

cidades e capitais do além,

São Paulo, Rio de Janeiro, Pará,

histórias de heróis da pátria,

  1. Pedro, Duque de Caxias, Tiradentes…

Vamos pintar a bandeira:

o verde das nossas matas,

o amarelo do nosso ouro,

o azul do nosso céu

salpicadinho de estrelas.

E na faixa branca do centro

e lema da nossa pátria:

ORDEM E PROGRESSO

Além das informações,

aprendíamos hinos e canções:

hino nacional e hino à bandeira,

“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas…”

“Salve lindo pendão da esperança…”

Dois hinos bem complicados,

para o nosso entendimento,

mas no ritmo da melodia,

cada um cantava a letra

sem saber o que dizia.

Das canções que aprendemos,

cito uma que ficou

bem gravada na memória:

“Peguei um ita no Norte…”

Meio período, manhã ou tarde,

era o tempo necessário

para nossa aprendizagem.

Tempo integral não existia,

integral mesmo era nossa formação.

Nossas mestras impunham respeito,

fosse menino ou menina,

com muito amor e carinho,

faziam reinar a ordem,

respeito e disciplina,

solidariedade e civismo.

Ninguém ia por merenda,

que pão, banana, milho e mandioca

todos tinham lá de sobra.

Nossa escola,

na beira da estrada,

imponente e respeitada,

era toda agitação.

Meninas com vestidos brancos

e com fita nos cabelos,

meninos de calças curtas

com cintos ou suspensórios,

bem brancas as camisas,

cabelo americano ou topete.

Muitos iam calçados,

e outros sem nada nos pés,

fosse inverno ou verão.

Nosso lanche, banana e pão,

mais comum daquele tempo,

devorado era com pressa

pra poder aproveitar

as atrações do recreio:

pular corda, amarelinha,

bolinhas de gude, pião,

pega-pega, queimada,

bola de pano a rolar

no campo de futebol.

Meninos pra cá,

meninas pra lá,

“lé com lé,

cré com cré,

faca sem ponta,

galinha sem pé”

Nossa escola,

um dia foi desativada.

Solitária e abandonada,

vivia se interrogando:

onde andam as crianças

que meu coração sempre acolhia?

Onde andam as crianças

que me enchiam de alegria?

Onde andam as professoras

que aqui reinaram um dia?

Por dentro,

um vazio imenso.

Por fora,

dolorida decadência:

imensas chagas expostas

no reboco corroído;

paredes dilaceradas

pelas chuvas, pelos ventos;

janelas de pálpebras cerradas,

portas de bocas caladas

silenciam sabedorias primárias;

ao redor, mato crescido,

tomando o espaço

dos nossos passos,

dos nossos rastos,

dos nossos saltos,

de risos e correrias,

de tantas brincadeiras,

de briguinhas e desavenças

e de tantas alegrias.

Adeus biroscas em L

do nosso jogo de gude…

Adeus traçado da amarelinha…

Céu e inferno estão cobertos

por muitas ervas daninhas,

fedegoso e pés de galinha.

Nas penumbras interiores,

pendem morcegos soturnos.

De cabeça para baixo veem o mundo.

Ah! Meu Deus! que quadro negro!

Nossa escola

sentiu o amargo do vazio,

e o peso da inutilidade.

Como um polvo gigante,

os loteamentos chegaram

e foram fechando o cerco

em torno daquele corpo

fragilizado, em ruínas.

Para que manter de pé

a escola que há muito tempo

não tinha mais serventia?

De repente virou escombro

a nossa saudosa escola,

nosso berço do saber.

O fim da matéria bruta

nem sempre acaba com a história.

A Escola Mista da Estiva

ficará em nossa memória,

muito inteira, muito viva.

Agora vejo com saudade

fotos daquele tempo.

Brota logo no meu peito

o desejo de saber

onde andam os colegas

do meu tempo de criança.

Lá vinham chegando eles

pelos pastos, pelas estradas,

pelos quatro cantos da Estiva,

e vindos lá do Baixote,

sozinhos ou aos magotes,

passando pelas porteiras.

Onde andam meus colegas?

Os Beltran e os Scarpim,

Os Momesso e os Stabile,

Os Contel e os Bergamasco,

Os Frigério e os Bearari?

Os Zamai e os japoneses Mori?

Os Martins e os Gentil?

Os Ferezim e os Gregorutti?

Guardados estão na memória,

com imagens muito vivas.

Fazem parte da nossa história,

da nossa escola da Estiva.

 

A escola mista do bairro da Estiva

(com minhas interferências!)

 

Nossa escola,

saudoso templo do saber primário,

alfabetizadora eficiente,

trilhava pelos caminhos suaves

das Cartilhas Sodré

e Aventuras de Pedrinho.

A pata nada…pata-pa…

Nada–na … macaca-ma…

B com A … BA…

“Assim se escreve o « a »…

Assim se escreve o “b”…”

dizia a professora, desenhando cada letra.

Letras, palavras e contas

iam enchendo o quadro-negro

ocupando nossas mentes de “capetas”;

seguia a Geografia de mundos nebulosos,

cidades e estados do além:

São Paulo, Rio de Janeiro, Pará;

histórias de heróis da pátria:

D.Pedro,  Caxias, Tiradentes…

-“Vamos pintar a bandeira ?

O verde das nossas matas,

o amarelo do nosso ouro,

o azul do nosso céu

salpicadinho de estrelas;

e na faixa branca do centro,

sem erro e com sucesso,

o lema da nossa pátria:

ORDEM E PROGRESSO “.

Além das informações,

aprendíamos hinos e canções :

Hino Nacional e Hino à Bandeira.

-« Ouviram do Ipiranga às margens plácidas »…

-“Salve lindo pendão da esperança…”

Dois hinos bem complicados

para o nosso entendimento;

entoados no ritmo da melodia,

cada um cantava a letra

sem saber o que dizia!

Das canções, sem nenhum corte,

cito a que ficou  gravada

na memória de menino :

« Peguei o I.T.A. no norte…”

Meio-período, manhã ou tarde,

era o tempo necessário

à nossa aprendizagem.

Tempo integral não existia;

“integral” mesmo era a nossa formação.

Nossas mestras exigiam respeito,

fosse menino ou menina;

com muito amor e carinho

faziam reinar a ordem,

respeito e disciplina,

solidariedade e civismo.

Ninguém  ia ali por merenda,

pão, banana, milho e mandioca

todos tinham lá de sobra.

Nossa escola na beira da estrada,

imponente e respeitada,

era toda agitação.

Meninas com vestidos brancos,

  de fitas nos cabelos;

menino de calças curtas,

com cintos ou suspensórios,

cabelo à americana, topete e Glostora.

Muitos iam calçados

e outros sem nada nos pés,

fosse inverno ou verão.

Nosso lanche, banana e pão,

mais comum naquele tempo

devorado era com pressa

pra podermos aproveitar

as atrações do recreio :

pular corda, amarelinha,

bolinhas de gude, pião;

bola de pano a rolar

no campo de futebol.

Meninos pra cá,

meninas pra lá,

« lé com lé ;

cré com cré,

Faca sem ponta,  

galinha sem pé ».

A escola foi um dia desativada;

solitária e abandonada,

vivia se interrogando:

-“Onde andam as crianças

que meu coração acolhia ?

Onde andam as crianças

que me enchiam de alegria ?    

Onde andam as professoras

que aqui reinaram um dia ?”

Por dentro um vazio imenso ;

por fora dolorida decadência:

imensas chagas expostas

no reboco corroído;

paredes dilaceradas

pelas chuvas, pelos ventos;

janelas de pálpebras cerradas,

portas de bocas caladas

silenciaram a  sapiência.

Ao redor mato crescido

tomando o espaço

de nossos passos,

dos nossos rastos,

dos nossos saltos

de risos

 de nossas correrias,

de tantas das brincadeiras;

do nosso jogo de gude…

de briguinhas e desavenças

e de tantas alegrias.

Adeus biroscas em « L »

do nosso jogo de gude;

adeus traçado apagado

da nossa amarelinha:

Céu e Inferno estão cobertos

por muitas ervas daninhas,

fedegosos e pés-de-galinha.

Nas penumbras interiores

pendem morcegos soturnos

que de cabeça pra baixo

sozinhos veem nosso mundo .

Ah ! Meu Deus! Que quadro negro…

Nossa escola sentiuo amargo do vazio

e o peso da inutilidade.

Como um polvo gigante,

loteamentos chegaram

 fechando o cerco, apertando

o corpo fragilizado,

abandonado em ruínas.

-“Para que manter de pé

a escola que há muito tempo

não tinha mais serventia ?”

De repente virou escombro

a nossa saudosa escola,

nosso berço do saber.

O fim da matéria bruta

não se acaba com a história.

A “Escola Mista da Estiva”

ficará em nossa memória

muito inteira, muito viva!

Agora vejo com saudade

fotos daqueles tempos;

brota logo no peito

o desejo de saber

onde andam os  rebentos?

Lá vinham chegando eles

pelos pastos, pelas estradas,

pelos quatro cantos da Estiva,

vindos lá do Baixote,

sozinhos ou aos magotes,

passando pelas porteiras.

-“Onde andam meus colegas ?

O Beltran e os Scarpim,

os Contel e os Bergamasco,

os Frigério e os Bearari ,

os Zamai, os nisseis Mori ,

Os Martins e os Gregurutti ?”

Guardados estão na memória

com imagens muito vivas.

Fazem parte da nossa história,

Da nossa “Escola da Estiva”.

 

 

 

 

 

 

 

 

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