PARTE II – Caetano de Campos – Escorço biográfico do Professor Gabriel Prestes IV

Queridos leitores,

dando prosseguimento às cinco valiosas crônicas que João Lourenço Rodrigues fez para o jornal OESP, segue a de n° IV; peço-lhes a atenção de lerem nas linhas e nas entrelinhas as condições políticas que o levaram a integrar, e depois, a partir da Escola Normal da Capital.

Abraços atentos,

wilma.

03/12/2016.

 

28/09/1945 (OESP)

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Escorço biográfico do Professor Gabriel Prestes

                           IV

                 Sinais dos tempos

São de Pandiá Calógeras as seguintes palavras:

“ A feliz continuidade no terreno da administração pública é o terrível morbus que tanto perturba e paraliza a nossa atividade governativa.”

(Pandiá Calógeras; G. Ermakoff) Afficher l'image d'origine

Gabriel Prestes não devia ter conhecimento deste conceito formulado por um homem que tinha visão muito justa da nossa realidade: Calógeras proferiu-o alguns anos depois do pasamento de Gabriel Prestes. A este, porém, não faltou intuição para compreender que no regime presidencial , que tudo se concentra nas mãos do Chefe do Governo, a mudança de um presidente não afeta sem modificações sensíveis em todos os ramos da pública administração.

E desse modo, mal começou o governo do Dr. Campos Sales imagem abaixo), os amigos mais chegados a Gabriel Prestes viram quanta razão tinha ele para justificar o açodamento que punha na execução dos seus planos.

                                                  Afficher l'image d'origine(Wikiwand)

Quando três amigos o administravam, fazendo ver que ele carregava a sua atitude e se expunha aos riscos de grave “surménage” , o diretor da escola explicava… É preciso aproveitar as boas disposições do atual Presidente.

Algum tempo depois de haver iniciado o seu governo, o Dr. Campos Sales fez a sua primeira visita à Escola da Praça. Não teve ali a recepção festiva porque não se fez anunciar e não gastou muito tempo para percorrer toda a cidade escolar. Quando ele partiu, o diretor, sempre reservado não exprimiu (?) as suas impressões, senão a alguns dos seus íntimos. Os fatos, entretanto, já deixavam perceber que havia mudança de orientação em pontos capitais de administração no ensino.

O Conselho Superior não tardou a ser averbado de corporação inútil e anárquica e, ao que parece, nem mais foi convocado.

 

O Diretor Geral da Instrução Pública, laço de ligação que era entre o Conselho do Governo, compreendeu que nada mais tinha a fazer: requereu a sua aposentadoria e obteve-a sem mais delongas; recebeu até o seu bilhete azul, como agora se diz. Suprimiram-se assim, duas peças principais  do mecanismo administrativo. E por que?

Di-lo José Feliciano em artigo publicado anos depois, o novo Presidente era partidário de um governo altamente centralizado, e o Conselho, no exercício das suas atribuições, não se tinha mostrado muito dócil às injunções do executivo. Seus pareceres, em determinados percursos administrativos, pareciam fazer timbrar em desconhecer as conveniências da política que os havia suscitado…

                                ( José Feliciano de Oliveira; 2° à esquerda, ao alto)                  Afficher l'image d'origine


Gabriel Prestes, aliviado de seus encargos de membro nato do Conselho Superior, deu-se com isso por feliz: poderia concentrar toda a sua atividade na Escola Normal, onde havia ainda muitos problemas à espera de solução.

Nessa fase da sua gestão deu ele uma magnífica prova da sua independência espiritual. Como vimos em capítulos anteriores, Gabriel Prestes, se não era positivista ortodoxo, tinha decidida simpatia pela doutrina de Auguste Comte.


Ora, por aquele tempo havia na Escola Normal três docentes positivistas e outros tantos na Escola Complementar. Seria, pois, empresa muito mais viável restaurar a hegemonia positivista dos tempos da Velha Escola Normal, mas o diretor nada fez no sentido de favorecer o proselitismo da doutrina positivista entre os alunos.  Desse modo a propaganda ficou confinada na  doutrina de um único lente e que esse mesmo não autorizado pelo Centro Positivista do Rio.

Nesta apologia que estamos fazendo da personalidade de Gabriel Prestes, não queremos  ser averbados  de incondicionais, ao ponto de sustentar que ele não cometeu erros. Vamos lealmente assinalar um desses erros. Examinando no meu “Livro Jubilar”, as listas dos professores diplomados pela Escola Normal da Capital, verifica-se que a turma de 1890 não chegava a uma dezena, cumprindo notar que bom número deles já possuíam diplomas de professores preliminares. Por que esta redução?

Porque com a ampliação do Programa da Escola Normal e a dilatação do respectivo curso de 3 para 4 anos, a Escola Normal veio quase a dispovoar-se.

Deu isso lugar à invasão dos chamados “professores provisórios”, que não possuiam diploma e não eram aprovados, em muitos casos , senão por força das injunções dos seus padrinhos políticos.

Essa invasão não se teria dado se os legisladores de 1892 e 1893, entre os quais se achava Gabriel Prestes, tivessem sido mais previdentes. Dir-se-á que as consequências foram boas porque, para deter os progressos da invasão, o Governo foi levado a conceder aos ginásios e às escolas complementares a faculdade de diplomar professores preliminares, concorrendo desse modo para elevar alguns milhares o efetivo da classe.

Não há dúvida de que em face do princípio pragmatista, a conclusão é aceitável. Revela, contudo, notar que a supressão do curso complementar, como curso puramente propedêutico quebrou a primitiva hierarquia das nossas instituições escolares.

A melhor prova disto está no restabelecimento feito anos depois, do Curso Complementar nas Escolas Normais do Estado (com o título de Pré-Normal).

O Dr. Campos Sales permaneceu pouco tempo à frente do governo paulista. Candidato escolhido à Presidência da República, para o fim de se descompatibilizar, ele passou as rédeas da governaça ao vice-presidente Dr. Peixoto Gomide.

O ano de 1897  trouxe esperanças de um ressurgimento: no começo da sessão legislativa desse ano, o Dr. Alfredo Pujol que deixara a pasta do Interior e entrara para a Câmara dos Deputados, apresentou naquela casa do Congresso, um projeto de lei restabelecendo o cargo de Diretor da Instrução Pública, aliás com título diverso, e insinuando que esse alto cargo seria confiado a uma alta competêcia do ensino. Nas entrelinhas desse discurso todo mundo leu o nome de Gabriel Prestes. Mas esse capítulo já se alongou em demasia. Analisaremos no próximo capítulo o projeto em apreço.

 (Peixoto Gomide; Wikipédia) Afficher l'image d'origine

Renúncia Inespirada

Aliviado de seus encargos de membro do Conselho Superior pôde Gabriel Prestes votar-se inteiramente à obra de reajustamento da Escola Normal e à organização dos seus novos anexos.

O Jardim da Infância dava os primeiros passos. A “Escola Americana”, sob a direção do Dr. Horacio Lane, deparava-lhe em paradigma, mas o Diretor da Escola Normal não queria obter uma cópia servil. Leu muito e fez ler: traduziu diversos livros e interessou outras pessoas nesse trabalho, não queria, porém, adoção maquinal, mas adaptação inteligente e progressista.

(Dr. Horacio Lane; Geni)Afficher l'image d'origine

Com os resultados dessa cooperação, pôde Gabriel Prestes recolher materiais para publicar uma “Revista do Jardim da Infância”, trabalho esse destinado a orientar as respectivas professoras.

   (ieccmemorias)Afficher l'image d'origine

Dois ou três volumes para começar. Volumes alentados, sobretudo o primeiro, mas não massudos ou rebarbativos: ofereciam eles leitura instrutiva e atraente, graças à colaboração da poetiza Zalina Rolim; ocupava ela o cargo de auxiliar de Inspetora, de Dona Maria Ernestina Varela. Parece que foi o Dr. Bernardino de Campos, então ministro da Fazenda, quem recebeu as primeiras da auspiciosa publicação, caprichosamente ilustrada. Nada mais justo do que tal homenagem. E o homenageado, valha a verdade, soube corresponder à gentileza do ofertante, pois em fins de 1897, dirigia ele a Gabriel Prestes uma carta do próprio punho, acusando o recebimento dos impressos e reafirmando-lhe os seus sentimentos de invariável apreço.

É um biblhete lacônico, mas de tal modo expressivo que não podemos resistir à tentação de transcrevê-lo integralmente!

(Wikimedia Commons) Afficher l'image d'origine

“Gabriel

Agradeço a você a remessa e felicito-o calorosamente. Peço transmitir os meus cumprimentos a todos os colaboradores da esplêndida Revista.

Saudades do amigo grato. (assinado) Bernardino de Campos.”(ilustração acima)

Por esse tempo Gabriel Prestes, que tinha o posto de Major da Guarda Nacional, recebeu a patente de Tenente-Coronel, assinada pelo Dr. Prudente de Moraes, primeiro reformador da Escola Normal, então Pesidente da República.

E essa promoção constituiu uma prova inequívoca do prestígio de que gozava o então Diretor da Escola Normal da Capital.

Em 97, como dissemos em capítulo anterior, o Dr. Alfredo Pujol, ex-Secretário do Interior, apresentara no Congresso do Estado um projeto de lei remodelando o serviço da Administração Escolar.

A principal característica do projeto Pujol consistia na supressão das Inspetorias Distritais então existentes, as quais seriam substituídas por uma corporação de dez inspetores técnicos, sob a chefia de um Inspetor Geral, todos eles com residência na capital.

Convertido o projeto em lei, correu uma coisa certa que Gabriel Prestes fôra convidado para o cargo de chefe da corporação.

Decorreram entratanto os dias sem que a sua nomeação se tornasse efetiva, sem que os jornais lhe publicassem a nomeação.

-Por que esta demora? – perguntavam de todos os lados.

-Estão preparando o Regulamento, respondiam os iniciados.

Uma circunstância entretanto causava estranheza.

Era natural que dado o fato de ter feito parte do Conselho Superior, Gabriel Prestes fosse encarregado da regulamentação da nova lei, ou pelo menos que fosse obrigado a apresentar as bases de tal regulamento. Mas a esse respeito nada respirou.

Novos dias, pois, de ansiosa expectativa e por fim esta surpresa: os jornais davam o regulamento como concluído e aprovado, entrando desde logo em vigor; não confirmavam, entretanto, a notícia, de há muito esperada da nomeação de Gabriel Prestes.

Para o cargo de Inspetor Geral do Ensino fôra nomeado o Dr. Mario Bulcão, diretor do Ginásio de Campinas, e logo tomou posse.

Não percamos tempo analisando as conjunturas que então se fizeram, trentando explicar a reviravolta. Demos a palavra ao próprio Gabriel Prestes, certamente melhor informado do que os melhores comentaristas.

Em carta dirigida a um amigo de Piracicaba, confidenciava ele o seguinte:

“Resolvida irrevogavelmente a extinção do Conselho Superior, resolvi prestar o meu concurso à nova organização, que então oferecia ensejo de se realizar o pensamento capital, que determinara a criação do próprio Conselho.

Não podendo aceitar o cargo de Inspetor Geral por circunstâncias que não vem a propósito referir, indiquei para substituir-me o nosso amigo Oscar Thompson, que desde logo se associou às minhas ideias. Ambos desejávamos tornar inabalável a atual organização escolar, formando uma corporação conservadora, composta de dez professores dedicados e competentes.

Ficaria assim entregue aos próprios professores a verdadeira direção do ensino público, pois que aos inspetores é que incumbiria resolver ou indicar soluções para todas as questões relativas à organização pedagógica e a disciplina escolar; os governos, quaisquer então que fôssem as suas mutações, não mais teriam de encontrar os embaraços que se opõem aos novos administradores, enquanto não se acham inteiramente conhecedores do serviço, não podendo por isso dirigir com acerto a sua ação sem gerar conflitos.

Para chegar a esse resultado, era preciso proceder com intransigência. Vendo que o regulamento não satisfazia às condições desejadas eu e o Thompson procuramos convencer o Governo da urgência de modificá-lo, em vista dos seus vícios insanáveis.

Parece-nos que tanto a Secretaria do Interior como o Presidente não eram contrários a essa solução, mas com surpresa verificamos que o nosso procedimento desassombrado apenas serviu para nos criar uma situação insustentável. O regulamento foi posto em vigor, e com ele, estamos certos, vai sofrer a causa do ensino. Nestas condições nada mais tínhamos a fazer…“

 

Este tópico final é suficientemente expressivo: Gabriel Prestes, diretor da Escola Normal e Oscar Thompson, diretor da Escola Modelo do Carmo entenderam não poder mais  continuar à frente dos dois importantes estabelecimentos confiados à sua direção: ambos se exoneraram, acompanhados nesse passo pelo professor Joaquim Santana, adjunto da Escola do Carmo.

Tudo isso deu-se nos primeiros dias de fevereiro de 1898, e desde então Gabriel Prestes começou a receber de toda parte, cartas, ofícios e telegramas de apoio moral ao seu ato de hombridade.

Foi-me dado compulsar muitos desses documentos, todos eles nitidamente honrosos para o destinatário. Mingua-nos espaço para transcrevê-los, mas vamos abrir uma exceção em favor dos dois seguintes:

 

Telegram do Dr. Bernardino de Campos, ministro da Fazenda:

“Recebi sua carta com grande pesar. Respeito os motivos mas peço reconsidere, se houver ainda cabimento, pois tudo ignoro. Repudio sua saída equivalente A desorganização da obra. Estou pronto para o que puder servir. 5ASSIMNADO° Bernardino de Campos. Rio, 11 de fevereiro de 1898.”

 

*

 

Ofício da Secretaria dos Negócios do Interior, em data de 16 de fevereiro do mesmo ano:

Sr. Tte. Cel. Gabriel Prestes

Tendo a vosso pedido sido concedida a exoneração do cargo de Diretor da Escola Normal desta Capital, cumpro com satisfação o dever de significar-vos os vivos agradecimentos do Governo pelos valiosíssimos serviços que prestaste ao Estado de São Paulo, no desempenho do referido cargo, no qual sempre vos houvestes com inexcedível inteligência, lealdade e critério.

Com os meus protestos de elevada estima e de distinta consideração pessoal, cordialmente vos agradeço em particular, o valioso concurso de vossas luzes e competência prestada à minha administração. Saúde e fraternidade,

(assinado) João Baptista de Melo Peixoto.”

 

Todas essas manifestações são altamente significativas, mas nenhuma delas deve ter sido mais grata ao coração de Gabriel Prestes de que a dos diplomandos da primeira turma de professores complementaristas da Praça da República. Eles o convidaram no fim desse ano de 1898, a lhes servir de paraninfo e isso quando ele já não era mais diretor da Escola Normal, nem dispunha de influência para lhes obter colocação vantajosa no magistério. A turma compunha-se de 16(?)  alunos e 22 alunas, e a solenidade realizou-se a 10 de dezembro de 1898, isto é, há pouco menos de 47 anos.

 

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