PARTE II – Caetano de Campos. João Lourenço Rodrigues ESCORÇO BIOGRÁFICO DO PROFESSOR GABRIEL PRESTES – V

02/10/1945 (OESP)

ESCORÇO BIOGRÁFICO DO PROFESSOR GABRIEL PRESTES

                  V

João Lourenço Rodrigues

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Afficher l'image d'origine(ieccmemorias; Prestes ao centro na 2a fila)

MEMBRO  DO CONSELHO SUPERIOR

Diretor da Escola Normal – da  única Escola Normal que então  possuíamos – Gabriel Prestes era membro nato do Conselho Superior da Instrução Pública.

 

A esta  Corte(ilegível) competia entre outras coisas organizar os programas de ensino de acordo com os princípios estabelecidos pela legislação; mas pode-se afirmar sem temeridade que, nos programas expedidos naquela época, o Conselho Superior nada mais fez que endoçar os trabalhos  do Diretor da Escola Normal,  naquela época era quem de maior notoriedade na matéria.

Fal&&&&&&&&&&&&²ta-nos (…) dissertações para  pormenorizar a atuação de Gabriel Prestes no seio do Conselho Superior, mas sabemos que a sua atenção ali foi não poucas vezes desviada  dos problemas mais momentosos da administração(…) pela politicagem…

A criação das Inspetorias Distritais fôra, para a época, um progresso, mas a ação daqueles funcionários, aqui e ali, entravada pela mentalidade estreita dos régulos  locais.

Uns processos administrativos  (…) no seio do Conselho Superior, forçou-o a manifestar-se a dar pareceres nem sempre  favoráveis  às pretensões ao mandonismo prepotente  e Gabriel Prestes não se conformava com esse estado de coisas e por isso não repugna  admitir que foi por sua sugestão que o Dr. Alfredo Pujol, sucessor do inolvidável Cesário Mota, em janeiro de 1896, convocou o primeir Congresso de Inspetores  Escolares que se reuniu na Capital do Estado. O Dr. Pujol tinha sido companheiro de Gabriel Prestes na Câmara dos Deputados e, tendo acompanhado a sua carreira não podia deixar de apresentar devidamente os conselhos da sua experiência.

Assisti na Escola Normal, em companhia de Pedro Voss, a duas sessões desse Congresso de Inspetores; tivemos ambos a impressão que o Diretor da Escola Normal, embora se conservasse na penumbra, como uma nota velada, era o órgão consultivo  do secretário que presidia ao Conclave. Sua influência era coisa  que estava a entrar pelos olhos. Na Escola Normal, segundo fomos informados, o seu prestígio ficara demonstrado, de pouco, pela destituição de um lente insubmisso. E o mesmo aconteceria na Escola Modelo anexa, com Miss Browne: ela não conseguia impor sempre o seu ponto de vista, como sucessora da velha Escola Normal, quando esta se achava sob a direção interna  do Dr. Benevides. Miss Browne, em atenção aos seus serviços , não foi, porém, destituída: o Governo transferiu-a da  Escoal Caetano de Campos para a escola Modelo da Luz, recentemente criada.

Com essa transferência, Gabriel Prestes ficou de mãos livres na Escola da Praça e pôde dar às duas escolas–modelo anexas, a preliminar e a complementar, organizações consentâneas com as respectivas finalidades.

Nessa visita feita  à Escola da Praça tive (…) de observar os melhoramentos introduzidos no ensino normal depois da minha formatura, em 1890.

As impressões por mim percebidas não podiam ser melhores, e eis o que explica o meu regresso à Escola Normal, naquele mesmo  ano de 1896, em companhia de Antonio Alves Aranha (…)

 O Governo facilitava  auxílio aos normalistas  de 3 anos, que quisessem fazer o 4° ano para obter o diploma de professor complementar. Desta facilidade já se haviam aproveitado em 1894, Honorato Faustino e Teófilo de Melo e em 1895, Gabriel Antunes e outras pessoas de sua família.

Foram esses os primeiros normalistas complementares e, todos eles, sem exceção, haviam obtido esplêndidas colocações nas escolas de novo tipo recentemente instaladas.

Tal fato constituía para nós um estímulo e sua influência foi pronta e decisisva: em março, estávamos todos matriculados no 4° ano da Escola Normal.

Por esse tempo chegava o Dr. Bernardino de Campos ao termo do seu período governamental. Em dias do mes de abril, o Presidente do Estado fez anunciar ao Diretor da Escola que ali compareceria (…) para apresentar as suas despedidas  ao Corpo Docente, ao Corpo Discente(…)

Reservando para o capítulo seguinte os pormenores dessa visita, deixarei consignada aqui a carta oficial que o Dr. Bernardino de Campos dirigiu a Gabriel Prestes antes de deixar o Governo.

 

(Museu Maçônico Paranaense)Afficher l'image d'origine

“Gabinete do Presidente, em 14 de abril de 1896.

Cidadão Diretor da Escola Normal

Trazendo-vos as minhas despedidas ao retirar-me do Governo, quero ainda uma vez exprimir a minha gratidão pelo concurso inestimável que prestastes  à situação, dirigindo magistralmente um dos mais importantes , delicados e complexos ramos da Administração.

Tendo colaborado decisivamente para dar à atual lei do ensino o cunho de verdade e de utilidade que a tornou um poderoso instrumento de progresso, vos incumbistes, depois, executando-a na parte mais interessante e mais difícil – a instrução primária- de provar a sua exequibilidade e alta conveniência, no sentido de atingir o alvo visado pelo legislador.

A vossa ação benéfica, inspirada no mais alto ideal  de patriotismo, proficuamente traduzido na obra que hoje, sobremaneira honra a nossa terra, é de um padrão de  glória para o funcionário consencioso , ilustrado e severo, na compreensão e observação do dever social e um foco de que irradiam os mais fecundos dons para a transformação moral e intelectual do nosso meio.

Pelo muito que a vossa competência, tenacidade e amor à causa pública que vos foi confiada, aqui vos deixo, com os mais ardentes protestos de estima e de afeição, o meu eterno reconhecimento.

Peço apresenteis também a todos os professores e e mestres, os meus cordiais agradecimentos.

O amigo agradecido (Assinado) – Bernardino de Campos.”

AINDA UM DEPOIMENTO PESSOAL

Não foi a só esperança de fazer  carreira que me conduziu em 1896 à Escola Normal da Capital, já então conhecida pelo nome de “ Escola da Praça”.

Também contribuiu em boa parte para isso o desejo de seguir o curso de Astronomia, que José Feliciano ali dava, desde 1893.

Na nova Escola Normal fui encontrar algumas relíquias veneradas da antiga Corporação Docente: o Dr. Godofredo Furtado, o Dr. Benevides e o professor Ciridião Buarque, este contemporâneo de Caetano de Campos. Entre os novos lentes estavam, além do professor José Feliciano, o Dr. Odilon Goulart, o Dr. José Machado de Oliveira, o professor Carlos Lentz, todos eles competentes e justamente acatados.

Quanto ao Diretor, não tive dele, a princípio, boa impressão: faltava-lhe o facínio pessoal, que era o primeiro dos predicados de Caetano de Campos. Este se abeirava em constrangimento dos alunos, como quem está convencido do seu valor, e parece que os magnetizava pela sua irradiante simpatia.

Com Gabriel Prestes não se dava o mesmo.

Cirsunspecto, arredio, ele exercia grande ascendência na Escola, mas como disse Cardoso de Melo Neto, seu olhar distante parecia ferrado de tristeza.
Seu prestígio não ficou abalado com a retirada de Cesário Mota; ele continuou a exercer real influência no tempo do Dr. Alfredo Pujol, e eu tive  a prova disso na facilidade com que obteve a nomeação de Pedro Voss para a direção da Escola da Luz, (Escola-Modelo  Prudente de Moraes) como sucessor de Miss Browne, que deixara o cargo em março de 1896.

Ah! Aquele ano de 1896 devia ser para nós “um caso sério”. Tínhamos de dar conta não só das matérias do 4° ano, mas de outras acrescidas no 3° e no 2°; houveram ao todo dez matérias para estudar em 10 meses! Enquanto labutávamos assim para conquistar novo diploma, o Dr. Bernardino de Campos fazia uma excursão presidencial ao Amparo, onde vivera tantos anos antes do advento da República e onde contava ainda bom número de amigos e admiradores. A recepção foi festiva e cordialíssima. Uma vez no Amparo, ele não podia deixar de visitar o grupo escolar Luiz Leite, um dos primeiros por ele funda do. Houve ali um espetáculo do grupo infantil e foram levadas à cena, pela segunda vez, duas peças que eu e o Pinto havíamos escrito, ensaiando e feito representar no ano anterior. É natural que, por essa ocasião se fizesse referência a dois professores ausentes, que então faziam o 4° ano da Escola Normal.

Pode-se ainda conjecturar que, de volta a São Paulo, o Dr. Bernardino de Campos procurasse informar-se desses professores. Pois logo  Gabriel Prestes começou a fazer-se  encontradiço comigo, nos corredores da Escola, e dispensava-me certas atenções que davam na vista.

Não é pois, de admirar que ele me escolhesse  para saudar o Dr. Bernardino de Campos quando este, em véspera de deixar o Governo, fez anunciar a visita que me referi  no capítulo precedente. Assoberbado como andava com as lições da Escola, fiquei alarmado com a perspectiva de tal encargo, mas não me esquivei.

A saudação foi feita e, no dia seguinte, “O Estado de São Paulo”, que não é pródigo em adjetivos encomiásticos, noticiava que eu havia pronunciado belíssimo discurso em nome dos alunos.  E quero crer que realmente tivesse dado boa conta do meu recado, a julgar pelos aplausos  que recebi; o Diretor da Escola foi o primeiro a felicitar-me e fê-lo dando-me efusivo abraço.

Não muito depois, tive prova bem patente de que ele vinha acompanhando com interessea marcha dos meus trabalhos.  Certo dia, trabalhava eu no Salão de Modelagem, quando sucedeu entrar ali o Diretor, acompanhado de Mariano de Oliveira. Fora este seu colega na velha Escola da rua da Boa Morte e, sendo agora diretor do Grupo Escolar São Roque, fora visitar a Escola-Modelo Caetano de Campos, com intuitos de estudo.

Detendo-se perto da mesa onde eu modelava, Gabriel Prestes perguntou a sorrir:

– Conhecem-se?

-Você aqui! Exclamou Mariano de Oliveira, bastante surpreendido, adiantando-se para abraçar-me. Enquanto conversávamos, o Diretor chamou o professor Bruno Swarg e mandou mostrar os trabalhos que eu havia modelado.

Quantos esforços não tive de desenvolver para corresponder a tais provas de estima! Além das aulas, devíamos praticar na Escola Modelo Complementar, em determinados dias da semana. Coube-me fazer a prática na classe do 3° ano, regida pelo meu amigo René Barreto, e não quis este que eu fosse ali mero observador: conhecendo as minhas aptidões em escrituração mercantil, confiou-me o encargo de lecionar aos seus alunos aquela matéria que faria parte do programa do 2° ano.

Foi-me dado, desse modo, a grata oportunidade de colaborar, muito embora em parte mínima, na formação da primeira turma de complementaristas que saiu da Praça da República. Foram excelentes amigos e eu guardo-lhes os nomes até hoje com saudade: Antonio Peixoto, Armando Gomes de Araujo, Antonio Coelho, Eurico Borges, Henrique Gaspar Midon, Jácomo Stavale, Joaquim José Cardoso de Melo Neto, Joaquim Silva, José Ferraz de Campos e Nilo Costa.

Todos eles, como é notório, fizeram brilhante carreira no magistério, vanguardeiros que foram de uma nova classe de professores preliminares.

É bem possível que René Barreto tenha dado conhecimento do Diretor  do interesse com que os seus alunos acompanhavam as minhas aulas, porque uma delas foi honrada com a sua presença. Examinou com interesse visível diversos trabalhos que René Barreto lhe apresentou e, embora  nada dissesse, mostrou-se bem impressionado.

Quando me retirava, fui encontrá-lo no corredor; pôs-se  a conversar comigo em tom de inconfundível bebevolência e encarregou-me de organizar um programa para o ensino de Escrituração Mercantil no 2° ano do curso complementar.

Aquela incumbência era uma prova inequívoca de confiança e constituiu a melhor aprovação do meu ensaio de “livre docente”.

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