PARTE II – Caetano de Campos – José Feliciano de Oliveira escreve para OESP sobre o “Centenário de uma aula na ENC”.

 

 

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(ieccmemorias; José Feliciano; o 2° da esquerda na 3a fileira)

 

JUNHO de 1946

02/06/1946 (OESP)

Reminicências

José Feliciano de Oliveira

Centenário de uma aula normal

           I

(Paris, abril de 1946)

Minha Escola Normal – A Escola Normal da Praça – como suas antecessoras , como a primeira aula de 1846 não persistiu normalmente.

Estiveram todas aquelas escolas sempre sujeitas à reformas  contínuas, fadário que há mais de um século persegue nossa instrução pública. Como dizia o juvenil diretor da “Revista dos Novos”, em 1885; como repetiu em 1887, na “Procellatoria” de Julio Ribeiro, mesmo na famosa “Redenção” de Antonio Bento; como transcreveu na “Revista do Ensino”, em 1907, e na “Educação”, de 1931: “Nisto de transformar a Instrução Pública” – tantíssimas vezes reformada – anda um dispautério… O mal não está nos métodos e programas…  Nem está o bem nos interesses e ideias dos partidos…

Disse então, disse depois, lá e cá– e não me canso de pregar positivamente há uns sessenta anos: o mal está em nossa desarmonia social, em nossa falta de doutrina; nós vivemos sem um “consenso unitivo”, sem uma “tranquilidade de ordem”, como diziam Santo Agostinho e São Tomas de Aquino. Foi uma grande glória do catolicismo instruir geralmente o povo em suas igrejas e escolas, como nunca se fizera antes. Escola, escolatra, escolástica, veio daí; não é só com um excesso de dialética desorganizadora, por demasiado racionalismo.

Daí saiu a melhor organização que na esfera espiritual teve o mundo.  Pena foi, que a doutrina que a estribava, se estagnava ou não progredisse e se deixassem obumbrar(?) , vencer pelos demolidores, que estão longe de valer os homens de fé sincera. Em meu último curso, em Paris, preguei uma remodelação de atitudes espirituais, em prol do bem do ser humano, numa Liga Religiosa, de ensino, de solidariedade social – uma vera democracia temperada, para o povo todo, sem classes degladiantes.

Em 1846, com o meu bom, boníssimo amigo dr. Chaves; e muito menos em 1821, com a precoce iniciativa de Martim Francisco – não podia haver “escola normal” como “escola” e como uma coisa “normal”. Como coisa normal, nem hoje é possível; e por muito tempo não será possível na barafunda que nos envolve.

A Escola Normal apareceu no ensino com a Revolução Francesa, em 1794. Nessa primeira escola, fundada em Paris, os maiores sábios do tempo faziam conferências e cursos, resumindo os progressos da ciência e das artes. Um Lagrange, um Laplace, um Bertholet, um Monge e outros aí expuseram as ciências que lhes  eram mais familiares. As conferências saíram em muitos volumes, hoje raríssimos; tenho a coleção em minha biblioteca de Paris.

Só em 1808, a escola ficou normal para ensinar ciências e línguas e dar “normas” de ensino aos professores: era uma escola superior. Só muito depois se fundaram as escolas normais primárias e secundárias. Esse progresso se repercutiu no Brasil-reino, onde havia homens esclarecidos, como os Andradas, José da Silva Lisboa, José Silvestre Rebelo e alguns outros vindos de além-mar. Daí tentaivas com boa intenção, mas geralmente inexequíveis.

No volume “Atas das Sesssões do Governo Provisório de São Paulo”, 1821-1822, pg 55, vejo que Martim Francisco, na 13ª sessão de 10 de setembro de 1821, apresentou sua “Memória sobre a reforma que reputa necessária nos Estudos da província… para a criação de uma Escola Normal”. Sua Memória deve existir  no Arquivo do Estado de São Paulo e seria   “documento interessante” para ser publicado na coleção que meu saudoso amigo dr. Antonio Piza iniciou e em que consumiu o resto da sua vida; (…)

Não foi por diante a Escola Normal, embora, na mesma “Ata” do governo provisório prometesse “as providências necessárias para a sua criação”.  No ano seguinte, na 94ª sessão de 20 de março, determinou-se “que se pusesse a concurso, na forma do estilo, as cadeiras  vagas dos Estudos menores da Provincia”.(…)

… nomearam os examinadores do concurso: padres-mestres Ildefonso Xavier Ferreira, substituto de Filosofia Racional e Moral e Joaquim José Monteiro, professor-régio de primeiras letras. Na minha infância (1875-80), a escola primária chamava-se ainda Escola-Régia.

Da Universidade ou da Sociedade Econômica não se falou mais, nesse agitado ano de Independência, em que São Paulo teve papel saliente.      Desde o famoso “Fico”, (…)  – coisa que me parece nova, nova  no velho, no dito  ou já redito.

(…) Sobre a Universidade, José Feliciano Fernandes Pinheiro, propôs na Constituinte de 1823, a fundação de uma Universidade em São Paulo. (…)

(…)

Convém notar que essa época, seja o nosso 1846 ou sobretudo os anos anteriores, não eram favoráveis à cultura, às letras, às ciências, nem à fundação de escolas normais e universidades. Depois das agitações do primeiro Império e da Regência, vieram as da Maioridade, com o meio infantil “Quero já” . Houve impensadas ou pouco patrióticas rebeliões.  (…)

Abaixo, o professor Feliciano faz uma longa arenga sobre as possibilidades econômicas do Brasil , tanto para a produção de café, de chá e até do vinho da fazenda Morumby, do carvão, etc.  e termina assim sua crônica:

“Esta nota mostra que em 35 anos  de vida europeia, não me esqueci e não me esqueço dos interesses vitais do meu País. E sem ganhar mais com isso. Muito ao contrário. Vigilância com o nosso café, que influências na Abissínia e alhures poderão embaraçar. “

 

16/06/1946 (OESP)

Centenario de uma aula

II

José Feliciano de Oliveira

Fora do Curso Juridico e de seus anexos, havia nessa década, na cidade de São Paulo e na Provincia, escolas de latim, de retorica e de filosofia racional e logica. Alunos de José Bonifacio e de Martim Francisco ai estavam para ensinar a filosofia de Kant, que ele aprendera na Alemanha e ensinou em São Paulo. Isto além das ciências varias  que eles sabiam propagar com generoso coração, com alma de apostolos verdadeiros. Em São Paulo, um “Gabinete Topografico” ja formava então, engenheiros civis.

Minha terra natal, em 1846, tinha uma cadeira de latim, fundada em 1844. Em 1884(?), em Jundiai, encontrei livros de classe, autores latinos, pertencentes a A. Alberto da Silva Prado e a seu tio barão de Iguape.  Alguns com a data de 1845 em manuscrito. Comprei muitos – como obras de Diderot, primeira edição, e um exemplar da “henriade” – ao habil musico Joaquim Romão da Silva Prado.

Havia jornais, o “Futuro”  (…) e o “Censor”; um dos Liberais, outro dos Saquaremas o chefe do grupo, Visconde de Itaborai- Rodrigo Torres, tinha uma fazenda em Saquarema). (e cita outras “folhas”;  o autor também discorre sobre avisita do Imperador em Santos, aos 18/02/1846)

Relatando a vista de D. Pedro II, José Feliciano continua: “ O Imperador teve ocasião de assistir à defesa de teses na Academia. Neste ano so houve dois candidatos e um so foi doutorado(Eduardo Olimpio Machado) Em outros anos houve quatro, cinco e até dez doutorandos. (…)

No teatro, uma sociedade particular deu uma representação com o concurso dos estudantes, alguns dos quais faziam papeis de dama.

(…)

Era diretor interino da Academia o velho Brotero, que tanto lustro lhe deu com suas lições e suas obras (de Direito Natural, Publico e internaciona). Todos os lentes deviam compor e publicarobras para o ensino de suas cadeiras: so conhecemos a do dr. Brotero.

No resto do pais eram então bem minguadas as produções literarias. Falo pelo que sei de obras que ficaram ou que se encontram em bibliotecas e bibliografias.

*

(…) Antes de partir (para Paris) em 1911, deixei no Rio, na Biblioteca Nacional, algumas preciosidades: livros de 1814, da Imprensa Régia; obras de Vieira e de Garrett, impressas na Bahia em 1838; obras de Santa Teresa, impressas em Lisboa, em 1614; e um belo “fac-simile” da “Carta Magna” ingles (cito de memoria). Na Imprensa Nacional, em 1896, acumuladas misturadamente num quarto, vi muitas obras do Brasil reino e do Brasil Império, que o diretor me prometeu para a minha Escola Normal, onde eu era professor bibliotecario. Pude obter algumas, que se juntaram aos dez mil volumes, com que andei reformando a Biblioteca, graças a dois bons créditos que me confiou o grande presidente, meu querido amigo Bernardino de Campos. Ai deem estar , se as “eruditas traças” não os devoraram. Sera pena porque havia obras dos Andradas, sobre  mineralogia, culturas diversas, etc..

Do tempo que nos interessa agora, tenho aqui um precioso arquivo teatral  de 1842-1845, impresso na Tipografia Villeneuve do “Jornal do comércio”.  Ha obras classicas de Sêneca, Corneille, Racine e de brasileiros, originais e traduções. A Tipografia do “Despertador” , de Torres Homem, em 1840 publicou um precioso volume sobre a “Declaração da Maioridade”, que tenho e que me parece rarissimo.

Em 1846 não havia no meio paulista, e no Brasil, em geral, um verdadeiro movimento lietrario, como se viu depois. Os tempos eram dificeis, contrarios ao cultivo das letras. Depois das incertezas da Maioridade e consequentes agitações, veio , em 1845, , o malfado Bill Aberdeen e o mais que acompanhou esse “abuso de força” , que transtornaram as nossas condições financeiras. Nosso açucar fou foi oprimido com direitos proibitivos. A Holanda, para proteger os seus gêneros coloniais, auxiliou a Inglaterra, nesse esforço para nos obrigar ao renovamento do tratado de 1827, que era ja renovação do de 1810.

Tudo issoe o movimento politico dessa década, mal segurando nossa aula normal, se podem ver nas “Paginas de Historia Constitucional”, de Luiz José de Carvalho Melo e Matos(livro composto através de notas do Imperador) O resultado desses transtornos financeiros se viu logo no barômetro cambial, sempre em mãos britânicas. (…)

*

Em 1846, como seviu, “ o péao para a boca era dificil”. Como poa ser facil o “pão para o espirito”(aspas minhas), quando se sabe que o curso habitual de nossa vida esta sujeito  às irresistiveis e continuas necessidades da vida vegetativa?

Do primeiro, so no ano anterior se abrira em São paulo uma padaria. Todo o pão se fazia em casa, com farinha que, ainda no meu tempo , vinha da Hungria (farinha galega da Galicia).  (isso até 1875-80 – nota minha) (…)

 

Mais tarde, no Brasil, o Ceara inventou uma padaria espiritual… Nem uma , nem outra teriam muita freguesia  ou não fabricavam muito pão…

Houve nesse tempo um misterioso Julio Franck que deu muito que falar, pela sua erudição: em 1840, creio, publicou uma Historia Universal em dois volumes. So a vi uma vez em São Paulo. O Almanaque Lisboa manciona suas lições de “Historia do Brasil”.

(…)

(José Feliciano discorre sobre a Faculdade de Direito, quando anteriormente, em 1846,  o Curso Juridico se chamava Academia de Ciências Sociais e Juridicas. Igualmente tece considerações sobre as predileções culturais do Imperador e o seu périplo por algumas cidades do Estado, Itu, Indaiatuba, Campinas e finalmente Jundiai de onde é originario o autor da crênica)

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