Poeta ama poetas… (Dr. José Renato Nalini)

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16/12/2016

CALAMANDREI, O POETA

Piero Calamandrei é autor muito conhecido por nós, que estudamos Direito e continuamos a aprender a complexidade do universo jurídico. Foi ele quem escreveu o célebre “Elogio aos Juízes”, como ficou mais conhecida sua obra “Eles, os Juízes, vistos por nós, os advogados”. É um texto precioso, citado em mais da metade dos discursos de posse e de despedida na Magistratura brasileira.

Foi ele quem escreveu, por exemplo: “Para encontrar a Justiça, é preciso ser-lhe fiel. Como todas as divindades, só se manifesta àqueles que nela creem”.

Seu respeito pelos juízes é datado: “O juiz possui na verdade, como o mago da fábula, o poder sobre-humano de fazer no mundo do direito as mais monstruosas metamorfoses e de dar às sombras as aparências eternas da verdade”. E tem noção exata sobre a difícil missão de bem recrutar os juízes, tema sobre o qual me debrucei desde o início da Magistratura. Tanto que minha dissertação de Mestrado na USP gerou o livro “Recrutamento e Preparo de Magistrados”. Para Calamandrei, “o Estado considera como essencial o problema da escolha dos juízes. Sabe que lhes confia um poder temível, que mal exercido pode fazer passar por justa a injustiça, constranger a majestade da lei a mudar-se em campeã do mal, e imprimir de maneira indelével, sobre a cândida inocência, a marca sanguinolenta, que para sempre a tornará parecida com o delito”.

Quem gostou, leia o livro de Piero Calamandrei. Contínuas reedições evidenciam que caiu ao gosto do jurista e daquele que almeja sê-lo. Mas eu desconhecia, já no final da caminhada, que também poeta Calamandrei foi. Não teria sido difícil descobri-lo, tanto lirismo exala sua obra mais conhecida. Mas foi Contardo Calligaris, na FSP de 21.4.16, ao escrever “A vergonha e o terror”, que nos brindou com um poema de Piero Calamandrei, escrito para o comandante das forças nazistas de ocupação italiana, Albert Kesselring. Este, ao deixar a prisão, disse que havia sido tão bom para os italianos, que estes deveriam erigir um monumento. Na verdade, foi atendido. O poema de Calamandrei é verdadeiro monumento: “Você o terá, camarada Kesselring/ o monumento que você pede de nós, italianos./ Mas com qual material será construído,/ isso a gente decidirá./ Não será com as pedras chamuscadas/das aldeias que foram supliciadas por teus exterminadores./ Não será com a terra dos cemitérios/onde nossos jovens companheiros/descansam serenos./ Não será com a neve inviolada das montanhas/que durante dois invernos te desafiaram./Não será com a primavera destes vales/que te viram fugir./ Mas será com o silêncio dos torturados,/mais duro que qualquer pedregulho;/será com a rocha deste pacto/jurado entre homens livres/que voluntários se reuniram,/por dignidade e não por ódio,/decididos a redimir a vergonha e o terror do mundo”.

Texto severo, digno de Calamandrei, que foi resistente, escritor e um dos fundadores do Partido de Ação na Itália. E que de certa forma se preocupava com a judicialização excessiva, sinal de enfermidade na sociedade humana. Pois no seu excelente livro, observa: “Na República, de Platão, médicos e juízes são tratados com certa desconfiança, como sintomas reveladoras das doenças, físicas e morais, de que sofrem os cidadãos. Esta afinidade psicológica entre as duas profissões não é hoje menos evidente, principalmente por aquele sentimento de solidariedade, que a experiência do mal alheio, físico ou moral, produz em quem diariamente o estuda e o conforta. Os juízes, como os médicos, apenas veem em seu redor chagas e lepra. Os juízes, como os médicos, respiram durante toda a sua vida um ar viciado, naqueles sombrios hospitais de toda a corrupção humana, que são os tribunais”.

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 16/12/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

calamandrei

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