PARTE II Caetano de Campos – Segunda publicação no OESP de José Feliciano de Oliveira sobre o tema “Centenário de uma aula”.

 

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(ieccmemorias; J. Feliciano; 2a da esquerda na 3a fileira)

16/06/1946 (OESP)

Centenário de uma aula

II

José Feliciano de Oliveira

Fora do Curso Jurídico e de seus anexos, havia nessa década, na cidade de São Paulo e na Província, escolas de latim, de retórica e de filosofia racional e lógica. Alunos de José Bonifácio e de Martim Francisco aí estavam para ensinar a filosofia de Kant, que ele aprendera na Alemanha e ensinou em São Paulo. Isto além das ciências várias  que eles sabiam propagar com generoso coração, com alma de apóstolos verdadeiros. Em São Paulo, um “Gabinete Topográífico” já formava então, engenheiros civis.

Minha terra natal, em 1846, tinha uma cadeira de latim, fundada em 1844. Em 1884(?), em Jundiaí, encontrei livros de classe, autores latinos, pertencentes a A. Alberto da Silva Prado e a seu tio, o Barão de Iguape.  Alguns com a data de 1845 em manuscrito. Comprei muitos – como obras de Diderot, primeira edição, e um exemplar da “henriade” – ao hábil músico Joaquim Romão da Silva Prado.

Havia jornais, o “Futuro”  (…) e o “Censor”; um dos Liberais, outro dos Saquaremas. (o chefe do grupo, Visconde de Itaboraí- Rodrigo Torres, tinha uma fazenda em Saquarema; José Feliciano  cita outras “folhas”;  o autor também discorre sobre a visita do Imperador em Santos, aos 18/02/1846 -nota minha, resumindo.)

Relatando a vista de D. Pedro II, José Feliciano continua: “ O Imperador teve ocasião de assistir à defesa de teses na Academia. Neste ano so houve dois candidatos e um só foi doutorado (Eduardo Olimpio Machado). Em outros anos houve quatro, cinco e até dez doutorandos. (…)

No teatro, uma sociedade particular deu uma representação com o concurso dos estudantes, alguns dos quais faziam papeis de dama.

(…)

Era diretor interino da Academia o velho Brotero, que tanto lustro lhe deu com suas lições e suas obras (de Direito Natural, Público e Internaciona). Todos os lentes deviam compor e publicar obras para o ensino de suas cadeiras: só conhecemos a do dr. Brotero.

No resto do país eram então bem minguadas as produções literárias. Falo pelo que sei de obras que ficaram ou que se encontram em bibliotecas e bibliografias.

                                                              *

(…) Antes de partir (para Paris) em 1911, deixei no Rio, na Biblioteca Nacional, algumas preciosidades: livros de 1814, da Imprensa Régia; obras de Vieira e de Garrett, impressas na Bahia em 1838; obras de Santa Teresa, impressas em Lisboa, em 1614; e um belo “fac-simile” da “Carta Magna” em inglês (cito de memoria). Na Imprensa Nacional, em 1896, acumuladas misturadamente num quarto, vi muitas obras do Brasil reino e do Brasil Império, que o diretor me prometeu para a minha Escola Normal, onde eu era professor bibliotecário. Pude obter algumas, que se juntaram aos dez mil volumes, com que andei reformando a Biblioteca, graças a dois bons créditos que me confiou o grande presidente, meu querido amigo Bernardino de Campos. Aí devem estar, se as “eruditas traças” não os devoraram. Será pena porque havia obras dos Andradas sobre  mineralogia, culturas diversas, etc..

Do tempo que nos interessa agora, tenho aqui um precioso arquivo teatral  de 1842-1845, impresso na Tipografia Villeneuve do “Jornal do Comércio”.  Há obras clássicas de Sêneca, Corneille, Racine e de brasileiros, originais e traduções. A Tipografia do “Despertador”, de Torres Homem, em 1840 publicou um precioso volume sobre a “Declaração da Maioridade”, que tenho e que me parece raríssimo.

Em 1846 não havia no meio paulista, e no Brasil, em geral, um verdadeiro movimento literário, como se viu depois. Os tempos eram difíceis, contrários ao cultivo das letras. Depois das incertezas da Maioridade e consequentes agitações, veio , em 1845, , o malfado Bill Aberdeen e o mais que acompanhou esse “abuso de força” , que transtornaram as nossas condições financeiras. Nosso açúcar  foi oprimido com direitos proibitivos. A Holanda, para proteger os seus gêneros coloniais, auxiliou a Inglaterra, nesse esforço para nos obrigar ao renovamento do tratado de 1827, que era já renovação do de 1810.

Tudo isso e o movimento político dessa década, mal segurando nossa aula normal, se podem ver nas “Páginas de História Constitucional”, de Luiz José de Carvalho Melo e Matos (livro composto através de notas do Imperador). O resultado desses transtornos financeiros se viu logo no barômetro cambial, sempre em mãos britânicas. (…)

                                                             *

Em 1846, como seviu, “ o pão para a boca era dificil”. Como podia ser facil o “pão para o espirito”(aspas minhas), quando se sabe que o curso habitual de nossa vida está sujeito  às irresistíveis e contínuas necessidades da vida vegetativa?

Do primeiro, só no ano anterior se abrira em São Paulo uma padaria. Todo o pão se fazia em casa, com farinha que, ainda no meu tempo, vinha da Hungria (farinha galega da Galícia).  – (isso até 1875-80 – nota minha)

(…)

 

Mais tarde, no Brasil, o Ceará inventou uma padaria espiritual… Nem uma , nem outra teriam muita freguesia  ou não fabricavam muito pão…

Houve nesse tempo um misterioso Júlio Franck que deu muito que falar, pela sua erudição: em 1840, creio, publicou uma Historia Universal em dois volumes. Só a vi uma vez em São Paulo. O Almanaque Lisboa manciona suas lições de “História do Brasil”.

(…)

(José Feliciano discorre sobre a Faculdade de Direito, quando anteriormente, em 1846,  o Curso Jurídico se chamava “Academia de Ciências Sociais e Jurídicas”. Igualmente tece considerações sobre as predileções culturais do Imperador e o seu périplo por algumas cidades do Estado, Itu, Indaiatuba, Campinas e finalmente Jundiaí de onde é originário o autor desta crônica)

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