Nosso colega Renato Castanhari Jr. está de volta!

VAI UM PIRULITO?

por Renato Castanhari Jr.

03-palhacoCarla tinha acordado cedo, como todos os dias. Nem tanto pela necessidade de se preparar para um novo dia de trabalho, talvez mais pela falta de trabalho mesmo e a necessidade de pular fora da cama logo para pensar numa saída. E até mesmo porque não conseguia dormir direito já há algum tempo. Mercado em crise, país afundado numa crise moral, ética, de princípios, além da costumeira crise política e econômica. O cenário geral era péssimo e o consolo de que estava todo mundo passando aperto não ajudava em nada.
Meses já haviam se passado desde que Carla fora demitida do escritório onde trabalhava há anos e nenhuma nova oportunidade formal surgira. Os boletos vencendo toda semana, e ela nem era torcedora da seleção de contas a pagar, não dava para comemorar. A situação era crítica, desesperadora, sua capacidade de pedir ajuda era muito limitada e imaginar que esta ajuda cairia do céu, como milagres pingando acompanhando as gotas das chuvas de verão, era algo que a necessidade não tinha como esperar, nem com toda fé e esperança.
Interessante como um momento como este molda os comportamentos das pessoas. Alguns sabem das dificuldades que um ou outro passam, claro que não na totalidade se essa pessoa não expõe, como Carla, e aí passa a ser melhor não saber ou não procurar saber a fundo, porque se não se sabe, não pesa na consciência não ter ajudado. Na verdade, ninguém tem obrigação de ajudar, o momento está mais para tirar o seu da reta. Mas acaba por provocar um distanciamento estratégico, seguro, conveniente. Carla se sentia assim, isolada, e a busca por soluções parecia não ter fim.
Ela pensava nesse processo todo, na reviravolta que sofreu a sua vida, no caos em que se encontrava, enquanto se maquiava em frente ao espelho do banheiro. Estava produzindo sua máscara de trabalho, uma solução amarga que pingou num dia de chuva. Depois de acionar os amigos, a família, pela necessidade de emprego, sem sucesso, depois de tentar uma colocação como vendedora de alguma loja de comércio nesta época de natal, a saída foi pedir “trocados” no semáforo em troca de um pirulito. A figura do palhaço vendendo pirulito quando os carros param no sinal vermelho é mais leve do que a do simples pedinte. E a maquiagem das margaridas em volta dos olhos, das grandes bochechas rosas, do nariz vermelho, serviam de camuflagem para o seu ego combalido, dilacerado. Não era ela, era um personagem fazendo o papel de vendedor, que troca centavos pelo pirulito e sua dignidade. O personagem não tinha feito faculdade nem mestrado, o personagem fazia o papel de bobo da corte e ainda ajudaria dificultando o reconhecimento da atriz.
A que ponto você chegou, Carla, meu Deus! Se ainda estivesse com o carro, ia trabalhar de Uber, O Paulo, que já foi diretor de rádio, está se dando super bem, tirando uma boa grana todo dia, mas você vendeu o carro… – Pensava Carla enquanto dava os últimos toques de pincel.
Maquiagem finalizada, uma lágrima insistente tentou estragar o serviço, mas ela impediu de forma imediata. A peruca rosa fechou o disfarce.
E lá estava ela, bolsa rosa atravessada no peito, sobre o ombro, sorriso forçado, pirulitos na mão pedindo o que não conseguia pedir de rosto lavado. Muitos e muitos nãos, alguns poucos centavos em troca, sob o sol de um verão feroz.
Foi quando parou o Honda vermelho no farol. Carla abordou o motorista e seu coração quase pulou do peito, o susto foi grande, mas sua reação imediata.
-Vai um pirulito?
– Nossa, estou indo para uma festa de criança, perfeito. Me dá todos que você tem na mão, vou levar, cinquenta paga?
– Opa, claro!
Carla viu o carro sair já com lágrimas nos olhos.
Será que ele me reconheceu? Será? Acho que não, não, tomara que não…
O motorista do Honda vermelhou acompanhou pelo retrovisor Carla enxugar as lágrimas, colocou os pirulitos sobre o banco do passageiro.
Carla, Carla… preciso ver isso. – Pensou o motorista enquanto avançava na avenida.

 
Renato Castanhari Jr. | 16/12/2016 às 12:05 pm | Categorias: CRÔNICAS/CONTOS | URL: http://wp.me/p1GYYg-sa
Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s