Nosso professor CASAGRANDE

CASAGRANDE

wilma schiesari-legris

Casagrande é um nome que lembra casa e grande, quase uma alcunha é; apesar de não ter sido sua aluna pelo fato dele se ocupar das classes masculinas, pude conhecê-lo ao ir diariamente ao pátio da direita da Escola; era ali que se engajavam as últimas partidas de basquete ou de volley ball  e os namoricos proibidos.

A quadra tinha número contado de jogadores, deixando parte dos garotos sentados ou encostados na mureta que separa o subsolo do térreo.

Naquela época as meninas do ginasial e do  normal  frequentavam as aulas da tarde e era claro que elas não podiam ter contatos informais com os meninos adolescentes do período matutino.

Essa questão hormono-sentimental era resolvida durante as aulas de educação física ministradas pelo professor Casagrande.

Sempre de camiseta e apito pendurado no pescoço, ele se ocupava do andamento das partidas, enquanto nós fazíamos um inocente flirt com os rapazes da plateia.

_ Saque  forte Takeschi !

_ Vai firme Mickel !

_ Pegue a bola Sérgio !

A seleção dos participantes diretos se dava através da escolha dos mais hábeis e velozes, dos altos e positivamente agressivos.

Na plateia ficavam os sedutores : Régis Eduardo de terno e gravata que iria trabalhar à tarde nos Diários Associados e que virou radialista de futebol na Jovem Pan, Raulzinho que trocava elogios com o Sandro sobre as meninas, o Sandro que passava seu anel nos anulares femininos, a filha do professor Nobreza que tinha carta branca para conversar com os alunos do seu pai, um « oi » aqui, um « tudo bem » ali e as relações de namoro se faziam não às escondidas, mas longe da percepção das orientadoras Toni e  Guiomar, ou das inspetoras  de classe como a dona Moralina, Zezé ou Chiquinha… que viam no grupo apenas os torcedores dos colegas que suavam a camisa na quadra.

Rodízio dos times, um Dulcora ou um Dantop para dar mais energia, passava de mão em mão; Casagrande bebia água e apitava para recomeçar a partida, agora no segundo tempo.

Além das competições que treinavam os melhores para encontros interescolares, Casagrande também ajudava os meninos no quesito saúde, masculinidade ou físico sedutor: fazia-os  pular a sela no Cheval d’Arçon, puxar corda em filas opostas, usar barras paralelas ou fixas, se atardarem nas argolas,

Lá no porão havia uma sala fechada a chave com todo o material de ginástica que fôra utilizado pelos alunos da Escola Normal da Capital desde 1908, quando ali reinava o professor Baragiola; tudo impecavelmente conservado em perfeito estado de uso, importado da Europa, sim senhor !

Era um antiquíssimo e ao mesmo tempo moderníssimo conjunto  de objetos e aparelhos destinados à ginástica de solo e de altura,  com uso intenso desde aquela época em que havia um verdadeiro Ginásio de Esportes atrás do prédio principal e que dava em frente do Pavilhão do Jardim de Infância todo de ferro forjado e vidro.

Naquele antro digno da caverna de Ali-Babá jaziam os tesouros que eram  tocados pelos alunos da fanfarra e estandartes da Escola que os ginastas empunhavam nas comemorações cívicas e competições.

Os ensaios eram fixados num dia da semana, após as aulas do período vespertino até a entrada dos alunos do período noturno, para que os assistentes das demais classes não fossem incomodados.

Naquele tempo era possível que os alunos deixassem a escola depois do anoitecer para irem a pé ou de ônibus para suas residências, sem problema algum de agressão, roubo ou violência nas ruas adjacentes…

O professor Casagrande estava sempre ali, seguro  das ordens que dava, orientando a moçada na atitude do corpo, no desenrolar da marcha, na posição dos instrumentos, no afinamento dos metais, no ritmo da bateria, caixas, tambores, bumbos, no silvo das cornetas e dos sons de sopro…

Os menores iam à frente, geralmente tocando as caixas a toque-de-caixa, enquanto os maiores iam atrás num desfile marcial desde o primeiro ensaio formal.

Não sei se ganhamos, empatamos ou perdemos algumas das competições, mas ganhamos confiança, empatamos na amizade e perdemos o medo.

A derradeira perda foi na semana passada, quando o professor Casagrande, velhinho, velhinho, partiu desta terra cheia de atletas e jogos, sonhando, quiçá, que Deus lhe dera a apitada de adeus; uma apitada final.

Casagrande homero 63

 

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