PARTE II – Caetano de Campos – Acrônica IV de José Feliciano de Oliveira, publicada no jornal OESP em novembro de 1946.

NOVEMBRO de 1946    – 

José Feliciano de Oliveira, que se formou pela ENC e ensinou na EN Capital, a futura “Caetano de Campos”, publicou no jornal OESP uma grande crônica, a III, sobre Luiz Gama (imagem); por não se tratar de um membro de nossa escola, segue apenas a crônica IV.

Mundo Educação    Luiz Gama não chegou a ver a abolição dos escravos, pois morreu em 1882

Ao lerem esta crônica vocês hão de encontrar um magnífico conteúdo sociológico sobre São Paulo intramuros do século XIX, antes da sua afrancesação através das obras públicas e das construções de Ramos de Azevedo sob o comando de Paula Souza, época em que somente contava  a população branca.

Tinha a cidade 14.000 almas, com abundância de pretos e “mestiços indiscutíveis”.

Notar que o diretor da Escola Normal, o dr. Chaves, era praticamente membro da família da mãe de José Feliciano, depois subordinado àquele diretor quando aluno e, depois, professor.

 

Muitos dos personagens enumerados nesta crônica, como ele, também saíram da nossa Escola Normal.

Boa leitura;

wilma.

23/12/2016.

(José Feliciano diante da sua casa em SP-ieccmemorias) Afficher l'image d'origine

03/11/1946 (OESP)

Centenário de uma aula normal

 IV

José Feliciano de Oliveira*

Para terminar, tratarei mais especialmente do diretor da primeira aula normal em miniatura,  de 1846. Segundo o livro “Um Retrospecto”, do distinto professor João Lourenço Rodrigues, a primeira turma de estudantes normalistas de 1847 era de 19.

Não sei se todos se formaram nesse ano. Seria coisa de espantar mestres severos. Aliás, esse ano houve no parlamento um caso que me parece único e só devido ao homem eminente que o mereceu: Antono Pereira Rebouças (foto), por lei de 4 de setembro de 1947  quando “foi igualado aos bacharéis  e doutores formados na Academia, podendo advogar em todo Império”. Era um privilégio merecido. No caso da nossa Escola, não podia haver decretos, mas havia a dedicação e bondade do professor.

   in: Jornal de Ontem, Hoje e Sempre                    Afficher l'image d'origine

Parece averiguado que se formaram então os três que citei noutro artigo. Todos os tres demonstraram na sua vida que mereciam essa rápida formatura. Veiga Cabral dirigiu um jornal independente, jornal reputado, sobretudo com a colaboração fina e inteligente de José Folizardo, hoje esquecido. Os tres artigos que escrevi então, denunciando manejos de governo, a fim de me eliminar do concurso, serviram para impedir essa injustiça. Teria eu mesmo resultado em nossos tempos?

Antonio Augusto da Fonseca deixou descendência que  honrou nosso país nas letras e nas artes. E Laurindo de Brito subiu muito na política e teve o mérito de restabelecer a nossa escola…

Mas é principalmente do Dr. Manuel Chaves  que me proponho a falar agora, terminando essa série de artigos reminiscentes. A ele subjetivamente me ligam recordações de família e muita gratidão pelo bem que fez à minha mãe e ao meu pai.

O assunto é de “Memórias” e eu estou na idade de fazê-las francamente. Seria íntimo há uns sessenta anos atrás.  Cem anos passados, já é de História que se trata, embora o caso seja mínimo.

Como positivista, vivendo às claras(mas não às escâncaras), a fim de viver para outrem, isto é, para a família, a Pátria e a Humanidade – prefiro aproveitar esta ocasião de culto histórico para honrar um exemplar sacerdote. No magistério, não deixou memórias nem cronista para lembrar seu sacerdócio, – o que Paulo do Vale, seu contemporâneo e amigo, preconizava no discurso que citei.  O que exponho agora pode arrodar cronistas de reminiscências mas…

*

A família de minha mãe era amiga da família do Dr. Chaves e este era em tudo consultado nas graves questões domésticas. Minha mãe, ainda mocinha, era amiga íntima da senhora do Dr. Chaves. Morava na Freguesia do Ó , tendo sido mimosamente criada por sua avó. Sua mãe so tinha a autoridade, que nem sempre é a da ternura, – como Augusto Comte demonstrou, tratando de instinto materno como “l’amour des produits”, – um apego comum à produção própria, como se vê até nos autores literários.

 

(Manoel Chaves – ALSP)
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Em 1846, ou pouco antes, minha mãe (nascida em 1824), vinha da Freguesia do Ó visitar sua “camarada”, a senhora do Dr. Chaves (Sinhara?). E, dizia-me mamãe – levava horas e horas em conversas “fiadas” ou confiadas, recitando quadrinhas próprias ou populares, de que tenho algumas recitadas por minha mãe, já velha. Amigas companheiras, ou como dizia mamãe, “camaradas” de ambas, havia a senhora do Dr. Gabriel Rodrigues dos Santos e a do velho Falcão. (o que conheci em 1864 era o Falcãozinho, ambos Clemente). Reunidas esqueciam o mundo, o tempo; e ausentando-se, era um sem fim  de despedidas  comoventes, a prometer notícias breves e novas visitas para logo.

Hoje, a Freguesia do Ó – mesmo no interior, na Fazenda do Sítio Grande  (Fazenda de cana de minha mãe),  é ali, com poucos cinco minutos de viagem. Em 1940-46, era uma viagem: era preciso levantar cedo.(…) E não se podia voltar no mesmo dia.

Martim Francisco Filho (nosso caro Martinzinho) pinta o São Paulo desse tempo, à margem de um manuscrito que encontrou nos papeis …do coronel Joaquim Floriano de Toledo. Teria a Capital 14.000 almas, com abundância de pretos e “mestiços indiscutíveis”.

Poucos estrangeiros e quase todos portugueses. Os largos de São Bento, Carmo e Ladeira eram o fim da cidade e o começo dos arrabaldes; nestes, raras vezes as casas alinhavam-se por completo.

Fora da cidade, só a Consolação, caminho para Itu e Campinas, “revelava alguns traços de vida própria”. “Junto à ponte do Lorena ( nome do governador que a mandaria construir por subscrição popular, em fins do século XVIII – )… ocupava a preeminência comercial o alemão Loeke(Loeskel?) sério e ativo, cujas filhas eram geralmente notadas , uma pela gagueira , outra pela beleza”. O nome Lorena passou a ser Piques, dizem, por causa de um morador “rico, faustoso e esmolar”…

Adiante do Largo da Memória, nota Martinzinho, a casa de Lúcio Boticário: “ era o orgulho da gente da Consolação. Apontavam-no como  emula da do coronel Rafael Tobias na rua Alegre, do da marquesa de Santos, na atual rua do Carmo, da do Cadete Santos, ja então o homem mais rico de São Paulo.

                                                               *

Sinto não ter tomado nota em conversas íntimas  com minha mãe.

Muita coisa ouvi sobre esse chibante e opulento Cadete Santos, sobre suas prosas nas Cavalhadas e torneios… Muito ouvi sobre Rafael Tobias, sobre a Marquesa de Santos, sobre muitos lentes da Academia, alguns dos quais conheci depois (Mamede, Falcãozinho, Dutra e Justino, com quem tratei, como já disse , numa audaciosa tentativa minha, a traduzir o famoso “Tratado” de Savigny). O Dr. Chaves, segundo me parece, morou sempre num sobrado da rua do Carmo (N° 13?), onde em 1896-98 aluguei a grande sala para o centro Positivista. Aí fiz conferências e dois cursos completos de Positivismo, -umas 40 lições. (…)

A bondade do Dr. Chaves era proverbial. Seu aspecto, em 1884-85, quando o vi de perto e o visitei, refletia uma alma tranquila, porajante de bondade. Sua fisionomia , todo o seu rosto parecia ressair em expansões bondosas , para se aproximar da gente com emoção e nos acolher com toda a ternura de seu coração. (…)

Para a minha mãe, foi ele paternal, – foi sacerdote, bispo, quase Papa, que a desligou de um malfadado vínculo com que aos treze, catorze anos, a tinham acorrentado a um tio maduro, para ligar à família um bom patrimônio seu, – uma fazenda de cana onde fabricava açúcar, e a famosa caninha do Ó” (…)

Rio Postal  Afficher l'image d'origine

Com carta ou bula sua a seu grande amigo Antonio de Queiroz Teles (Barão de Jundiaí), minha mãe partiu com meu pai para Jundiaí, onde ele tinha casas de negócios, de “secos e molhados”.

Aí, sob as abas desse outro “vir probus”, possivelmente de caráter sacertdotal, fundaram o que foi o meu respeitável lar educativo: e aí viveram largos anos(…)

 

*aos 78 anos de idade, em Paris.

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