Yara Camillo – Lindo texto!

NAUFRÁGIO

                            Yara Camillo*

 (Jadin Mathieu)                                 

No princípio foi a onda gigantesca, o resvalar da morte, agonia sem glória.

Depois, quando já se conformava com o fim, o alívio: terra à vista, terra ao alcance dos pés, a ilha. Por arrecifes caminhou sobre as águas, transpondo numa eternidade a distância que o separava da praia.

Fez-se tarde e noite. Foi o primeiro dia.

Acordou com o fogo inclemente do sol que se espelhava no paredão rochoso, cegando de relance os olhos que ali se atrevessem mirar.

Louco de dor, chorou mares e caiu por terra, braços e pernas abertos, como uma estrela ou um novo crucifixo. Muito depois abriu os olhos para o céu escancarado em azuis e separou suas águas, lágrimas, das águas outras do mar.

Fez-se tarde e noitinha.

A maré grande o assaltou enquanto dormia.

– Maré cheia, preamar seis e meia – resmungou, atarantado de sono, enquanto corria para a terra mais firme. Pisou a areia com força, ensaiou um desafio para as águas que ali não podiam alcançá-lo, riu, deixou-se cair sobre o lençol de folhagens rasteiras e a noite o cobriu de vez.

Na breve morte, o sono, recebeu indiferente a luz da primeira estrela.

Acordou com a folia de pássaros que baixavam da falésia à praia, colhendo frutos deixados pela maré. Divisou nas águas transparentes um cardume fazendo evoluções e pensou que faltava alguém, talvez o primeiro homem na Terra, para presidir aquele quadro.

Afogou a imagem num mergulho, voltou à praia, fez um gesto como se consultasse um relógio, sentou-se num velho tronco adornado de conchas, adornado de Tempo.

Deteve os pensamentos. Buscou outras sintonias. Deixou-se estar.

Espera, acalanto de milagres, miragem de cores se alongando no horizonte.

Cadê o Tempo, que não vinha?

Temeu enlouquecer, quis reagir, xingou em linguagem de prece, desfiou um rosário de maldições, sentiu-se o rei dos desgraçados. Inaceitou ao máximo a sorte que ali o lançava.

Fez-se tarde e noite. Noite na ilha, noite na alma, noite por todos os cantos.

A manhã seguinte encontrou-o diferente. O horror, transcendido, conjurava outro despertar.

Acordou querendo o novo, a coragem maior da rendição.

Teria?

Cedeu, relutante, ainda conjeturando amargamente sobre perdas e danos. Esperou pelo fel, pelo horror maior… Que não veio. Não veio no instante seguinte, nem em todo o santo dia seguinte.

Surpreso, pressentiu uma infinitude nunca dantes navegada.

Jogou fora a tabuinha onde marcava a passagem dos dias, a vaga esperança de retorno.

Acontecia, enfim, o que tanto temia: tinha perdido as referências.

Em vez de livre, estava vencido.

Julgou que morria de novo e que esse novo não teria volta.

Então, desde o fim veio outro princípio e, nesse princípio, um verbo.

Criou um céu e uma terra, ordenou as trevas como contraponto da luz, jogou com dualidades, noite-dia, brilho-escuridão, firmamento e solo de ervas e bichos, águas povoadas de peixes e répteis, ares povoados de pássaros; um sol, uma lua, um cortejo de estrelas.

E viu que tudo isso era bom.

E quase morreu de rir, antes de uma nova onda de choro. Estava se acostumando a vagar entre os extremos, a romper ou afrontar distâncias, subvertendo contrários e tangências.

No sétimo dia, como descanso, bebeu um resto de aguardente. Por conta do fogo, poesia ou graça, tomou nas mãos um punhado de areia, encharcou-a, forjando o barro do paraíso. E assim como quem não quer nada, ou tudo, esculpiu um caranguejo a quem batizou de Adão.

Fez-se tarde e noite e manhã.

Com Adão, às vezes arriscava um repente, meio que disfarçando uma prece:

– Adão, tenha dó ou gratidão, não deixe que a solidão ponha esta alma pra dormir.

Nessas horas, para distraí-lo, Adão movia-se como um pêndulo, executando uma curiosa pantomima enquanto exibia o desenho, garatujas que trazia na carapaça.

Invocado como qualquer bêbado que se preze, ele resmungava:

– Eu escrevi isso? Não me lembro…

E então pensava que talvez existissem outros náufragos, outros deuses, por aí, criando e recriando mundos, reinventando seu Adão… Por amor ao próprio amor, a todos os nomes do Afeto, da Arte, da Utopia, e também para atenuar, um pouco, a solidão. Mas os deuses… os deuses são tão meninos, engendram mundos, se cansam. Só nos resta recriá-los à nossa imagem e semelhança: Flor de Lótus, Canjerê, Kyrie, Tupã, Jesus, Javé, Ganesha nos guiem pelo caminho das pedras até o segredo da Luz.

* Yara Camillo, escritora, fez parte do TIMOL (Teatro Infantil Monteiro Lobato) onde participaram muitos caetanistas.

 

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