A Escola Primária Neutralidade serviu de modelo à nova Escola Normal da Capital

O ieccmemorias já tinha feito uma correlação entre os proprietários do jornal “A província de São Paulo”, mais trade tornado “O  Estado de São Paulo” e suas atuações na esfera política como republicanos e positivistas.

Além de terem  ideias e ideais ligados ao positivismo podendo expressá-las através do seu próprio jornal, eram pessoas com meios financeiros suficientes (provindos da economia cafeeira) para extrapolar o domínio da imprensa e criar empresas que tivessem relação com o seu modo de pensar.

É sabido que a Escola Normal de São Paulo no seu início,  desembocou em sítios inóspitos e desadaptados ao ensino quando o Barão de Suruí entregou a Manoel Chaves o encargo de dirigir a escola que tinha apenas um professor – ele –e que era fisicamente apenas uma sala alugada ao pé da antiga Sé, ou, mais tarde, nu local da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, quando em 1875 houve a reabertura do Ensino Normal de São Paulo.

Aliás, a ENC foi levada a sério a partir de 1875 e pôde evoluir até o momento em que, na rua da Boa Morte, atual do Carmo, pode dar-se ao luxo de se instalar num sobradão, onde também funcionou uma escola-modelo criada para pregar às crianças os ensinamentos que recebiam os normalistas, desde o antigo período imperial.

OK! Mas precisou chegar a efervecência da República e as novas ideias importadas da França e dos Estados Unidos, para que alguns intelectuais pudessem aplicá-las diretamente naquela que lhes seria a representante da escola ideal, republicana e laica.

Antes que a ENC pudesse se desabrochar como o modelo da escola formadora de professores primários  e de alunos do ensino de base, os mesmos elementos que escreviam para o jornal  “A província de São Paulo, criaram em 1884 a “Escola da Neutralidade”, em São Paulo.

Fundaram-na o empresário e propagandista republicano Silva Jardim e o pedagogo João Kopke.

Aderiram ao corpo docente, Caetano de Campos, Rangel Pestana , Basílio Machado, Alberto de Campos(Sales), entre outros (sempre os mesmos!) .

A Escola era considerada laica e promovia uma série de conferências  para informar ao seu público (igualmente leitor do jornal) tudo o que se fazia de mais progressista em termos de Educação nos países adiantados; leia-se França e Estados Unidos – que não à toa já lidavam com a Escola Americana, dirigida mais tarde por Horace Lane.

Ora: Horace Lane e os membros da Escola da Neutralidade de São Paulo (assim como a “Escola Culto às Ciências”, de Campinas) estavam na crista da onda pela propagação das ideis de Froebell e de Pestalozzi e no uso de materiais didáticos inovadores.

Quando Prudente de Moraes, então presidente da Província de São Paulo,  quis marcar sua passagem pelo governo pela reforma do ensino Normal, ofereceu a tarefa de estabelecer os objetivos pedagógicos de ponta ao dr. Caetano de Campos, que não se inibiu ao pedir auxílio a Horace Lane e uma de suas professoras, Miss Browne, como ao jornalista e deputado Gabriel Prestes.

O Governo de São Paulo, pelas mãos de Prudente de Moraes, entrava com o terreno no Largo dos Curros onde antes da Proclamação de 1889 pensava-se em construir a nova catedral e, de lambugem, dava carta branca aos mentores do projeto, todos republicanos de carteirinha.

Não somente eles tiveram o terreno, como obtiveram a realização do projeto de Paula Souza e Ramos de Azevedo, executado com a  rápida edifiacação do palácio tronado na Praça da República, antigo Largo dos Curros.

São Paulo era provinciana, não contava com muitos habitantes; suas construções, geralmente de taipa, eram desgraciosas, pois desalinhadas, sem plano diretor inicial. O “palácio”, em questão, viera com o aspecto europeu da arquitetura neoclácica praticada em Paris!

O governo de São Paulo iria pagar muito bem diretores, orientadores, professores – catedráticos ou não – desde que os mesmos estivessem na crista da onda dos novos métodos pedagógicos e das novas técnicas da didática.

Podemos então concluir que os elementos que fundaram, administraram e ensinaram na Escola da Neutralidade, assim que seus acólitas e parentes diplomados na Europa, Estados Unidos ou nas Faculades de Direito ou de Medicina, ou simplesmente aos cuidados de preceptores estrangeiros,  formaram a matriz da ENC desde o final do seu enderço na rua da Boa Morte, até a mudança para a Praça da República.

Vejamos como funcionava a Escola da Neutralidade, através da transcrição de um artigo do jornal OESP no final do 1° ano de vida daquele  Estabelecimento:

 1885

26/06/1885 (OESP)

 Escola Primária Neutralidade

Perante resumido auditório, lembrou-se terça-feira esta escola o 1° aniversário de sua instalação oficial.

Orou o dr. Caetano de Campos*, que, declarando-se menos competente para fazer o histórico da instituição, asseverou que o podia, entretanto, deduzir com toda a isenção de espírito, e que a certeza disso lhe dera forças para a tarefa, de que foi incumbido e que de boa vontade aceitou como um dos membros do corpo docente que, naquela  escola, trabalha pela regeneração do ensino no nosso país.

Lançando, a traços largos, judiciosas considerações sobre a educação, considerada sob o seu aspecto físico, intelectual, moral e estético demonstrou, apelando para os fatos, que todos podem observar pelo exame da escola, em como os princípios científicos modernos são aí sinceramente postos em prática. Tornou, sobretudo, bem sensível como o diretor tem feito timbre em desenvolver, a par dos outros, a moral e a estética, comprovando o seu acerto com a invocação de fatos da vida da instituição no período historiado.

Passando ao exame das principais ocorrência, que se deram no 2° Semestre do ano próximo findo e no 1° deste ano, acompanhando cada uma delas com considerações  tendentes a mostrar a sua razão de ser e as vantagens, aliás, nas partes expostas no relatório do ano passado.

Foram abertas no princípio do corrente, a 7 de janeiro, as aulas masculinas e, conjuntamente, as femininas, para que possam as futuras mães munir-se de uma educação, capaz de lhes dar a faculdade de representarem na família, em toda a sua plenitude, o papel que lhes incumbe.

Aos 20 foi celebrado o 1° aniversário da fundação da escola, , correndo alegre a festa entre os risos das crianças e os seus cantos de júbilo. A 7 de março, o dr. Jardim, por conveniências particulares, pediu exoneração do cargo de diretor, conservando-se como professor das cadeiras que lhes foram distribuídas.

Aos 8 foram abolidos os castigos corporais, medida muito moralisadora e conveniente, porque, quando mesmo não se possa distinguir entre a autoridade paterna e a do educador para suprimir essa pena, que Quintiliano e Sêneca já condenavam, pelo menos fica de pé a afirmação de que é muito difícil saber onde para a exacerbação da ira e começa a justiça do juiz.

Aos 14 foram abolidas as festas pelos aniversários natalícios dos professores, ficando a espontaneidade dos alunos as provas de veneração, aí sujeitas ao regulamento oficial, marcadas como dias festivos as grandes datas históricas, cuja comeoração pode contribuir para despertar o patriotismo.

Na mesma data foram estabelecidas as conferências pedagógicas do corrente ano, tendo-se verificado parte delas, e sendo preletores os doutores Rangel Pestana, Alberto Salles, Caetano de Campos, Antonio Carlos e o diretor.

Aos 24, pelas férias da Semana Santa, foram resolvidas as modificações do prédio, tendentes a adequá-lo ao seu fim, e que se executaram.

O dia 17 foi do luto para a Escola. O dr. Silva Jardim, professor emerito nos métodos modernos de ensino, deixou as cadeiras que ainda ocupava e cuja direção havia sido posta à prova nos exames do ano findo.

Aos  11 de maio, atenta à pequena frequência da aula feminina e a impossibilidade de recrutar pessoal docente capaz de executar o programa da instituição, tornou-se facultativa às alunas matriculadas a frequência à (classe) masculina.

Aos 14 foi celebrada a festa da Zizi, filha do diretor, concorrendo a reunião os alunos, que tomaram parte numa pequena soirée.

Aos  23, por uma destas irradiações que a escola tem para com a coletividade, foi iniciada por proposta do diretor aos alunos normalistas, a criação de uma aula coral, de adultos, que atualmente funciona no estabelecimento, sob a direção do professor G. Wertheimer.

Aos 31 teve lugar a festa mais comovente, que a escola tem presenciado, por ocasião da despedida dos alunos Carlos, D. Arminia e d. Adelaide Ralstor, os quais, bem satisfeitos devem ter seguido viagem, acompanhados como foram, pelas saudades dos camaradas e mestres, que se traduziram francamente pelos soluços e prantos dessa noite.

No ano próximo findo, retiraram-se da escola 4 alunos, e no corrente 2°, estão matriculados 53 e 6 meninas.

Terminou o orador a sua exposição dirigindo-se aos alunos e mostrando-lhes que mais tarde, quando a grande pátria, aquela que pode até exigir o sacrifício da nossa própria vida, apelar para os seus serviços hão de ter eles, apagado sim, mas ainda percebíveis na penumbra de um passado remoto, os vultos daqueles que hoje se esforçam por dar-lhes uma educação digna dos tempos, em que foram chamados a viver.

As pessoas presentes saudaram o orador ao descer da tribuna, aplaudindo vivamente a sua eloquência repassada de singeleza, verdade e convicção.

Na mesma ocasião foi aberta a exposição de trabalhos de desenho da aula do professor Roso Lagoa, a qual continua aberta até domingo, sendo a entrada permitida a quem quer que se interesse pela marcha do ensino entre nós.

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(Valentim Magalhães e Silva Jardim in: http://arquitetarartes.blogspot.fr/2016/07/silva-jardim-antonio_)

 

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