Olhares.

por Renato Castanhari Jr.

2017-olhar

– Ela é muito bonita, gostosa mesmo. E além disso, competente.
– Biscate, Maurão, adora uma suruba.
– Para com isso, e se gosta, problema dela. Você fala baseado em quê?
– Todo mundo sabe, já correu fotos com um grupo de amigas dela, todas peladas se enroscando, uma delícia.
– Bom eu não vi isso. Você viu as fotos?
– Não. Mas conheço gente que garante que viu.
– Como eu disse, problema dela. Ou delas.
– Pessoal, dá uma olhada nessa que está chegando agora.
– Onde?
– Do seu lado esquerdo, vira devagarinho.
A conversa no boteco estava como sempre, animada, regada a cerveja, pastéis e olhares, muitos olhares. Claro, recheada de pitacos sobre a vida alheia, a melhor parte.
Vivemos tempos duros, acelerados e as línguas de cada um se movimentam nesse ritmo, afiadas e cortantes. O que era íntimo, virou público, com as redes sociais, as pessoas se expõem mais do que o aconselhável. E o que seria um espaço virtual para relacionamentos à distância, resgates de amizades, contatos de familiares separados pela lonjura física, virou também uma arena, uma roda viva, onde todos vomitam opiniões não solicitadas, revelam suas carências, apontam o dedo nos mais diferentes assuntos, defendem suas posições, trocam mensagens de carinho, escárnio e solidariedade, tudo junto e misturado.
– Viu que mataram mais um?
– Mataram? Foi acidente de avião.
– Acidente? bom. E os dos outros, do Eduardo Campos, do JK, também foram acidentes. E se o seu dente cair, coloca debaixo do travesseiro que a fadinha do dente te visita à noite.
– Lá vem você com sua Teoria da conspiração.
– Boa essa!
– Boa aquela!
– Onde?
– Do seu lado direito. Nossa! Gostosa!
Os olhares andam duros, críticos, cruéis. Ninguém escapa. E são postados nas arenas virtuais sem checagem, sem dó nem piedade, ou verbalizados nas mesas de bares, regado a cerveja, pastéis e olhares. Desde sobre o político que se acha que levou propina, à socialite que se acha que fez todo tipo de plástica. Ou a estudante que dormiu com dez na viagem de formatura em Porto Seguro.
Um olhar que julga e condena sem apelação. Como se o seu modo de olhar a vida devesse ser o padrão adotado por todos. O político corrupto é bandido, a estudante que dormiu com vários é bandida. Um feriu a ética e provocou prejuízo aos cofres públicos, desviou verbas sociais: crime. A outra se divertiu dentro da vontade dela naquele momento, não prejudicou ninguém, uma opção dela de curtir a vida: qual o crime?
Tempos duros, acelerados, de línguas afiadas. Tempo de dar um tempo aos nossos olhos, e tentar se colocar na posição dos olhos do outro alguém. Tempo de baixar a guarda, sem baixar o olhar.
– Silvinho, você conhece o Lucas, que dizem que casou com a Lucinha num arranjo, mas não gosta da fruta?
– Viado!

 
Renato Castanhari Jr. | 20/01/2017 às 11:22 am | Categorias: CRÔNICAS/CONTOS | URL: http://wp.me/s1GYYg-olhares
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