A “preguiça” do Carlinhos, do Renato, a sua…

 

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(Renato Castanhari Jr, caetanista e escritor.)

Domingo de manhã, céu nublado, vontade de fazer nada, ansiedade me pedindo para caminhar, gastar energia, olhar pro nada. Resolvi fazer isso no bosque, um meio zoo, super arborizado, natureza, trilhas. Fone de ouvido ligado no celular, respirando fundo, aspirando aquele aroma de terra molhada, havia chovido a noite toda. Olhos fechados, mente esvaziando, quando abro vejo uma preguiça pendurada no galho da árvore que está dentro de um cercado. Viro para o lado, o Carlinhos, parado, estático, de olho na preguiça.
– Olha quem eu encontro neste dia, cheio de preguiça, admirando a própria!!!
– Fala, meu amigo.
– Tudo bem? Pergunto intrigado com o tom de voz do Carlinhos. Um cara elétrico desde que nasceu, ativo, bem sucedido, safo, otimista. Aquele tom não combinava com ele. Não, com o Carlinhos não.
– Médio. Estou com ela no corpo, na mente, na alma.
Só olhei, apertei os lábios, franzi a testa e fiquei na espera, o Carlinhos ia discursar, era praxe.
Nada. Ele voltou a olhar para a preguiça e ficou como eu o encontrei, estático.
– Não vai se explicar? Só isso? Sem reflexões, discurso?
– Preguiça.
– Eu sei, tá escrito na placa, é uma preguiça.
– É.
– E…
– Preguiça, cara.
– Sim, com certeza.
Ele tirou os olhos da preguiça e me encarou, olho no olho.
– Preguiça. Preguiça da vida, de acordar, levantar, dirigir.
Preguiça de argumentar, de ouvir bobagem de volta. Preguiça.
Preguiça de acelerar sem sair do lugar, preguiça de andar em círculos, preguiça de seguir, de voltar. Preguiça de cliente, de ser ciente, paciente. Preguiça de fazer e não acontecer.
Preguiça de só ver bandido e bandidagem. Preguiça de ver quem já devia estar preso de fora. Preguiça de ver quem ainda defende bandido. Preguiça de nada mudar, de tentar mudar e não adiantar.
Preguiça de fazer a barba sabendo que ela vai voltar.
Preguiça de ver merda nova com as velhas moscas em volta. E novas moscas fazendo a mesma merda. Preguiça.
Preguiça de gente. Preguiça de tente.
Preguiça de muro pichado, grafitado, de gente em cima do muro.
Preguiça de radicalismo, de extremismo, de estrelismo. Preguiça de topete.
Preguiça de ter que falar a mesma coisa para a mesma pessoa várias vezes e saber que não será a última.
Preguiça de se reinventar, de se superar, de nadar e nadar e nadar. E nada. Nada de novo.
Preguiça.
Confesso que fiquei com medo. Olhei para o Carlinhos e não parecia mais o Carlinhos. Ele jamais teria preguiça. Não, o Carlinhos não.
Ele voltou a olhar para a preguiça. Eu fiz o mesmo e comecei a pensar se também não estava com preguiça de algumas coisas. Era mesmo um domingo cheio de preguiça.

 
Renato Castanhari Jr. | 27/01/2017 às 6:00 am | Categorias: CRÔNICAS/CONTOS | URL: http://wp.me/s1GYYg-preguica
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2 respostas para A “preguiça” do Carlinhos, do Renato, a sua…

  1. Na década de 50 , havia preguiças na Praça da República. Saia do Jardim de Inf. da Caetano e minha mãe me levava a vê-las nas árvores
    .

  2. Tudo mudou na Praça!
    Se vc anda lendo o blog pôde verificar que havia muita coisa feita no anfiteatro da nossa escola a partir das 20h ou mesmo mais tarde; nos anos 40 e 50 não havia nenhum problema andar pela praça à noite; enquanto hoje…
    grande beijo, wilma

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