Irregularidades na Escola Normal da Capital continuaram pelo I.E. Caetano de Campos.

Queridos leitores;

Depois de imaginar que havia retirado TUDO do Acervo do Estadão sobre o Instituto de Educação Caetano de Campos, percebi que entrando outras palavras-chave para busca de informações, o resultado é bem maior.

Por isso recomecei a minha pesquisa e onde, por muitas ocasiões havia anotado no post Parte II que não houvera nada encontrado em tal ou tal mes sobre a nossa Escola, tento completar o quadro.

Pouco a pouco reestabeleço o real conteúdo daquelas páginas e, no final, quando tudo estiver “nos trinques” publicarei para vocês o resultado.

 Nessa faina descobri certas irregularidades dentro do contexto da Escola Normal.

Explico:

Voltando ao acervo desde a primeira edição do jornal  “O Estado de São Paulo”, que em 1875 se chamava “ A Província de São Paulo » até janeiro de 1890, quando mudou de nome devido à Proclamação da República, constato cada vez mais seriamente que o jornal e a Escola Normal se tornaram « um » desde o golpe do Marechal Deodoro da Fonseca.

Antes, porém, os seus proprietários,  redatores e acólitas, principalmente na pluma e na pessoa de Rangel Pestana(proprietário do jornal, proprietário de escolas e depois membro do 1° governo do Estado), utilisaram suas cinco colunas também para falar de « instrução pública »; a experiência no ramo Rangel trazia de casa; com sua esposa já havia criado uma escola para moças no Rio de Janeiro e frequentou com ela, antes e depois do advento da República, os verdadeiros empresários do ensino privado, os proprietários de escolas que deram certo : o Colégio dos Andrade de Maria Guilhermina Loureiro, do Rio; a Escola da Neutralidade, de João Kopke; o estabelecimento campineiro Culto à Ciência, obra de positivistas ferrenhos; o Colégio Morton, além da casa de ensino do casal Cyridião Buarque; e por aí vai.

Na “proto-história” da Escola Normal de São Paulo, lemos que até 1875, aquela casa de ensino funcionou, vai que vai, com muita precariedade tanto dos locais, como do quadro diretor e pedagógico, que às vezes se resumia a uma única autoridade, com ensino discutível àqueles que deveriam abraçar a carreira do magistério que, como critério de entrada, deveriam apenas saber ler, escrever e contar e serem do sexo masculino.

Entre aberturas, fechamento e a reabertura em 1875, sob a direção de Francisco Aurélio de Souza Carvalho, notei que a Escola Normal  privilegiou a entrada de rapazes de boas famílias paulistas e paulistanas, pois cerca de 1/3 dos matriculados tinham algum parentesco com os reformuladores daquela Escola, que por sinal acabaram por administrá-la.

Quanto às  irregularidades, já podemos citar o próprio exame de cátedra para reger a 1a e a 2a únicas cadeiras da ENC, onde um presunçoso figurão da advocacia da praça paulistana, que fez parte do grupo de reorganização da ENC e que  era professor da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, dr. Paulo Antonio do Valle , destacou-se pela marmelada que envolveu sua participação no concurso de entrada, tendo a banca preterido o bacharel Francisco Mendes de Paiva, que além de ter brilhado por escrito e no exame oral, teve de se defender escrevendo ao presidente da Província, João Theodoro Xavier.

O concorrente prejudicado publicou a carta no jornal APSP, provocando , em uma semana, uma modificação no processo de entrada na ENC: por ordem do governo provincial o  agraciado  teria de escolher entre lecionar na ENC ou na Faculdade de Direito.

Na ocasião era diretor da Escola e Inspetor Geral do Ensino Público, o dr. Francisco Aurélio de Souza Carvalho e, numa segunda gaffe quis, por razões pessoais,  humilhar um aluno  que passava o exame oral  e negar-lhe o diploma com a menção « aprovado plenamente » , em vez de « simplismente » , barrando-lhe uma carreira que se tornaria brilhante contra a decisão dos demais examinadores.

O escândalo daquele contrôle oral, feito na presença do público e votado às secretas, fez o professor Melchior Boa-Morte Trindade, que lecionava na 1a cadeira, ir-se embora da Escola, batendo-lhe a porta e criando muitas notícias abaixo-assinadas para os jornais de São Paulo, Correio Paulistano e A Província de São Paulo denunciando as marmeladas amargas.

Vejam outro caso:

25/01/1876 (APSP)

“Um admirador” escreve ao jornal para se queixar da corrupção no Estado e , depois de citar diversos casos nomeando os envolvidos, continua :

« O professor chefe da Normal acumula empregos de várias categorias, contra a lei, só porque o patronato da parte dos chefes regula o exercício dos ofícios em certas determinadas horas.

A assembleia geral aumenta os ordenados para que os professores exerçam o magistério com proficiência: as aulas  são combinadas de tal modo que o pensamento da lei fica completamente burlado…

Um pede que se marque a hora da sua aula às 8 da manhã porque tem que ir para a instrução Pública a tantas horas; outro às 10 porque vai para a Sé cantarolar.

Outros para as 12 porque das 10 em diante vão servir ao espírito santo e fazer cotas sobre a fiscalização provincial.

A lei é burlada porque a proteção suplanta o interesse público !

“O sr.dr. Sebastião José Pereira ignora estas cousas ? «

 

O professor da 2a cadeira, que recebeu o dinheiro referente às matrículas dos alunos da 1a turma da escola reformada em 1875, demorou nove meses para restituir o mesmo à direção da escola e passou por vexame com o que sobre ele foi publicado no jornal OESP!

29/03/1878 APSP

Assembleia provincial

Em 2a. é aprovado o 72 (art.), equiparando os ordenados dos professors de primeras letras anexos à Escola Normal aos dos professores da Escola.

(…)

Entra em 2a o 73, que dispensa um peticionário da frequência da Escola Normal dando-lhe as vantagens.

O sr. Fonseca continua a protestar.

O sr. Valladão oferece uma emenda semelhante em favor de outro candidato às vantagens normalistas.

Votados por escrutínio secreto o projeto e a emenda são aprovados.

Nota: no dia 31/03/1878, o jornal APSP traz os nomes dos privilegiados: Velloso e Servo Bomfim.

Agora, atenção!

31/03/1898 APSP

Normalices da Assembleia

“O sr. Fuão, aprovado “simplesmente” no curso da Escola Normal, fica com direito à todas as vantagens que a lei concede aos alunos provados “plenamente”.”

Outro pedacinho de ouro:

“O sr. Fuão, embora néao tenha frequentado o curso da Escola Normal, embora não tenha feito os exames, fica com diretito a ser professor com todas as vantagens dos alunos da Escola”.

Não é legislar, isso.  É fazer com as mãos e desmanchar com os pés.

Também data dessa época o aumento espetacular do salário que seria outorgado aos professores-alunos e bachareis de direito que receberiam o certificado de conclusão do curso de dois anos da Escola Normal da Capital: antes os professores de classes isoladas obtinham menos de 80$000 réis e com a reforma da ENC passarariam a ter salários muito maiores.

Evidentemente, que de 1890 em diante, aqueles que realizaram a grande modificação do ensino normal em SP ( e por consequência, no Brasil) eram republicanos, positivistas, representantes do povo nas assembléias legislativas e futuros presidentes da república, jornalistas, familiares e amigos dos primeiros e, evidentemente, mesmo com toda a convicção que tinham sobre a democracia e a necessidade de instruir  « o  povo », fizeram parte da « panelinha » que escolheu, dirigiu, ensinou e aprendeu, na ENC, pouco antes dela se mudar à Praça e sobretudo quando para ali se mudou…

Justamente, pouco antes da mudança de enderço da ENC os salários do corpo docente e administrativo eram consideráveis : Maria Guilhermina Loureiro, havia pedido 500$000 réis para ir do Rio de Janeiro a São Paulo; Miss Browne teve ordenados ainda mais altos como  professora estrangeira  remanejada do Colégio Americano para  prestar serviços ao Estado e, portanto, foi  paga diretamente pelo Governo de S. Paulo.

Gabriel Prestes, que substituiu Caetano de Campos na direção da Escola, preferiu ganhar como diretor que como deputado que era.

O livro « Crime e Castigo na Escola Caetano de Campos », desenvolve o caso de uma candidata apadrinhada por um figurão da Secretaria da Educação que, menos preparada que a concorrente e sem os requisitos de idade  e outras irregularidades mais , participou do  exame aberto de ingresso ao magistério no salão nobre da Escola Normal da Praça, onde concorria à cadeira de francês e deu uma rasteira na candidata favorita da banca examinadora… que ficou reprovada.

O livro também narra  o escândalo do romance extraconjugal do professor René Barreto com uma normalista da ENC e a enormidade do resultado do julgamento que ambos sofreram diante dos tribunais de S. Paulo!

Esposa, cunhada e filhos do professor René eram donos de cadeiras importantes; Arnaldo Barreto, um dos irmãos  do professor René chegou a ser Diretor da Instrução do Estado e também foi diretor da ENC.

 Outro professor- desta vez da cadeira de desenho- também foi inquerido por sedução de alunas no começo do século XX; saiu abonado depois de processo interno na Escola, feito por Oscar Thompson que requereu  depoimentos isolados de todas as alunas do Normal.

Curiosidade, publicada neste bolg, sobre irregularidade nos anos 30 na ENC:

10/05/1931(OESP)

De 9:100$000 contos!

“Aposentado o antigo lente da extinta cadeira de alemão da ENC, o sr. dr. Virgílio de Rezende. (Nota minha: o lente teve apenas um aluno na única turma onde lecionou, da época em que a ENC tinha se mudado para a Praça; nunca aquele professor deixou de receber seus salários durante todo aquele tempo de inação, sem ministrar aula nenhuma nem ser remanejado para outras funções)”

 Adhemar de Barros criou uma nova denominação para a Escola Normal para poder afastar “de leve” o diretor – Francisco Cimino, sem a qualificação que o novo posto requeriria –  e ganhou um lugar comissionado especialmente criado para ele na Secretaria da Educação.

Razão: o diretor estava envolvido na troca de favores o professor Vieira de Malo, que sem ter concorrido através de  licitação para dirigir a cantina da Escola, tirava dali grandes lucros! O caso rendeu muitas reportagens do jornal OESP e finalmente o veredicto saiu do Ministério da Educação, na Capital Federal, que exigiu o afastamento de ambos da Escola Caetano de Campos.

Dona Maria Medeiros, diretora administrativa nos anos 40, 50 e 60 respondeu um processo interno da Escola do qual saiu incólume, provando boa-fé, depois que os professores Afifi Fonseca Jabali, Antenor Aquino, Hernani Rodrigues, José Bueno de Azevedo Filho, Mario Calazans e Nelson Carmelo Marzu, expulsos do estabelecimento, por  alterarem as notas de certos alunos nos exames de admissão, com a colaboração de Nair de Barros. Ainda não descobri se o faziam gratuitamente ou se cobravam algo!

Independentemente da boa qualidade de ensino que ofereceram aos alunos do IECC, duas das irmãs Leme, ambas admitidas ao mesmo tempo, reinaram na escola; o seu cunhado era Lucas Garcez…

O que dizer das irregularidades na Escola  durante a era militar e pós-militar?

Diretores linha-dura atuando na escola; professores e alunos perseguidos; inversão de matriculados dando-se preferência aos filhos de militares, nomeação de um diretor que deveria fazer o trabalho sujo de acabar com o Instituto de Educação Caetano de Campos, sob as ordens do Secretário da Educação  José Bonifácio Coutinho Nogueira…

Sem contar a tentativa de demolir o prédio para favorecer a especulação imobiliária que iria construir um arranha-céu “daqueles” onde se encontrava o IECC para colocar a estação do metrô no subsolo!

Abraços investigadores,

wilma

06/02/2017.

 

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4 respostas para Irregularidades na Escola Normal da Capital continuaram pelo I.E. Caetano de Campos.

  1. luiza maria soares disse:

    Tudo sempre igual….. Parabéns pela pesquisa e pela coragem em olhar o reverso da medalha…

  2. Maria Cecília Thomazi disse:

    Wilma, adorei a investigação. Infelizmente, sempre, desde Pedro Álvares Cabral, sempre houve corrupção neste Brasil. Mas que sorte a nossa! Não tínhamos costas quentes, nem tios militares e, simples descendentes de imigrantes, tivemos a honra de estudar nessa maravilhosa escola. Beijos.

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