IV (c) – Briga de galo na Escola Normal entre o dr. Francisco Aurelio e o dr. Melchiades da Boa-Morte Trigueiro.

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Osvaldo Aires Bade – EducaOK

24/12/1876. APSP

A Escola Normal e o dr. Francisco Aurelio (sem acento)

Ainda está vivamente gravado na memória de todos o fato que anteontem se deu entre o dr. Francisco Aurelio e o dr. Melchiades, quando se procedia ao julgamento dos primeiros exames dos normalistas do primeiro ano.

Muito antes de começarem estes trabalhos o digno professor da primeira cadeira , seguindo todos os ditames da consciência, apresentou ao dr. Francisco Aurelio as notas de seus alunos, notas que abonavam ou desbonavam, conforme as contas de aula tinham sido boas ou más.  Isto posto, pediu o  dr. Melchiort  que seus discípulos fossem julgados com justiça. O inspetor da instrução (e diretor da EN – nota minha) aprovou a proposta , (…) tendo o professor feito retirarem-se os alunos que não julgava aptos para serem examinados.

Eis que começa a primeira banca. O inspetor embirra com Corrêa Dias e resolve lançar-lhe, com toda frescura, uma bola preta. O dr. Melchiades, fundado na justiça e na promessa do dr. Francisco Aurelio, protesta contra a “simplificação” (aspas minhas) de tal aluno, que, por forma alguma podia ser aceita, atendendo-se às boas notas do examinando.

Perdeu-se a nova votação. O mesmo resultado. Lá apareceu a bola preta.

À vista disso, o dr. Melchiades, que não é automato nem oiseau volant de ninguém despediu-se em latim, tomando o chapéu e dando-lhe as costas.

Ficaram suspensos os exames. Mas tais voltas deram as costas que o inspetor obteve licença do presidente (dizem) para julgar do julgamento suspenso !

E tudo saiu à medida dos seus desejos :  « simplificados » – 2 ; plenificados , 2 e reprovados, 2 !

E o Corrêa foi « simplificado » ao lado dos reprovados que mereciam « plenamente » !

Louvamos  e acatamos o caráter do homem, que não se dobra a imposições, nem ao vil interesse pecuniário, posto que pobre e dependendo do governo !

Reprovamos, com todas as vênias da alma, o procedimento daquele que advoga sempre a causa do mal pelo mal..

Agora com o sr. inspector:

-V.S. não desconfia que é também professor?

– V.S. não desconfia que chegou a tal estado de pobreza que se viu obrigado a ir dar lições em Santos, duas vezes por semana, para ganhar cem mil réis ?

– V.S. não desconfia que a sua impunidade pode ser paga com usura ?

– V.S. não não sabe  que tem igualmente família numerosa, que sofrerá de V. S. descer do poleiro ?

E como V.S.  reprova a torto e a direito tirando o pão de famílias inteiras?

A lei que rege a EN já é dura por si ! –nega proteção aos alunos  « simplificados »  e tira a cadeira dos reprovados. (…)

Sr ; dr. Francisco Aurelio, acima de V.S.  está o presidente, está a lei.

(…)

Assina : Vox populi.

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NOTA: – Tentando  explicar: provavelmente a frequência em classe do aluno-mestre foi prejudicada pelo fato dele ir trabalhar como professor de primeiras letras em Santos, duas vezes por semana; tentem imaginar o tempo gasto na viagem de ida-e-volta; o preço da mesma; o fato  de Antonio Corrêa Dias não ter abandonado os seus alunos sem substituto como ocorreu com outros alunos-mestres que frequentaram a EN; o fato dele ser pobre e ter que se submeter a esse sacrifício durante as aulas da EN e mesmo assim apresentar resultados excelentes nas provas mensais.

27/11/1876 (APSP)

É exata a notícia de A província (de São Paulo -do 22/12/76 – nota minha)

O Inspetor geral da Instrução Pública

“Pelo respeito que devo à imprensa e ao público, cumpro um dever imperioso rectificando a notícia publicada no dia 22 deste mes, sem dúvida  levada pelas informações inexatas recebidas a respeito da suspensão dos julgamentos dos exames na Escola Normal.

Concluídas no dia 20, as provas orais  dos alunos que constituiam a primeira turma de examinandos, passou a comissão examinadora a julgar os exames sem que houvesse precedido qualquer combinação acerca do merecimento das provas.

Julgado por escrutínio secreto o exame do primeiro aluno da turma, e verificado o resultado da votação, declarou-se imediatamente o sr. Melchiades da Boa-Morte Trigueiro, que não concordava com o resultado daquele julgamento e, protestando  não assinar a ata, retirou-se da sala dos exames sem que houvesse dado conhecimento aos outros examinadores das notas, que tinha à respeito do examinado, cujo exame já estava julgado.

Eu e o sr. dr. Americo Ferreira de Abreu mantivemos o julgamento terminado e foram suspensos os dos outros exames, para que o ocorrido fosse levado ao conhecimento do exmo. Governo, que tinha de prover no caso na forma da lei.”

(…)

Assina  Francisco Aurelio de Souza Carvalho.

                    https://antoniozai.files.wordpress.com/2012/06/mafalda.jpg?w=640Blog do Ozaí – WordPress.com

E

“Cópia da ata dos exames do primeiro ano da Escola Normal, aos 20 de dezembro de 1876, às 9 horas, na  sala da Faculdade de Direito onde funcionou o 1° ano da Escola Normal, reunida a comissão examinadora composta do dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho, inspetor geral da instrução Pública desta província e diretor  da Escola Normal, e os doutores :

Melchiades da Boa-Morte Trigueiro, professor da 1a cadeira daquela escola ; Americo Ferreira de Abreu, professor da 2a cadeira e, presentes, os seis alunos :

Antonio Corrêa Dias (o aluno prejudicado)

Antonio Ezequiel de Camargo

Carlos Joaquim dos Reis

Felismino Vieira Cordeiro

Genesio Brasilio Rodrigues e

João Barreto de Castro,

que ontem haviam feito a prova escrita, foram sucessivamente examinados em provas orais, havendo o primeiro tirado o ponto 8° (…)

Findas essas provas e estando a comissão  funcionando em ala secreta, depois de examinadas e classificadas as provas escritas e consultadas as competentes notas tomadas durante as provas orais,  procedeu-se ao julgamento por escrutínio secreto, sujeito a ele o primeiro aluno, Antonio Corrêa Dias, foi aprovado “simplesmentes”. Com este resultado não quis conformar-se o examinador, dr. Melchiades  da Boa-Morte Trigueiro e, declarando que não mais fazia  parte da comissão, retitou-se protestando não assinar a ata.

Estando julgado o primeiro aluno e assim acreditando os outros membros da comissão que, antes de prosseguirem, se deveria consultar.

Ao excelentíssimo governo, suspendeu-se o julgamento dos outros examinadores e às 14 horas e meia deu-se por findos os trabalhos desse dia.”

Para constar, (…)

Assina o secretário Francisco Pimenta Gomes.

E

(resumo)

“Um seu assinante” escreveu sobre a publicação de um ofício da presidência ao inspetor  geral da Instrução Pública ( e diretor da EN – nota minha) acusando o recebimento  por um inspetor, da quantia de 780$000 dos cofres provinciais relativios às matrículas dos alunos da Escola Normal, verificadas 9 meses antes daquela data.   Pela negligência, o  comentarista sugere a destituição do diretor daquela instituição.

29/12/1876. (APSP)

(pg 1 e pg. 2)

Resposta ao artigo do Inspetor Geral da instrução Pública:

(…)

« É exata a notícia de A Província  em todos os pontos, exceto (…)  – ilegível;

É verdade que houve combinação prévia entre os membros da comissão  examinadora, no sentido  de basear-se o julgamento dos meus discípulos nas provas do ano (…)

(…) ilegível –

Examinando a primeira turma do primeiro ano, procedeu-se ao julgamento do primeiro examinado dessa turma, Antonio Corrêa Dias.

Verificada a votação, viu-se que foi a “simplificado” este aluno. Protestei contra essa “simplificação” ponderando que este moço tendo  (…) lições durante o ano, tinha jus à aprovação plena, tanto mais que eu esperava que os meus colegas seriam fiéis à combinação feita na véspera. »

A votação foi reconduzida e verificando-se os mesmos resultados, tomei o meu chapéu e ia-me retirando quando o inspetor geral perguntou a razão por que me retirava.  Sustei meus passos  e então travei  com o inspetor geral, uma discussão que durou cerca de dez minutos. Queria eu fazer valer os meus argumentos em favor do aluno « simplificado » ao passo que o inspetor queria convencer-me de que o seu voto era  de consciência e que não podia admitir imposição de minha parte.  Afinal, disse-me o inspetor geral que eu devia refletir no ato que praticava, ato que ele ia levar ao conhecimento do exmo. Governo.  A isto respondi que pouco me importava  com o exmo. Governo, de quem não era escravo, e que pactuar com injustiças daquela ordem, eu preferia a minha demissão.

O dr. Americo foi fiel à promessa que havia feito de aderir às minhas informações votando a favor do aluno « simplificado » e, conservou-se neutro na discussão.

(…) ilegível.

Assina Melchiades da Boa-Morte Trigueiro.

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E

Instrução Pública

Carta ao sr. Redator, confirmando ter lido no jornal que o tesoureiro sr. dr. José Luciano da Silva Barbosa recebeu a quantia de 240$000 réis (não seriam 740$000? – nota minha) do sr. Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho.

(resumo)

  • autor da carta diz ter sido prejudicado diretamente durante dois anos pelo mesmo senhor e rebate que tendo as matrículas sido feitas há 9 meses e respeitando os regulamentos, os pagamentos das mesmas,  feitos à vista, deveriam ter sido entregues na tesouraria de há muito.
  • O resto do texto encontra-se ilegível,

Assina Gabriel Franzen.

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