Texto de Drummond de Andrade. Blá-blá-blá que deu pano pra manga!

Dois dos nossos leitores, Lilian (com « n ») e Marlom ( com « m”) deram às caras com o festival de expressões do arco da velha que o Drummond botou nessas tretas, pura conversa fiada ; mas que gostosura o linguajar do bardo!

Na moita, Marlon perguntou-nos o significado de « ir ao corte » e de « voltar aos penates ».

Num triz, Lilian identificou-nos o texto a que se referia o Marlom e imediatamente pude vasculhar no ieccmemorias e, sem mais tardar,  pus-me a destrinchá-lo novamente.

Caracas ! Quem não for do tempo dos afonsinhos vai levar um século pra matar a charada !

Dou-lhes duas dicas : quando uma palavra lhe deixa em condição de otário, vá ao dicionário !

Quando o dicionário nos dá uma definição complicada pra xuxu, não pendure as chuteiras e ponha os miolos da caixola pra funcionar.

Assim : « ira o corte »,  é o mesmo que cortar ? Cortar o quê ?

O pai dos burros disse-me o seguinte  à respeito dessa expressão : ir ao corte é o mesmo que dar um gole ; portanto corta-se a sede.

Quanto ao termo « voltar aos penates », refere-se aos deuses domésticos aos quais os antigos romanos confiavam a guarda dos mantimentos, chega-se à conclusão que se trata do lugar onde vive o Deus Lar …. Daí a expressão « Lar, doce Lar… »

Morou ?

Apenas para você ter uma ideia, para ser pernóstica e pleonástica, aqui na França essa expressão é exatamente a mesminha : “Reganer ses pénates !”

Viu que moleza?

Amplexos cordiais,

wilma.

07/03/2017.

 

 

Antigamente

Carlos Drummond de Andrade(*)

Drummond autocaricatura

Drummond
autocaricatura

Antigamente, os pirralhos dobravam a língua diante dos pais, e se um se esquecia de arear os dentes antes de cair nos braços de Morfeu, era capaz de entrar no couro. Não devia também se esquecer de lavar os pés, sem tugir nem mugir. Nada de bater na cacunda do padrinho, nem de debicar os mais velhos, pois levava tunda. Ainda cedinho, aguava as plantas, ia ao corte e logo voltava aos penates. Não ficava mangando na rua nem escapulia do mestre, mesmo que não entendesse patavina da instrução moral e cívica. O verdadeiro smart calçava botina de botões para comparecer todo liró ao copo-d’água, se bem que no convescote apenas lambiscasse, para evitar flatos. Os bilontras é que eram um precipício, jogando com pau de dois bicos, pelo que carecia muita cautela e caldo de galinha. O melhor era pôr as barbas de molho diante de treteiro de topete: depois de fintar e engambelar os coiós, e antes que se pusesse tudo em pratos limpos, ele abria o arco.

 

O diacho eram os filhos da Candinha: quem somava a candongas acabava na rua da amargura, lá encontrando, encafifada, muita gente na embira, que não tinha nem para matar o bicho; por exemplo, o mão-de-defunto.

Bom era ter as costas quentes, dar as cartas com a faca e o queijo na mão; melhor ainda, ter uma caixinha de pós de perlimpimpim, pois isso evitava de levar a lata, ficar na pindaíba ou espichar a canela antes que Deus fosse servido. Qualquer um acabava enjerizado se lhe chegavam a urtiga no nariz, ou se o faziam de gato-sapato. Mas que regalo, receber de graça, no dia-de-reis, um capado! Ganhar vidro de cheiro marca barbante, isso não: a mocinha dava o cavaco. Às vezes, sem tirte nem guarte, aparecia o doutor pomada, todo cheio de nove horas; ia-se ver, debaixo de tanta farofa era um doutor da mula ruça, um pé-rapado, que espiga! E a moçoila, que começava a nutrir xodó por ele, que estava mesmo de rabicho, caía das nuvens. Quem queria lá fazer papel pança? Daí se perder as estribeiras por uma tutaméia, um alcaide que o caixeiro nos impingia, dando de pinga um cascão de goiabada.

Em compensação, viver não era sangria desatada, e até o Chico vir de baixo vosmecê podia provar uma abrideira que era o suco, ficando na chuva mesmo com bom tempo. Não sendo pexote, e soltando arame, que vida supimpa a do degas! Macacos me mordam se estou pregando peta. E os tipos que havia: o pau-para-toda-obra, o vira-casaca (este cuspia no prato em que comera), o testa-de-ferro, o sabe-com-quem-está falando, o sangue-de-barata, o Dr. Fiado que morreu ontem, o zé-povinho, o biltre, o peralvilho, o salta-pocinhas, o alferes, a polaca, o passador de nota falsa, o mequetrefe, o safardana, o maria-vai-com-as-outras… Depois de mil peripécias, assim ou assado, todo mundo acabava mesmo batendo com o rabo na cerca, ou, simplesmente, a bota, sem saber como descalçá-la.

Mas até aí morreu Neves, e não foi no Dia de São Nunca de Tarde: foi vítima de pertinaz enfermidade que zombou de todos os recursos da ciência, e acreditam que a família nem sequer botou fumo no chapéu?

Você compreendeu tudo?

Apenas o primeiro parágrafo foi utilizado na prova de português que o ENEM distribuiu em 2012.

Evidentemente que  fazer passar o texto em gíria (ou de palavras do arco da velha) levaria a consequências catastróficas em termos de notas.

Preferiu-se o uso do quadro abaixo para poder induzir o candidato à resposta da questão contida na prova,  na letra E.

Expressão Significado
Cair nos braços de Morfeu =Dormir
Debicar =Zombar, ridicularizar
Tunda= Surra
Mangar =Escarnecer, caçoar
Tugir= Murmurar
Liró= Bem-vestido
Copo d‘água =Lanche oferecido pelos amigos
Convescote= Piquenique
Bilontra= Velhaco
Treteiro de topete =Tratante atrevido
Abrir o arco =Fugir
FIORIN, J. L. As línguas mudam. In: Revista Língua Portuguesa, no 24, out. 2007 (adaptado)

Na leitura do fragmento do texto Antigamente constata-se, pelo emprego de palavras obsoletas, que itens lexicais outrora produtivos não mais o são no português brasileiro atual. Esse fenômeno revela que
A) a língua portuguesa de antigamente carecia de termos para se referir a fatos e coisas do cotidiano.
B) o português brasileiro se constitui evitando a ampliação do léxico proveniente do português europeu.
C) a heterogeneidade do português leva a uma estabilidade do seu léxico no eixo temporal.
D) o português brasileiro apoia-se no léxico inglês para ser reconhecido como língua independente.
E) o léxico do português representa uma realidade linguística variável e diversificada.

in: http://veja.abril.com.br/educacao/slider-questoes-enem/graficos/pdf/questoes-108.pdf

Como achei o texto relativamente complicado, andei à busca de tudo que me pareceu estranho; foi supimpa! Da pontinha!

Candongas= 1) Pessoas mexeriqueiras, pessoa que mexe em tudo, revira tudo.
Uma pessoa que pula daqui, pela dali, revira, remexe, pode-se conderar uma pessoa mexeriqueira.

2) Esconderijo

Encafifada= Envergonhada; eu pensava que fosse” interrogativa”.

Na embira=em dificuldade

Matar o bicho=Dar uma golada de cachaça; depois de ler lembrei-me bem!

O mão-de-defunto= Avaro

Levar na lata=Levar na cara

Fazer  de gato-sapato=Humilhar(vem de “sopata”=O gato ‘sob a pata’ ficaria, depois, “sopata”; conhecia a expressão, o Pompeo de Toledo explicou certa vez, mas  havia esquecido.

Dar o cavaco= Zangar-se

Tirte =ou tir-te é forma apocopada do imperativo tira-te, que significa retira-te ou arreda-te. Guarte ou guar-te é forma apocopada de guarda-te, que significa defende-te, protege-te.
A redução da frase, tornando-a mais opaca, elimina também o verbo dicendi que deveria estar presente na frase original: sem (dizer: re) tir (a-) te nem guar(da-)te.

Doutor pomada=Cheio de nove horas

Doutores da mula ruça=indivíduos que não possuem um título ou um diploma

Farofa=Bajulação

Que espiga!=Que contratempo!

Fazer papel pança=Cometer atos ridículos

Tuta-e-meia=”tutameia”=quase nada mais metade=ninharia.

Alcaide= Alcoviteiro

De pinga=De graça(por dedução)

Um suco=Uma maravilha(penso eu)

Ser pexote=Ser ridicularizado(como mau jogador)

Arame=Dinheiro

Degas=pessoa importante

Pregar peta=mentir(essa eu também conhecia, mas…)

Biltre=Libertino, velhaco.

Peralvilho= Atrevido

Salta-pocinhas= Indivíduo afetado, que anda a passo miúdo, como aos saltinhos

Mequetrefe,safardana= Embusteiro

Botou fumo no chapéu=deduzi que é vestir-se de luto.

Agora:

Seria interessante se alguém quisesse transcrever esse mesmo texto com a gíria atual; fica a sugestão!

*José Horta Manzano, caetanista, colaborador do Correio Braziliense, publicou esse texto no seu blog, BrasilDeLonge

 

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2 respostas para Texto de Drummond de Andrade. Blá-blá-blá que deu pano pra manga!

  1. Lilian Lopes disse:

    Olá, Wilma!
    Agradeço imensamente pela resposta endereçada a mim e a Marlom e comento que claro, busquei antes nos dicionários e outras referências de linguagem da época!
    Por isso, creio que “corte” aqui, se refere a namorar ou sair para paquerar – que encontrei em dicionário mais antigo aqui de casa e em outras referências literárias – logo depois de questioná-la, pois estava ávida para compreender a expressão.
    Me parece o contexto não aceita “matar a sede”….
    Confere???
    Gratidão!

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