Dalton Sala, nosso colega, convida vocês a uma bela exposição!

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CARTOGRAFIAS AFETIVAS

É notável como alguns daqueles que se estabelecem em um país estrangeiro desenvolvem uma curiosidade e um carinho pelo seu novo lugar, superando os nativos que lá nasceram e não se dão conta das maravilhas que os envolvem, a não ser em termos de ufanismo.

É o caso de Isabelle Ribot, nascida na França, mais precisamente na cidade de Livarot, Normandia, e que escolheu a cidade de São Paulo, mais precisamente a Avenida São Luiz, logo ao lado da Praça da República, como seu lugar.

(Entre Livarot e São Paulo temos cerca de dez mil quilômetros em linha reta: uma andorinha europeia, deslocando-se à velocidade média de 50 quilômetros por hora, leva 200 horas, ou cerca de oito dias e meio, para fazer o percurso. Não temos dados suficientes para quaisquer afirmações sobre andorinhas africanas.)

A curiosidade se manifestou nas andanças, o carinho em vontade de contar o que viu e o que aprendeu vivendo, conversando e realizando uma série de entrevistas nas cercanias, através de uma pesquisa dirigida a seus vizinhos.

Tudo isto resultou em um mapa do centro da cidade de São Paulo: uma cartografia afetiva.

Para que serve um mapa? De uma maneira geral, um mapa descreve um território, estando sempre inerente a intenção de servir como guia para a movimentação neste mesmo território. Mas existem mapas e mapas.

Jorge Luiz Borges conta em um conto curto, pouco mais de uma dezena de linhas, a história de um país onde a cartografia era razão de estado e os cartógrafos se esforçavam, por rigor da ciência, em desenhar um mapa que coincidisse ponto por ponto com a realidade cartografada: “um Mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele.

Menos Afeitas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos.”

E os Mapas do Tesouro? Long John Silver, Indiana Jones, Corto Maltese: mapas que fazem sonhar…

A Cartografia Afetiva de Isabelle atende a estas prioridades: descreve um território, orienta a quem pretende percorrê-lo, estimula sonhos e aventuras. E também conta aos paulistanos um pouco daquilo que desconhecem e que ela descobriu.

A verdade é que São Paulo, a Grande São Paulo como é difusamente denominada, é realmente muito grande e conhecê-la não é fácil, para não dizer quase impossível.

E assim, como os autores de historias de piratas nos contam sobre ilhas e fantasias distantes, Isabelle traz para a turma de Vila Madalena algumas narrativas da vida do Centro e da vida no Centro, colocando nas cercanias do já internacionalmente famoso Beco do Batman – nas fronteiras de Vila Madalena – um episódio de suas Cartografias Afetivas.

(Entre o Beco do Batman e a Praça da República temos cerca de cinco mil metros em linha reta: uma andorinha europeia, deslocando-se à velocidade média de 50 quilômetros por hora, leva cerca de quatro minutos e um pouquinho mais para fazer o percurso; entre o Beco do Batman e Katmandu temos cerca de quinze mil e quinhentos quilômetros em linha reta: uma andorinha europeia, deslocando-se à velocidade média de 50 quilômetros por hora, leva trezentas e dez horas, ou cerca de treze dias, para fazer o percurso, mas, pelo que se sabe, nenhuma andorinha europeia tentou este percurso até os dias de hoje. Não temos dados suficientes para quaisquer afirmações sobreandorinhas africanas.)

A obra que Isabelle ora expõe é um trabalho em técnica mista – grafite, carvão, tintas acrílica e vinílica, nanquim, pastel, óleo – sobre tela; um trabalho com 2 x 20 metros instalado sobre as paredes do espaço, para ser adquirido aos pedaços, nas medidas do desejo do freguês, perdão, colecionador.

Como em situações anteriores – outros mapas, outras viagens – é para ser retalhado: como na vida real, vão ficando só os buracos. Mas, ao contrário dos trabalhos anteriores, que se reportavam a situações imaginárias, este se refere à realidade concreta e representa um pedaço do centro de São Paulo; mais exatamente, o pedaço de São Paulo onde Isabelle escolheu viver: a avenida São Luiz, com a praça da República e o Instituto de Educação Caetano de Campos, a Biblioteca Mário de Andrade, a rua Augusta (Baixo Augusta), a Galeria do Rock, o edifício Copam, as passagens e galerias e tudo o mais. Para contar a verdade.

Na verdade, quando Isabelle chegou ao Brasil, em 1986, foi morar em Pindamonhangaba (levou três meses só para conseguir falar o nome do lugar; podia ser pior, se fosse morar em Itaquaquecetuba) e foi que precisou resolver a questão de uma passagem de avião.

Como tinha vindo para o Brasil pela Royal Air Maroc – Paris, Bruxelas, Casablanca, Rio de Janeiro – e tinha resolvido ficar no Brasil e a agência da Air Maroc ficava na São Luiz… bem foi que se apaixonou e assim que pode, em 2014, veio morar na São Luiz (digo que veio e não que foi porque eu também moro em São Paulo e, adivinhem: na São Luiz!).

Não acreditou no medo dos habitantes dos mundos exteriores ao centro de São Paulo, que como nas antigas mitologias dos europeus sobre o Novo Mundo, imaginavam monstros e perigos mortais: afinal, o Centrão é mais confortável e mais tranquilo do que se imagina.

Logo de saída, foi pintando um painel nos tapumes que vedavam as vitrines de uma loja desocupada no rés do chão do edifício Ouro Preto (avenida São Luiz nº 131) que ainda está lá e vale a pena ir de metrô até o centro e dar uma olhada no painel: foi um primeiro reconhecimento e demarcação do território.

E, com a vivência, alguns espantos: muitos paulistanos nunca vieram ao centro em toda sua vida, pouca gente reconhece os lugares de memória que a cidade deixou ao longo do tempo e assim vai. Daí a ideia de um mapa que registrasse a relação das pessoas com o espaço, nomeadamente a relação da vizinhança com o seu habitat e suas estratégias de adaptação.

Idealizado o mapa do Centrão, tendo como epicentro sua moradia e atelier, Isabelle preparou uma pesquisa, na forma de um questionário, que distribuiu nas portarias dos prédios vizinhos e depois recolheu: foi este conjunto de informações que orientou o desenho do mapa que será exposto nas fronteiras solenes de Vila Madalena, pronto para ser retalhado e vendido aos pedaços.

E assim ficamos esperando que, no futuro, Isabelle faça outra cartografia afetiva de outra vizinhança paulistana: Augusta, Ibirapuera, Congonhas, Santo Amaro, ou até mesmo Vila Madalena, quem sabe?

Mais informações, pessoalmente com a artista.

Em São Paulo, Março de 2017.

Dalton Sala

 

ISABELLE RIBOT UMA CARTOGRAFIA AFETIVA

de 23 de Março a 22 de Abril Luiz Maluf Art Lab

Rua Medeiros de Albuquerque nº 70 Vila Madalena

(Esquina do Beco do Batman)

Abertura 5ª Feira dia 23 de Março às 19:00 horas

e uma cervejinha para os descolados:

Sábado dia 25 de Março por volta das 11:00 horas!

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