José Renato Nalini, imortal.

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23/03/2017
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É melhor esquecer

A memória é um dos patrimônios intangíveis mais valiosos que todos temos e que não pode ser comprada. Menciono sempre – e de memória – um texto de Cecília Meireles: “Os jardins da memória só a mim pertencem! Percorro-os quando quiser…”.

Há coisas que nos dão prazer de lembrar. Ou­tras, preferíamos esquecer. Mas a perda da memória é patologia. Não é algo que se possa manipular. O que se pode fazer é evitar que uma memória se exprima. Aquilo que nos incomoda pode ser afastado, assim que prenuncie ressurgimento. Para o neurocientista Ivan Izquierdo, “a falta de uso de uma determinada memória implica em desuso daquela sinapse, que aos poucos se atrofia”.

No mais, inexiste estratégia para selecionar lembranças e em seguida eliminá-las. Até porque a mesma informação é salva por diversas vezes pelo mecanismo da plasticidade. Daí lembranças amargas vez o outra nos amargurarem novamente.

É saudável cultivar a memória. Até a memória do medo, que é o que nos mantém vivos. O medo nos faz atentos e vigilantes. Se ele for tão grande que nos paralisa, “antes parado do que morto. O cérebro atua para nos preservar, essa a prioridade”, ainda citando Ivan Izquierdo.

A vida é contínuo aprendizado. A cada dia aprendemos algo novo. E se nada aprendemos num determinado dia, esse é um dia perdido. Podemos trei­nar a memória para que ela retenha o que é agradável e encontre fugas para o que nos molesta. Um exercício racional de olvidar aquilo que nos machuca.

A sabedoria antiga descobriu a fórmula ideal. Guardar o que nos enleva, cultivar a gratidão para que a recordação do bem que nos foi feito enfatize a empa­tia com o ser generoso. Tentar esquecer as maldades, as traições, a maledicência, o acinte, o deboche, a insensibilidade e a ingratidão. Sintomas da miserabili­dade da matéria humana, infelizmente tão frequentes.

Passar pela existência terrena sem traumas não é para os humanos. Estes são imprevisíveis e incontrolá­veis. Quem se apega aos momentos infelizes prolonga a infelicidade. Assim como a inveja, veneno que alguém toma com a esperança de que o outro venha a morrer.

Nada obstante, quem está a perder a memória daria tudo para se lembrar até dos momentos terríveis. Eles fazem parte de sua história.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 23/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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20/03/2017
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Quem lê não morre

Quer dizer, morre menos! Ou seja: leitores de livros têm mortalidade reduzida em 20%. Foi o que apuraram pesquisadores norte-americanos. Ler livros reduziu um quinto dos riscos de mortalidade. A Uni­versidade de Yale constatou boa vantagem na sobrevi­vência dos que liam 30 minutos por dia, quando com­parados a não leitores.

É que os livros propiciam uma “leitura imersi­va”, pela qual o leitor consegue fazer conexões entre o que está lendo e o mundo ao redor, as possíveis aplica­ções daquilo na vida real. Tudo melhora com a leitura: vocabulário, concentração, pensamento crítico, empa­tia, comportamentos mais saudáveis, menos estresse. O conjunto na melhoria de todos esses processos cog­nitivos, leva a uma vida um pouco mais longa.

O Brasil ainda lê muito pouco. Mas é dever de todas as pessoas conscientes fazer com que as crian­ças se habituem com a leitura. Afinal, ler é viajar sem ter que fazer as malas. É visitar outras Nações sem ter de pagar passagem, nem exibir passaporte. É pene­trar mentes alheias sem ser intruso e conhecer pessoas que nunca mais serão encontradas, até porque muitas delas já estão na eternidade, perscrutar suas mentes, partilhar suas alegrias e suas angústias.

Quem lê cresce e se transforma. Quem lê vive mil vidas antes de morrer. Quem não lê, vive apenas uma, dizia George R.R.Martin. Mergulhar na leitura é o que permite sair da esfera estrita de nossa rotina, de nossas atribulações, de nossos microproblemas e concluir que a existência humana é muito mais rica do que pode perceber nossa mediocridade.

Leio e cada dia mais. Vários livros ao mesmo tempo. Mal terminei de ler “Homens imprudentemen­te poéticos”, de Walter Hugo-Mãe, li “Machado”, de Silviano Santiago, “O Dono da Banca”, biografia de Roberto Civita, escrita por Carlos Maranhão e come­cei a ler “Rita Lee”, sua autobiografia que é muito divertida e me leva a tempos que também vivenciei, pois somos da mesma geração.

Memórias, biografias, autobiografias são hoje a minha predileção. Além das leituras obrigatórias para a sala de aula, pois o professor que não se recicla está con­denado a ficar muito abaixo da capacidade e aptidões de seus alunos, todos antenados e viajantes do networking.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 20/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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2 respostas para José Renato Nalini, imortal.

  1. Mas que interessante !! Em resumo , a leitura prolonga a vida !! AgrAdeço A Da, Iracema, a famosa bi bibliotecária da Caetano, que me ajudava a escolher livros para eu ler…e é o que mais faço até hoje : leio !!!

  2. Leia mas selecione!
    Grande abraço, wilma.

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