Ecce homo -wilma schiesari-legris.

 Olhar Animal.

(wilma schiesari-legris)

O biólogo  Sérgio Greif   assistiu a um ritual ameno de matança animal  se compararmos ao filme postado no Facebook pelo nosso colega caetanista, o jornalista Jéthero Cardoso.

Não teria sido o nosso colega ingênuo ao divulgar as imagens que assistimos, provavelmente montagem de duas ou mais filmagens distintas, nas quais vemos um tambor rotativo munido de lâminas incisivas, como as arcadas dentárias dos tubarões hollywoodianos, que se abrem quando o animal é ali jogado do alto da plataforma, cadafalso de uma morte anunciada?

Filmado em branco e preto e em plano-sequência (sem que paremos o motor da câmera), os bichos lançados ao  ignóbil martírio, olhos arregalados e corpos tesos são, ao pé-da-letra, imediatamente estraçalhados com suas pelagens, cornos, cascos, ossos, víceras cheias e veias plenas de sangue e de puro pavor. Não importa a espécie; bovina, muar ou equina, pois nada se perde; tudo se transforma.

Em que país? Como se chama o artesão que concebeu a engenhoca? Quem são os empresários de tenebrosa companhia? Qual o nome dela? Quem a financia?  Qual o perfil psicológico do empregado-algoz que lida com os botões do macabro engenho? Qual a finalidade da matéria-prima moída?

Velhos ossos, corpo idoso, neurônios debilitados, esclerosados precocemente pelo excesso ou falta de uso; meu cérebro busca uma explicação que não pode encontrar.

Lembro-me então, dos velhos e sádicos desenhos animados americanos lançados nos anos 40, onde o touro bufando e repetidamente ensaiando o passo antes de atacar seu agressor, tinha a palavra “GO” escrita nas pupilas;   vem-me à mente aquela vaca holandesa estressada, com termôtro na boca, deitada no divã do psicanalista freudiano…

Os desenhistas dos estúdios da Warner pressentiam a barbárie humana face aos animais  ou, escolados pela segunda guerra mundial, faziam apenas uma prosopopeia com a temática da barbárie humana em si, testemunhadas por alguns deles quando agrupados nos campos de concentração?

Se questo è un uomo”, “Ecce homo”, “Si c’est un homme”, tres traduções para a mesma obra de Primo Levi questionando a bestialidade do homem sobre o homem, nada mais que um estúpido carrasco a serviço dos déspotas, servidor e vassalo do poder,  capaz de aniquilar o seu próximo, tão distante, valores de uso e de troca com data vencida…

Um carrasco que ao chegar em casa abraça a esposa e brinca com os filhos porque, zeloso, cumpriu o seu dever; é a banalidade do mal se estendendo no quotidiano de cada um.

Quem prosseguirá a rota das figurinhas de presépio em busca de orientação patética da luz de um cometa que leva ao matadouro, senão os pobres cordeiros de Deus?

Quem encarnará o pérfido matador no páteo da prisão, nos campo de detenção, nos campos de concentração, nos campos de batalha ou dentro dos aviões de combate, acionando os drones-bomba ou teclando simplesmente no computador?

 

 

VISITA AO MATADOURO

Por Sérgio Greif (in: Olhar animal)

Passei alguns de meus últimos anos no interior de São Paulo, fiscalizando fontes de poluição ambiental: usinas de açúcar e álcool, fábricas que processamento de polímeros, fundições etc. Mas nada me pareceu tão poluente e agressivo quanto os curtumes e abatedouros de animais. Estas atividades são, é claro, extremamente poluentes, mas pretendo falar sobre este assunto em outra ocasião. Gostaria de reservar este momento para falar sobre uma outra forma de violência, aquela que presenciei nos matadouros e abatedouros de animais.

Embora o sofrimento do animal que será abatido se inicie já em seu nascimento, é no matadouro que ele encontra o seu fim. Não é um fim agradável, tranquilo ou sem dor, como muitas pessoas querem acreditar. As pessoas são levadas a crer que os animais que lhes servem de alimento levaram uma vida de prazeres, brincando nos campos com outros animais de fazenda e que em determinado dia estes foram transportados e abatidos de forma indolor. Esta é a imagem que a indústria da carne nos passa, com suas propagadas de animais sorridentes e suas embalagens coloridas que quase não sangram.

As pessoas não acreditam, ou não querem acreditar, que animais de corte tiveram toda uma existência miserável, privados da luz do sol, do ar fresco, de pisar a terra. O objetivo de uma criação de animais de corte não é, é claro, o bem estar dos animais. O objetivo é lucro, produzir mais carne, em menor espaço e no menor tempo possível. Desta maneira ovinos, suínos e frangos são criados em locais com alta densidade de indivíduos, em espaços mínimos que limitam seus movimentos e o desempenho das atividades mais
básicas, características de suas espécies. Os bovinos ainda são criados de maneira extensiva no Brasil, mas esta realidade tende a se alterar com o aumento na demanda e profissionalização do setor.

Descrever o que acontece em um matadouro não é uma tarefa fácil. Provavelmente ler sobre o que lá se passa também não seja, mas acredito que temos a obrigação de divulgar estas verdades, e desfazer os mitos que se formam, de que os animais não sofrem com o abate. Todo aquele que se alimenta de animais tem o dever de conhecer este último e importante passo na vida da comida que tem em seu prato. As descrições que se seguem representam o que pude presenciar do abate de animais. Quando forem citados procedimentos diversos aos quais presenciei, farei menção a isto.

Matadouros de gado

Os animais são transportado em caminhões de transporte de gado, geralmente contendo 12 animais, que tentam se manter em pé enquanto o veiculo se desloca. Os animais são geralmente trazidos de fazendas próximas ao abatedouro, mas em alguns casos provêm de localidades mais distantes, o que significa que este transporte pode durar várias horas. O caminhão adentra o matadouro e os animais são descarregados a chutes e pontapés em um terreiro cercado (imagino que eles foram colocados no caminhão também na base do chute). Neste terreiro os animais ficarão à espera por algumas horas, pois os abates quase sempre ocorrem durante a madrugada.

Não pude presenciar a hora em que o abate começa, devido ao horário, mas imagino que os animais são enfileirados no corredor que leva à sala onde serão abatidos. Nas primeiras horas da manhã é evidente o estresse que estão vivendo os que ainda esperam a vez de entrar na sala do matadouro, pois estes presenciaram a morte de todos os animais que foram na frente. Seus olhos aparecem saltados na órbita, bem irrigados de sangue, e seus mugindo são desesperados e frenéticos.

Estes animais ouviram o que aconteceu com os animais que foram à sua frente,sentiram o cheiro de seu sangue e possivelmente viram alguma cena desagradável, é claro que resistem até onde podem para não passar pelo corredor que leva à sala do matadouro. Por este motivo, um funcionário do estabelecimento os força a fazê-lo dando chutes e eletrochoques através de uma vara. O animal vivencia um verdadeiro pânico, e tenta recuar, mas é empurrado para a frente pelo animal que vem atrás, que também está levando eletrochoques. Ele tenta se jogar para os lados, mas as barras de aço só lhe permitem que avance para a frente.

Ao entrar na sala do matadouro, o animal presencia por cerca de um minuto o que está sendo feito com seus companheiros, alguns já pendurados, alguns sendo fatiados em diferentes processos, seu sangue e suas tripas espalhados pelo chão da sala. O animal em vão tenta escapar, mas está completamente cercado por barras de aço. Neste momento o animal sofre o processo que se chama “insensibilização”. No caso dos matadouros que estive visitando, esta insensibilização é feita com uma pistola pneumática, mas em muitos matadouros a insensibilização ainda é feita a golpes de marreta. A pistola pneumática dispara uma vareta metálica no crânio do animal, perfurando-o até o cérebro.

Diz-se que este é um método “humanitário”, pois o animal não sofre dor e permanece desacordado por todo o resto do processo, mas a verdade é que não podemos saber se aquele animal de fato não sentiu dor. Certamente a pistola o torna imóvel, mas o animal não parece desacordado, apenas atordoado e impossibilitado de reagir. Algumas vezes, um mesmo animal precisa ser insensibilizado mais de uma vez, o que mostra que este não é um método “humanitário” nem indolor.

No passo seguinte, o animal é pendurado de cabeça pra baixo em uma corrente, suspenso por uma das patas traseiras. É possível que neste momento o peso do animal trate de romper alguns de seus ligamentos, destroncar seus membros. No momento em que o animal é suspenso, percebo que sua cabeça ainda se move. O funcionário do matadouro diz que são espasmos, contrações involuntárias, que o animal já não pode sentir. Mas seus olhos ainda piscam, a língua ainda se mexe, tentando conter o vômito e puxar para dentro o ar. Este animal não está sentindo dor?

O animal é então sangrado, degolado, estripado e esfolado. O sangue que jorra é recolhido em parte para uns tonéis, mas a maior parte cai em uma canaleta. As fezes e o vômito são recolhidos em outra canaleta. Com enormes facas sua barriga é aberta e as tripas são jogadas no chão. Alguns animais ainda parecem se mexer nesta etapa e a impressão que tenho é que eles podem ver suas tripas no chão. O sangue e as tripas serão encaminhados para o setor de processamento de embutidos (linguiças, salsichas, etc).

O couro destes animais que servem para a produção de carne não é considerado de boa qualidade, mas mesmo assim ele é retirado para uso menos refinado. Após isso o animal é baixado e são retirados os testículos, as mamas, patas e língua. Estas ‘peças’ são comercializadas como iguarias ou são encaminhados para o setor de ‘graxaria’, de onde sairá o mocotó e a gelatina.

Como os matadouros que visitei possuíam uma grande produção, uma “linha de desmontagem” como diriam alguns, pouca atenção era dada para cada animal e mesmo na etapa de retirada do couro e desmembramento, alguns animais ainda estavam se mexendo. Neste matadouro o couro é retirado quase completamente por uma máquina que parece uma máquina de fazer massas, o funcionário apenas tem que separar o couro em alguns pontos.

Finalmente, ocorre o corte seccional da “peça”. O animal é dividido em duas metades e a carcaça é lavada. Neste momento, dependendo da finalidade, o animal poderá ser retalhado em cortes ou sua carcaça poderá ser levada para o frigorífico. Quando a carne chega à câmara fria, o calor do animal ainda emana dela. As carcaças são penduradas em ganchos enfileirados e apesar do frio, o cheiro nauseante da carne é perfeitamente perceptível. Dali a carne seguirá para os açougues e mercados.


Sérgio GreifSérgio Greif | sergio_greif@yahoo.com

Biólogo formado pela UNICAMP, mestre em Alimentos e Nutrição com tese em nutrição vegetariana pela mesma universidade, professor do IPOG – Instituto de Pós-graduação e Graduação, especialista em gerenciamento ambiental pela ESALQ – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo, ativista pelos direitos animais, vegano desde 1998, consultor em diversas ações civis publicas e audiências públicas em defesa dos direitos animais. Co-autor do livro “A Verdadeira Face da Experimentação Animal: A sua saúde em perigo” e autor de “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação: pela ciência responsável”, além de diversos artigos e ensaios referentes à nutrição vegetariana, ao modo de vida vegano, aos direitos ambientais, à bioética, à experimentação animal, aos métodos substitutivos ao uso de animais na pesquisa e na educação e aos impactos da pecuária ao meio ambiente, entre outros temas. Realiza palestras nesse mesmo tema. Membro fundador da Sociedade Vegana.

 

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Uma resposta para Ecce homo -wilma schiesari-legris.

  1. Arnaldo Itamar R Menon disse:

    Impressionante. O mundo terrível dos que estão abaixo do homem na escala alimentar.

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