Ele sempre gostou de ler, de ir ao teatro, ao cinema, de visitar uma exposição!

O pai era responsável  do jornal Le Dauphin* e a mãe escrevia para crianças desde quando havia abraçado  a profissão de professora, embora nunca tivesse publicado nenhum livro infantil.

Quando o bebê chegou aos nove meses de idade, ainda não sabia falar, mas compreendia tudo o que era dito, tanto que, após uma explicação teatral da mãe lhe mostrando como deveria descer do sofá, o menino virou-se de costas, empinou o bumbum e desceu de gatinhas como se estivesse num tobogã mágico e deslizou até o solo sem machucar a cabeça; repetiu o gesto até crescer o suficiente para sair do canapé sem traumas e nem traumatismos.

A partir dos tres anos, durante o dia ouvia discos (era 1989) e escutava K7, com histórias maravilhosas ilustradas com a música de Villa-Lobos** ou pelas obras de  Igor Stravinsky, Prokofiev, Camille Saint Saens. Também olhava nos livros que a mãe folheava para ele, as imagens de diversas aves europeias e escutava os sons que elas emitiam. 

Conheceu cada instrumento atraves de um conto musical chamado Piccolo, Saxo & Cia de Jean Broussolle.

Pequenino recebeu livros confeccionados  com tecido que a titia Malú lhe mandava do Brasil.

A bibliotequinha ia crescendo à medida que o pai recebia um volume para comentar no jornal em que escrevia e, toda coleção do Sítio do Pica-pau Amarelo fora emprestada pela querida Malú. Sinhá, o mundo não “tava” virado…

Quando ele ficou maior as primas o presentearam com O menino maluquinho; depois, com um belo livro de Cecília Meireles.

Mas tudo começou… no começo! Diariamente na hora de ir dormir, o pai lia ao filho pequeno aqueles livrinhos que estavam à sua altura e, foram tantos os livros, que o menino conhecia Jean Giono(O homem que plantava árvores) e Marcel Pagnol (A glória de papai; O castelo de mamãe) antes de entrar para o pré-primario!

O menino também ia aos museus, onde as exposições apresentavam temas que podia compreender (Picasso, com sua bela cabra; os móbiles de Calder, os retratos de criança pintados por Renoir); frequentou os ateliers para a meninada até dez anos, às quartas-feiras, no Louvre, confeccionando togas da antiguidade, fazendo escrita cuneiforme na argila, por exemplo, ou visitando a ala de esculturas gregas, com um animador para petizes; e não faltava no teatro; começou pelo espetáculo de marionetes no jardim do Luxemburg e no parque de Montsouris (que custam o preço de um sorvete) e continuou gostando de palco; no lugar de roupas caras os pais lhe davam cultura; até que, aos onze anos deparou-se com  A flauta mágica(Mozart) e aos doze anos foi à ópera para assistir L’enfant et les sortilèges, de Ravel e Le nain deAlexander von Zemlinsky ; no ano seguinte aplaudiu Carmen, de Bizet, porque a obra fazia parte do conteúdo escolar das aulas de música do Lycée Henri IV;  ia ao cinema e encontrava menos desenho animado e mais as histórias que lhe eram lidas quando pequeno, como aquelas de Pagnol, dirigidas por Claude Berri.

Também foi com a mãe se deliciar com os Contos de Hoffmann, de Offenbach, quando Natalie Dessay interpretou Olympia!

Aos catorze anos preferiu a companhia dos coleguinhas da escola que  convidavam os camaradas durante os fins-de-semana e dali para a frente era livre para escolher o que ler, o que assistir, com quem estar.

Quando visita os pais sempre lhes leva livros e, como mora noutro país, procura uma peça de teatro para levar os velhos.

Por quatro vezes acompanhou a mãe à ópera: era presente de Natal; e um dia disse aos coroas que se tiver um filho vai fazer para ele igualzinho  lhe fizeram seus pais!

Bacana, né?
*Jornal da Fundação Cousteau; o outro é o Calypsolog.

** Villa-Lobo para as crianças

(Apprendre à éduquer)

Ele não gosta de ler!

Leandro Karnal

29 Março 2017 | 02h00(OESP)

Meu filho não gosta de ler. A frase é dita com dor nos lares. Na sala de aula, o drama se repete. Você leva um texto que o seduz há anos para a turma, fala dele e… nada. Os alunos continuam indiferentes e o tédio é entrecortado por suspiros lânguidos e consultas ao celular. Só quem deu aulas para adolescentes sabe da cara de natureza-morta que alguns conseguem. Como fazer alguém tornar-se um bom leitor?

Vou começar com uma aparente heresia: ler não é fundamental para ser feliz. Duvida? Recomendo uma terapia de choque: frequente uma reunião de departamento de qualquer centro de humanas. Lá encontrarão pessoas que fazem da leitura seu dia a dia, seu ganha-pão e sua vocação. Examinem o ambiente e as frases por meia hora e retornem aos lares: eis uma vacina poderosa e permanente para evitar a associação entre livros e alegria existencial. Ler não nos torna mais felizes. É interessante notar que o estereótipo da bibliotecária em todos os filmes e romances é de uma mulher amarga, de óculos, imersa na obsessão do silêncio. Vivendo em meio a livros, ela não deveria ser feliz? 

Conhecimento é poder, reza a máxima atribuída a Francis Bacon, o afamado Chico Toicinho. A base de todo processo é a curiosidade. A leitura é o efeito, não a causa da curiosidade. 

Uma parte da elite brasileira fixou-se no saber formal de textos clássicos. Homero e Dante são impactantes e transformaram a minha vida. Por isso me sinto livre para dizer: eles são um caminho, não o caminho. Insisto: o cerne do sucesso e da inteligência é a curiosidade, a inquietação, a busca e a insatisfação. A Ilíada me transformou, no entanto o importante está no caminho que me levou até ela. Como entendê-lo?

O primeiro passo para pais e professores é superar a ansiedade. Querer empurrar legumes e falar que premiará com doces é o caminho seguro para ressaltar que o doce é bom e o vegetal, ruim. Conselhos são medidos pela minha identificação com quem os fornece e pelo resultado que observo no conselheiro. Uma pessoa interessante, ao dizer que livros são fundamentais, terá maior chance de ser ouvida do que outra à beira da histeria: “Você precisa ler!”. 

A personalidade do leitor fala antes dele e funciona como outdoor. É como o corpo de quem nos dá pistas sobre dieta ou suplementos alimentares: olhamos para o físico de quem fala mais do que ouvimos. A primeira pergunta honesta a fazer a todo autor de textos do estilo “você pode ficar rico” é saber se o autor possui o capital que imagina ensinar outros a adquirir.

Aqui uma observação complexa. Muitos pais intelectuais geram filhos com aversão à leitura. Santo Freud! Os tomos eram, para a criança, as entidades que subtraíam seu pai e sua mãe do convívio. Livros eram inimigos! A biblioteca ou o escritório eram espaços vampirescos que drenavam a atenção de meus pais. Como amar um concorrente desleal? 

Como valorizar conhecimento se ele foi usado para constranger? Correções gramaticais ríspidas, humilhações diante de uma ignorância tópica ou impaciência com lentidão de aprendizado vão dirigir a dor do jovem para o saber e seus usuários. Como adquirir o desejo de aprender se o resultado é virar uma pessoa chata? Conhecimento deve libertar, ampliar horizontes, ajudar na felicidade, clarear angústias e emocionar. Se a intenção for agredir, é mais ecológico um tapa na cara do que derrubar árvores para o papel. A propósito, isso é uma ironia e não um conselho. 

Curiosidade pode ser estimulada com boas perguntas. Elas devem ser dosadas e nunca podem parecer um artificialismo didático. “Phármakon” (remédio e veneno): a diferença está na dose. A ideia vem da medicina antiga e de uma ideia de Jacques Derrida sobre o poder da palavra. Empurre um romance árido e com questões existenciais acima da faixa etária de uma criança e estará lançada uma fértil semente de rejeição à leitura. O lúdico sempre tem um papel central. Machado de Assis é um gênio. Imaginar que alguém de 13 anos esteja preocupadíssimo com fidelidade conjugal como estava o taciturno Bentinho é ignorar regra básica sobre jovens. A leitura não deve ser apenas o reforço do meu mundo e dos meus valores. Porém, para que ela possa alçar voo, a caminhada deve ser coerente. Haverá um dia em que o leitor já experiente vai gostar exatamente do mundo que desconhece ou que o desafia. No início, o gancho é feito pela proximidade. Mais fácil indicar a um jovem que resiste à autoridade e ao conhecimento a identidade com Holden Caulfield, o rebelde do romance de J. D. Salinger, O Apanhador no Campo de Centeio, do que com tísicos nos Alpes da Montanha Mágica de Thomas Mann.

Posso apoiar a leitura de Harry Potter ou Paulo Coelho? Estou convencido que sim. Podemos dar adaptações de clássicos facilitados para jovens leitores ou as boas histórias em quadrinhos sobre Shakespeare? Nada impede. O filme sobre o livro pode ajudar? É claro! Apenas não pode substituir. 

Sempre e acima de tudo: que você mostre que os livros são bons e não um fardo. Até nas faculdades damos a bibliografia e chamamos de “carga” de leitura, indicando, metaforicamente, peso e dor. Livros às mancheias porque são muito bons, jamais um peso. Ler é parte do bem-viver! Boa semana para todos. 

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