Wilma Schiesari-Legris responde a Leandro Karnal.

                                                 (wilma schiesari-legris)

Pergunta Leandro Karnal: o que é uma boa aula?

Respondendo a esta questão, eu diria que uma das principais qualidades do professor é a vocação inata ou adquirida de ensinar  e  ter vontade de transmitir algo a alguém com a  convicção que aquilo que ensina deve repercutir positivamente na vida daquele que aprende.

A segunda virtude é conhecer o que pretende transmitir.

Paulo Freire quando ensinou na África, não tinha meios materiais de ponta da época, nem projetores de filme  quadros eletrônicos e internet de hoje; sequer havia papel e lápis em profusão e, como os mestres gregos da antiguidade, lidava com o seu público ao ar livre contando histórias adaptadas à meninada.

Quando concebeu uma cartilha para alfabetizar adultos, a temática também girava em torno da motivação que eles podiam trazer, à noite,  voltando de uma labuta diária de muitas horas, com as mãos calejadas e com restos de cimento grudados sob as unhas das mãos.

O método não somente dava oportunidade ao homem-aprendiz de conhecer a mágica dos símbolos como o concientizava de sua situação social.

Infelizmente, a educação completa, farta e de qualidade é quase um mito nos dias atuais. Estou a me referir à educação no planeta, talvez exceptuando a Finlândia, a Suécia ou, quem sabe? – a Coreia do Sul.

Para alfabetizar  é importante conhecer bem a língua que se presta à tarefa, como a liguagem do educando e … muita motivição do mestre para que o aluno também sinta o desejo de aprender.

Se o professor dispõe de materiais tecnológicos de última geração, deve trazer consigo uma formação paralela para bem utilizá-los em classe, combinando a parafernália tecnológica com uma didática adequada.

Para o ensino das primeiras letras, onde a cultura geral do mestre não é uma condição sine qua non, a receita simples a ser aplicada englobaria o amor e respeito ao próximo, vocação e, de preferência, domínio da língua acompanhado de uma didática mínima que resultasse no máximo de aproveitamento de todos ; afinal, quando se ensina, também se aprende.

Mais para frente, o aluno deve encontrar professores que tenham as mesmas qualidades já citadas do mestre-escola, acrescidas de uma cultura universal e um conhecimento específico daquilo que ele se propõe a ensinar.

O professor não deve ser o repetidor do que se acha no manual por ele indicado ; precisa levar ao aluno o desejo de colocar questões e ter as ferramentas intelectuais e materiais, mesmo improvisadas, para transmitir seus conhecimentos e formar um julgamento de valor a cada um dos elementos do seu público.

No curso médio o aluno deve sair da escola com essas armas na mão, seja para poder trabalhar, seja para dar prosseguimento aos seus estudos.

O ensino não deve ser  rebarbativo e temos que pôr um basta na verborreia da decoreba ; um pouco de imaginação e o aluno não somente deve aumentar seus conhecimentos como ser capaz de aplicá-los na vida do dia-a-dia: saber escrever o seu currículo, defender oralmente suas capacidades, organizar a vida administrativa que vai ter, saber usar com gosto aquilo que aprendeu, informar-se, procurar nos livros aquilo que lhe  foi omitido, buscar explicações com outros especialistas fora da escola e transpor fora da classe aquelas informações fora dada na escola.

Visto as desigualdades sociais no mundo todo, o trabalho do professor fica muito mais difícil quando os educandos chegam à escola sem nenhuma bagagem da cultura da elite que, muitas vezes falta também ao mestre ; é a ocasião para todos arregaçarem as mangas e ir em frente !

As melhores escolas particulares dos países emergentes geralmente são munidas de grandes  meios para ensinar:  aulas bilíngues, laboratórios de línguas, gabinetes científicos com material de primeira, bibliotecas completas, quadras de esporte e materiais para esse fim, teatro, salas de projeção e um grupo de professores graduados em boas escolas cuja exigência maior é fazer com que os alunos tenham um bom resultado global com notas e um abre-te sézamo para entrarem nas melhores universidades… do mundo.

Ora, tudo isso  é uma moleza levando-se em consideração o meio de onde provém esses alunos, habituados a viajar, a ir ao cinema e ao teatro, a consumir toda parafernália eletrônica, a gastar sem contar com cursinhos pré-vestibulares ou professores de apoio.

Praticamente todos eles ultrapassarão  apenas as dificuldades de obterem seus diplomas; seriam, entretanto, cidadãos do Mundo, formados a respeitar o próximo, a engrandecer a nação com a sua colaboração, a servir os desmunidos para os elevar à uma condição digna, a serem justos e criar uma sociedade com igualdade de chances a todos ou, dentro das perspectivas  atuais ter como objetivo apenas  a capacidade de reproduzir o sistema ?

Abraços refletidos,

wilma.

15/04/2017.

 

O que é uma boa aula?

Leandro Karnal

05 Abril 2017 | 02h00 (Estadão)

 

O tema é delicado. Primeiro, imaginam leitores, com razão, que o autor da crônica esteja dizendo que dá boas aulas e que pode indicar uma receita, o que seria uma vaidade. Também há a possibilidade de um ex-aluno, atingido por uma grosseria minha ou por uma incompetência profissional, questionar quem seria eu para falar sobre boas aulas. Acredito que eu seja uma pessoa que pode falar sobre uma boa aula porque já dei aulas muito ruins. Todo profissional sabe que houve dias bons, médios e terríveis na sua ação. Então, determine-se à partida: sou um professor que, por erros (muitos) e acertos (alguns), posso discutir o tema.

Eu era muito jovem quando tive minha primeira turma. Completara 15 anos e, juntamente com minha irmã, aceitamos turmas de catequese. Eu estava no ensino médio e o padre Benno Brod SJ, talvez sem opção de mão de obra mais qualificada, nos entregou um grupo para preparar para a primeira eucaristia. Lembro-me, à distância de 39 anos, ser um péssimo catequista. Era entusiasmado, utilizava recursos didáticos, mas era muito ruim. Enfatizava teologia, normas, regras e pouco da beleza cristã dos ensinamentos. Primeira lição aprendida: muito cuidado com a adequação da mensagem para o público da aula. A primeira preocupação do bom professor: o que meus alunos conseguem captar e até que ponto pretendo expandir a capacidade de compreensão da minha turma?

Um ano antes de me formar na graduação, comecei a dar aulas numa escola estadual em Dois Irmãos (RS). Agora, eu lecionava História e havia um conteúdo específico mais do que uma atitude de vida. Eram alunos de ascendência alemã na sua maioria, muitos deles trabalhadores da indústria de calçados ou do comércio local. Já havia crescido uma percepção: com duas aulas semanais no noturno, cortei o programa pela metade. Queria falar do mundo contemporâneo e não das cidades-Estado da Suméria. A ideia era boa: diminuir quantidade para enfatizar qualidade. Uma boa aula não procura traduzir todo o mundo, mas possibilita pensar algo do mundo. O que invalida uma aula é tentar passar muita coisa ou, mesmo sendo pouca, perder o foco no fim último de toda educação: o aluno.

Tornei-me professor do ensino superior aos 23 anos. A disciplina chama-se História do Pensamento Humano, na mesma universidade na qual obtivera minha graduação, a Unisinos. As turmas eram grandes, eu muito jovem. Sentia-me inseguro. Passei a me vestir como pessoa mais velha, com chapéus e casacões. Provavelmente, ensinava mais do que eu sabia: o entusiasmo era superior ao conhecimento. Foram anos de aprendizagem sobre lecionar para dezenas de pessoas por um período longo.

Já em São Paulo e fazendo pós-graduação, dei aula em diversos locais. Uma quinta série (hoje um sexto ano) em um colégio católico, turmas de supletivo de ensino médio noturno, turmas regulares em um colégio privado de elite e faculdades privadas. Cheguei a dar 64 aulas semanais. Foi uma década de aprendizado e de exaustão.

Acho que o erro maior das minhas aulas de então era ser, talvez, o aluno mais velho. Muitas vezes, fui o professor que tenta demonstrar, para impressionar suas turmas, como tudo é fácil e tranquilo. Isso talvez seja como um lutador faixa-marrom conversando com um iniciante faixa-branca. Crescia o conhecimento, mas faltava-me a maturidade pessoal para enfrentar as muitas situações em que a psicologia seria mais útil do que a didática.

Olhando com distância, vejo que minhas aulas, por vezes, tinham bons recursos de criatividade. Tocava a Marselhesa para os alunos aprenderem a Revolução Francesa no ensino médio e fazia chá em aula para falar do Império Britânico e sua expansão sobre a Índia. Alguns alunos dizem que lembram dessas coisas anos depois. Criatividade é importante para uma aula, desde que seu objetivo não seja distrair ou divertir alunos, porém ensinar por meio do lúdico. Errei e acertei bastante nesse campo.

Terminei o doutorado e fui aprovado em concurso para a Unicamp. Era já mais velho, tinha mais conhecimento e estava lecionando temas específicos e acadêmicos. Mais tranquilo, aprendi a olhar bem para o rosto dos meus alunos. Ali, na face deles, estava a mensagem total: a aula está boa, está chata, está difícil… Levei anos para descobrir o rosto do meu aluno. Talvez seja a coisa mais importante para uma boa aula.

Há milhares de coisas a dizer. Sintetizaria assim: pensar no que eu vou trabalhar em uma aula (o conceito, a prática, o conteúdo) e fazê-lo. Adequar a linguagem ao público-alvo. Observar muito o rosto dos alunos e suas reações. Ser criativo sem fazer do lúdico o único objetivo. Trabalhar com seriedade e nunca me comportar como se fosse apenas o aluno mais avançado. Ter autoridade sem ser autoritário. Entender que o aluno é o objetivo da minha aula e não eu. Ser honesto com eles e comigo. Ser compreensivo com as variantes humanas. Preparar-me para bem preparar alunos. Ser humilde com os próprios erros e compassivo com os erros de quem está aprendendo. Acima de tudo, ser paciente!

Sim, há muito mais, mas já é um bom começo. O governo Temer vai me permitir aperfeiçoar essa técnica por mais décadas além do que eu imaginava. Espero ser um melhor professor no futuro. Boa semana a todos!

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