Do Porto, nosso colega Dalton Sala.

Queridos leitores;

Dalton Sala se encontra em Portugal por alguns meses para desenvolver uma pesquisa que enriquecerá a História da Arte no âmbito do Barroco e suas derivações.

Ele escreveu uma cartinha coletiva a alguns de seus amigos e, tratando-se do sucesso esperado que seu trabalho há ter, quero compartilhar nossa correspondêcia com vocês.

Sucesso, Dalton.

Sucesso aos caetanistas de caráter!

Abraços pascais;

wilma.

16/04/2017.

Porto, 16 de Abril de 2017, manhã do Domingo de Páscoa.

 

Aqui estou eu, no Porto, fazendo o que vim fazer e gosto de fazer: pesquisando e escrevendo.

 

Logo de saída, encontrei, como esperava encontrar, os livros sobre ofícios mecânicos que havia identificado em Lisboa, através de bibliografias, mas que não estavam na Biblioteca Nacional.

            Tem tudo, e mais alguma coisa, aqui. Curioso: em função de um corporativismo católico, o Estado Novo salazarista patrocinou uma série enorme de estudos sobre as corporações de ofícios e suas relações com as municipalidades.

            Em função disto, grandes séries de manuscritos já foram compulsadas e descritas, o que facilita em muito o trabalho.

            Dado que o apoio dado pelos mesteres a dom João I e dom João II e consequentes privilégios junto às Câmaras – em especial a Casa dos Vinte e Quatro, instituição tipicamente lusitana – eu já havia estudado, bem como a organização dos mesteres e a fixação dos seus compromissos através dos regimentos e posturas, o que me interessava era saber como estes regimentos haviam enfraquecido sob o impacto da entrada do ouro brasileiro na economia portuguesa.

            Era uma hipótese de trabalho que se confirmou: sob o marquês de Pombal e com a criação das manufaturas reais, o regime corporativo sofreu um impacto muito grande, o que resultou em uma indefinição dos atributos tradicionais em função de competição  com base na capacidade de execução do artesão e, portanto, na de um mercado regido pela liberdade.

            Isto implica em carpinteiros fazendo o trabalho de marceneiros e etc., mas implica também em litígios e processos levados às Câmaras.

Barroco no Brasil | metodologiavisualdesign
metodologiavisualdesign – WordPress.com Aleijadinho – A última ceia

            Pois o regime corporativo não se extinguiu por morte súbita, seus estertores ainda vão durar quase um século, mas há uma dialética entre os regimes corporativo e de livre trabalho, que importa compreender na medida em que o trabalho dos entalhadores, carpinteiros, imaginários, marceneiros, oleiros, pedreiros, canteiros, taipeiros (pintores são um caso a parte e escultura é uma palavra que deve ser empregada com cuidado) é fundamental para uma história da arte colonial que se descole da problemática dos estilos e da iconografia.

            Outra questão que ficou clara, e que exigirá mais estudo, é a questão do risco, na medida em que cada um dos ofícios tinha suas próprias necessidades de definir o produto: digo isto porque surgiu documentação referente ao ofício de carpinteiro, embora não haja documentação conhecida: alguns documentos falam de fazer o risco de uma casa e detalhes dela (portas, janelas, escadas) no exame para oficial. Disto é possível inferir que os entalhadores também fossem habilitados a riscar (os imaginários trabalhavam com modelos). E que este aprendizado do risco se dava no domínio da oficina, através da prática e da tradição oral.

 

            Por outro lado, se mantém o abismo social entre os mecânicos e os liberais, traduzidos em fronteiras nítidas entre os engenheiros militares (arquiteto é outra palavra que deve ser usada com muito cuidado) e os mestres pedreiros e carpinteiros, que são a base operacional das construções.

        Mas há outros riscadores ou desenhistas: padres, em especial, e eruditos: isto fica a investigar no desenvolvimento de meu trabalho.

Beijos, abraços e cumprimentos a todos e a todas.

Dalton.

 

(O artista Ismailovitch em um de seus principais trabalhos, Ceia – homenagem ao Aleijadinho, o artista faz uma reedição dos personagens de Aleijadinho nas figuras de Cristo e seus Apóstolos – alguns destes são os profetas de Congonhas, e outro tem a cabeça do São Jorge, presente na exposição de longa duração do Museu da Inconfidência.-in IBRAM)
Anúncios
Esse post foi publicado em Expressão livre: textos dos leitores. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s