TEMPOS, TEMPOS DIVERSOS – Humberto Migiolaro

Robert Doisneau : Le Photographe (2) | Denis Danze Photographe …
Denis Danze Photographe

Em tempo de seca era um enorme poeirão. Nossa rua não era muito movimentada, mas passava um ou outro carro que manchava de marrom avermelhado o ar do bairro. Quando chovia, era um barro só. Os carros bailavam na lama, às vezes socorridos pelos passantes. Era difícil atravessar a rua, a molecada descalça patinava e se divertia no lamaçal. Inverno, garoa paulistana aproximando o horizonte, frio que gelava as orelhas. O sol de verão iluminava até tarde a roda das meninas, o bate-bola dos garotos.

O Alto da Mooca era assim naqueles tempos. Em frente do cortiço a farmácia do Sr. Rogério, pai da Heleninha que tocava piano. Ao fundo a casa de sobrado, gente chique. O açougue do Chicão logo ao lado, a venda do Cabral pouco mais acima. Bem no meio do quarteirão moravam Aderardo e Gerardo, dois irmãos escurinhos de pele brilhante. De noite só lhes viam os dentes, brincava a garotada. Sorriam e tocavam em frente a pelada. Eram bons de bola, amigos de brinquedos e de estórias contadas no degrau da loja do Chaim, bem na esquina da Curupacé. A roda das meninas era sempre incomodada por bolas de capotão desviadas ou perdidas. A brincadeira não passava das nove, as mães interrompiam os fuxicos, chamavam as crianças e fechavam os portões. Uma ou outra vez uma leve querela, a bola não entrou… Zezinho era o mais calado, abria o sorriso e tratava de separar os galinhos de briga. Era tempo de brinquedo, tempo de infância. Todos iguais, cada um de um jeito. João, uns nove anos, branquelo, filho de lituanos, a gente o chamava de Polaco. Miltinho, filho do Chicão do açougue, magrelo e comprido, vivia cutucando o nariz e colando caquinha no poste. Miguel, gorducho, filho do Cabral, era chamado Bolinha. No meio das pernas deixava a bola passar. Balofo, abre o olho, Bolinha. Hora de dormir, tchau turminha, amanha a gente desconta. Aderardo mostrava a brancura dos dentes e era seguido pelo irmão Gerardo, entrando no cortiço logo acima. Tchau, patota, hoje foi nosso dia.

            Grupo Escolar, uns trinta alunos na classe. Muitos eram brancos, filhos de operários imigrantes poloneses, lituanos, italianos, portugueses, espanhóis e outros japoneses. “Olho rasgado”, desafiava Josias no pátio. Era maior, provocava a molecada, mas nem sempre se dava bem. Teruo, nome esquisito, o japonesinho olhava, dava risada, “tamanho não é documento”. Quietinho, apagava a lousa para a professora. Aderardo, Gerardo e Joãozinho eram “de cor”, assim mandava falar a mestra. Os dois primeiros, vizinhos, eram da “caixa escolar”. A gente não sabia bem o que era isso, mas o diretor dizia que não era para ser comentado. Os pais dos alunos contribuíam mensalmente para a “caixa” que distribuía cadernos, lápis, borrachas, canetas, penas e tinteiros. Na hora do intervalo, copo de leite, todos iguais em uniformes e cores, gritaria nos corredores, moleques capetas, branquelos, morenos, mulatos, amarelos, gordinhos e magrelos. Arranca-rabo de vez em quando, um trança perna, e a molecada separava. O motivo era o futebol, uma borracha caída, um leite derramado, uma trombada por querer, sem querer. Cor não se discutia, às vezes deboches, nem ligavam…

            Evandro era um pouco diferente, tinha uns trejeitos e gestos meio parecidos com as meninas da sala ao lado. Não gostava de bola, não dava rasteira, camisa sempre branquinha, botão até o pescoço, não ficava nas rodinhas, mas falava com todos com sua voz mais melosa. Josias o chamava de maricas, nem ligava, jogava o cabelo e virava a cara. Assim era a garotada, diferentes mas iguais, briguentos, mas de paz. Felizes, acho.

            Na barbearia do Olívio duas cadeiras: uma do patrão outra do empregado, o Bastião. Ganhava comissão, cantava e se acompanhava ao violão nas segundas e terças mais folgadas. Pele escura, meio assim café com leite, sua mãe negra se casara com filho de italiano. A freguesia não tinha preferência, se acomodava na primeira cadeira vazia, toalha de cadarço no pescoço, cabelo “aparado” ou “cheio”. Futebol era o assunto de todos os dias, principalmente nas segundas e sábados. Olívio roxo pelo Palmeiras, Bastião sofria pelo Corinthians. Pênalti, mão na bola, impedido, beque cavalo, ponta direita cruzador, meia-esquerda de tiro certeiro. O time de verde tinha raízes italianas, a maioria peneirada na várzea. O Corinthians do povo, sua estrela Balthazar, o “cabecinha de ouro”. Bola alta na área era dele, direto pra rede. Genaro não aceitava a derrota, “O maledeto tava impedito”, o goleiro parou e tomou um frango. Bastião terminava o cabelo, raspava a barba de espuma branquinha. Ao final, perguntava: Arco ou tarco? “Verva”, respondia Genaro. Cores, times, raízes, famílias, vidas diferentes, não se percebiam as desigualdades. Passava na porta uma dona boa, fiu-fiu coletivo o que acentuava o balançar dos quadris da morena Florinda. “Não é pra seu bico, Bastião, melhor nem olhar”. Gargalhada geral, Genaro tirava a toalha, pagava em cruzeiros e saia assobiando.

            Edvaldo, calça colante, mini blusa, tatuagem na cintura, andar provocante, exige ser chamada Waleska. Passa entre as carteiras, Vanderson estica o pé, ele (a) se ergue, sai gritando, vai à Diretoria e de lá ao Distrito. Homofobia, declara o delegado.

            “‘Negrinho besta, deixe de ser corintiano, o verde é campeão”. Bate boca, direto ao distrito, o Seu Delega enquadra Genaro Neto: Racismo.

            Marianne, neta de Florinda, manicure, perfuma o salão de Olívio Neto.  Pelas formas provocantes, prezando o nome da barbearia, lhe recomenda saias mais longas, e que maneire nos decotes. Vai ao distrito, assina BO. Netinho é processado: Assédio sexual.

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