Antonio Aurélio do Amaral: PRIMO VIVERE DOPO FILOSOFARE.

 

PRIMO VIVERE DOPO FILOSOFARE.

 
Não me lembro que idade eu tinha, não lembro se eu já ia à escola. Lembro de estar sentado (já há algum tempo) no vaso sanitário do único banheiro do apartamento na Avenida São João, onde morava com pai, mãe, irmãs e irmãos.

Sentado lateralmente ao vaso com os braços apoiados na borda de banheira eu observava as gotinhas de água aderidas às paredes quando, após ouvir a voz da minha mãe, vi meu pai abrir a porta (que ficava destrancada) e, não lembro se ele falou algo antes, lembro que lhe fiz uma pergunta que eu considerava MUITO IMPORTANTE naquele momento:
“Pai, a água é formada por uma porção de cisquinhos escorregadios bem pequenos? ”
Foi quando ele disse essa frase marcante em língua estrangeira, que dá título ao texto, sem responder minha pergunta, instando-me a desocupar o único local disponível à filosofia para os membros daquele apartamento;  uma repreensão amigável que me fez finalizar os procedimentos usuais e desocupar o banheiro.

Embora até então eu só conhecesse o significado de “primo” correspondente a filho da tia, pela situação entendi que devia parar de pensar e sair dali; tinha as perninhas meio dormentes, longamente pressionadas contra o assento, uma vez que meus pés ainda não alcançavam o chão.
Infelizmente eu já era meio dispersivo desde criança, querendo entender coisas pouco práticas para a vida imediata.

Por muito tempo continuei sem saber se a água era formada por “cisquinhos escorregadios”; no entanto, a frase PRIMO VIVERE DOPO FILOSOFARE ecoou por muito tempo na minha cabeça sem que eu procurasse saber de quem era.
A lição que meu pai pretendeu me dar, um dia foi enfraquecida por culpa dele mesmo, com o meu entendimento do título de um livro de sua biblioteca: “La física nueva y los cuantos” de Louis de Broglie, assunto que nada tinha a ver com sua profissão ou área de conhecimento. Nunca li esse livro, fui aprender alguma coisa desse assunto aos dezoito anos com minha inesquecível e querida professora de Química, a Carmem*. Uma Cidadã especial.
Optei pela Engenharia para “VIVERE”, mas com ocasionais recaídas no “FILOSOFARE”.

A profissão de Engenheiro de Segurança me faz “filosofare” sobre os mecanismos que nos levam ao “estreitamento de consciência”, podendo ser causa de acidentes e de outros fenômenos. Mas aí eu devo deixar a bola para especialistas.

Minhas modestas conclusões ficam para “consumo próprio”.

*professora do IECC

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