Karnal; você sabe o que significa “programa de índio”?

Programa de  índio

(wilma schiesari-legris)

Anteontem foi o Dia do Índio; havia até me esquecido, mas lendo no Estadão a crônica do Leandro Karnal tive ímpetos de memória e me veio à mente aquilo que aprendi quando entrei para uma importante Escola,  de 57 até 68: o Instituto de Educação “Caetano de Campos”.

Durante minha passagem pelo Jardim da Infância, talvez por ter começado a frequentá-lo com atraso , apenas a partir de maio, nada ouvi ali sobre o assunto, embora em anos anteriores tivesse sido  o Dia do Índio muito comemorado na Escola; minhas parcas referênciaseu sobre o assunto se resumiam  ao cara-pálida, assim tratado nos seriados Zorro, Rin-tin-tin ou Roy Rogers, que eram passados num dos três canais de televisão da época.

Em casa ninguém teve a gentileza de explicar às crianças, que aqueles personagens americanos eram uma caricatura que o colonizador fazia do colonizado; também não nos explicaram que no Brasil, o povo de origem embora  indígena, era diferente dos autóctones norte e centroamericanos.

Durante o 1° ano primário fomos conhecer a Biblioteca Infantil, pilotada por dona Iracema*da Silveira- que não tinha os cabelos negros como os das asas da graúna, – e ela nos fez visitar a ante-sala-de-leitura onde um museu etnológico brasileiro  apresentava  dois cocares de tribos  amazonenses pendurados na parede, doendo no peito da gente  como aquela foto de Itabira* e vitrinas com prateleiras  sextavadas onde eram mostrados uma coleção de adereços usados em rituais, objetos do dia-a-dia, artesanato nativo e tatus* e tamanduás* empalhados.

www.scielo.br

 

A visita foi muda; voltando à classe, tampouco nos foi dito algo.

História Brasileira

Numa das paredes da diretoria, em frente da mesa de dona Corintha, a diretora, jazia  “O último tamoio”, reprodução de uma pintura de Roberto Amoedo; o religioso teria dado ajuda ao moribundo ou ajudado a matá-lo? Nunca o soubemos…

Como fizesse parte do conteúdo curricular, no 2° ano primário aprendemos que os índios viviam nús, adoravam o Sol e a Lua, seu deus era Tupã; viviam eles amontoados em ocas* e eram guerreiros levados a atos de barbárie e canibalismo.

No 3° ano, Brasília saía do solo indígena do cerrado pela porta dos fundos!

Enquanto na televisão Chico Anísio deturpava a imagem do índio, parece que os responsáveis pela “limpeza” da área, mandavam jogar dos aviões não somente material de construção, como cobertores contaminados doados por hospitais estrangeiros…

No 4° ano, aprendemos os nomes das tribos brasileiras, dos afluentes do Amazonas, das estações servidas pelas ferrovias paulistas, tudo de cor e salteado.

Finalmente quando passamos para o curso ginasial pude cantar as transcrições de Villa-Lobos, falando que Anhangá* fugira numa manhã de sol e que Coaraci* também  havia fugido, graças a tenacidade do professor Ruy Cartolano, que nos explicou o sentido do trabalho de pesquisa do compositor no Brasil, como havia feito  Bartok na Europa Central, buscando nas canções populares as raízes de muitas de suas obras.

Na 2a série houve a obrigatoriedade de lermos  José de Alencar, justamente Iracema* e o Guarani, aquela história absurda de Ceci e de Peri montada pelo autor cearense para tapar o buraco da falta de idade média no Brasil, sem a qual  não poderia haver um romantismo local; mas ninguém nos explicou esse detalhe e a garotada preferia ler subliteratura de  M. Delly vendida na Praça da República.

Era 1964 quando entrei para a 3a série; os militares tiraram dos nativos parte das reservas onde estavam confinados e as ofereceram aos empresários privados e às Multinacionais as boas terras do grande lote para o pastoreio em larga escala, e depois aquelas em que fora iniciada a monocultura extensiva da soja.

Em 65 tirei o diploma do Ginasial sem saber grande coisa sobre o que se passava nas reservas indígenas brasileiras; a única coisa positiva era saber que os aviões da FAB, durante as férias, transportavam estudantes pidonhos que estacionavam nas pistas dos seus aeroportos, para os rincões amazônicos.

1966: primeiro ano do curso Normal.

As aula de História da literatura Brasileira faziam parte dos conteúdos preconizados e começamos com o Auto da Vila de Vitória, de José de Anchieta que, para catequizar os nativos, criou essa peça de teatro, onde o cristianismo se travestia de moral e, em nome da Igreja, acabava com os  ritos pagãos dos diversos grupos,…

No 2° ano, vieram aulas sobre a vida dos índios, seus costumes e afazeres; aprendemos então o valor da mandioca* na alimentação daquele povo e a maneira como fabricavam a aguardente (cauim*) com a qual se embriagavam todos: a mandioca era descascada e mastigada pela mulheres, que cuspiam aquela matéria num grande cesto de folhas trançadas onde a fermentação era iniciada através do processo químico provocado pela saliva… enquanto que os homens, uns preguiçosos, ficavam se balançando nas redes!

1968, terceiro ano; nasceu a Transamazônica, cantada em trovas e versos pelos engenheiros militares, longe dos princípios do general Rondon e… round up! – Desflorestamos os derradeiros redutos dos ameríndios, que preferiram tomar os ônibus na rodoviária de Manaus para descerem ao Sudeste onde se proletarizaram ou entraram para a mendicância no Viaduto do Chá!

https://miltonjung.com.br/tag/indio/

Programa de índio!

Felizmente teve um Lévi-Strauss e  uma Betty Mindlin que fizeram no Brasil alguma coisa de bem para esse povo sofrido!

Os dias incômodos

Leandro Karnal

19 Abril 2017 | 02h00(OESP)

Hoje é Dia do Índio. A data foi instituída por Getúlio Vargas em pleno Estado Novo e, no Brasil, tem a idade da CLT: 74 anos. Havia um tom celebrativo nesse dia na minha infância. Em vez de uma reflexão sobre as terras indígenas e a situação contemporânea do mundo original das Américas, nós catávamos penas do espanador das mães e assumíamos uma identidade mais apache ou sioux do que a de algum grupo do Cone Sul. Nossos indígenas eram os do cinema e era dia de saber que palavras como pitanga ou Anhangabaú tinham matriz indígena. Depois, o mundo indígena era soterrado pelo resto do ano letivo.

Nos livros didáticos de história, há um capítulo inicial sobre os povos indígenas que aqui estavam quando os portugueses começaram a colonização. Com raras exceções, os indígenas desaparecem do conteúdo escolar para sempre. Se a ministra Cármen Lúcia constatou que as mulheres têm apenas um dia, o Dia do Índio é ainda mais exíguo.

Comparativamente aos debates que ocupam os jornais no Dia da Mulher (8 de março), Dia do Orgulho Gay (28 de junho) e Dia da Consciência Negra (20 de novembro), os debates sobre indígenas e suas culturas são muito menores. A pressão pela representatividade de mulheres e negros num governo ou até numa propaganda é imensamente mais forte do que pela presença indígena. De muitas formas, todos os grupos que citei (e outros que não trouxe ao debate) são alvo de violências, ataques, preconceitos e piadas. Porém, o menos amparado pela opinião pública é o indígena.

Houve um tempo em que o lema da colonização norte-americana do Oeste era forte aqui também. “Índio bom é índio morto” foi ideia atribuída, sem muito suporte documental, ao general Philip Sheridan (1831-1888). Ele sempre negou ter dito isso.

A necessidade de exterminar povos indígenas começou por aqui antes dos colonos do norte. Numa das campanhas genocidas mais impactantes da história do Brasil, levada adiante por nosso terceiro governador-geral, Mem de Sá, houve a destruição de mais de duas mil aldeias. O que a espada e a pólvora não conseguiram realizar as epidemias completaram. Indignação na colônia? Seria até anacrônico o sentimento. Houve júbilo e até celebração poética em latim. De Gestis Mendi de Saa (Os Feitos de Mem de Sá), do Padre Anchieta, celebra em milhares de versos o acontecimento contra os indígenas e franceses. A obra também colabora para cristalizar a versão de que nosso primeiro bispo, dom Pero Fernandes Sardinha (1495-1556), tenha sido devorado por indígenas caetés. Importante registrar que o caos pode ter sido criado para justificar campanhas de extermínio contra grupos indígenas.

O massacre estendeu-se por toda a era colonial e, de muitas maneiras, intensificou-se no século 19. O indígena histórico e distante era celebrado no poema I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, ou nos romances O Guarani e Iracema, de José de Alencar. O indígena real era assassinado e suas terras ancestrais, usurpadas. Vozes pacifistas, como a do Marechal Cândido Rondon, eram minoritárias no início do século 20. A tônica continuou sendo a do general Philip Sheridan. Estudos recentes mostram que o discurso da mestiçagem e o de transformação de aldeias indígenas em vilas durante o período imperial ajudaram a diminuir ainda mais as luzes sobre os indígenas vivos. Um novo sobrenome e o estatuto da cidadania liberal punham a identidade indígena de lado.

Em pleno século 21, com aguçamento das sensibilidades na luta contra a violência que mata mulheres, negros e gays, os povos indígenas não conseguem o mesmo espaço nos jornais ou nos movimentos sociais, especialmente nas grandes cidades. Um menino caingangue, Vitor Pinto, morre brutalmente sem alarde em Chapecó. Conservadores consideram indígenas preguiçosos, um obstáculo ao crescimento racional da economia de tipo capitalista, como ficou claro no conflito na Raposa Serra do Sol entre arrozeiros e indígenas de cinco etnias que lá vivem.

O silêncio também é na aparência. A mancha mongólica, sinal de ancestralidade asiática (e como tal, base da indígena), é muito comum no Brasil. Muitos brasileiros possuem genética indígena, mas, como a mancha mongólica desaparece com o tempo e a presença de genética de origem africana ou europeia é mais marcante em alguns sentidos, a própria identidade da aparência polariza-se entre diálogos negros e brancos. Apesar de a lei não dizer isso, a mentalidade brasileira considera que o racismo é o sentimento negativo de exclusão e interiorização de afrodescendentes e não de qualquer restrição quanto a origem e aparência de uma pessoa. Desconheço (talvez exista) um caso vitorioso de processo jurídico contra alguém que tenha manifestado ideia ou realizado ação restritiva e depreciativa contra indígenas.

Sobre a mesa da sociedade brasileira há várias contas a saldar. São carnês vencidos que mostram dívidas antigas. Algumas, como a dívida contra a misoginia, começam lentamente a incomodar o proprietário. Ele olha para o carnê e diz que talvez, em breve, começará a pensar no caso. O boleto da dívida indígena, apesar de ser o mais antigo, o que acumula mais juros e dor, nunca foi, nem vagamente, cogitado como passível de pagamento. Por enquanto e por muito tempo, é o incômodo Dia do Índio. A imensa riqueza das culturas indígenas, a quase infinita variedade linguística (em risco) e a luta pela terra em disputa com pecuária ou garimpo são algo impactante até hoje. O que responderia a egrégia ministra Cármen Lúcia se, além de mulher, fosse indígena? Boa semana a todos.

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Uma resposta para Karnal; você sabe o que significa “programa de índio”?

  1. Maria de Lourdes Baeta disse:

    Wilma por favor responda meu mail!
    Maria

    Envoyé à partir de mon Windows Phone
    ________________________________

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