A difícil arte da generosidade, por José rento Nalini.

18/04/2017
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A difícil arte da generosidade

O século 21, que o sociólogo Domenico de Masi nos acenara como se fora o período feliz do ócio pra­zeroso, com redução ao mínimo das horas de trabalho e sobra para o deleite artístico, o entretenimento ou mero ócio, na verdade oferece um quadro bem diver­so. Não só o tempo é cada vez mais escasso – há quem acredite que o movimento de rotação da Terra foi ace­lerado –, como agora se trabalha mais. Muito mais.

Enquanto o século passado enfrentou duas gran­des guerras e no consequente discurso a humanidade abominou a solução cruenta para os conflitos, nestes tempos que correm continuam as agressões, os aten­tados, o terrorismo, o uso de armas químicas e nu­cleares. Roncos fortes de nações que fazem questão de proclamar sua soberania e se consideram imunes, embora patente sua vulnerabilidade.

O fundamentalismo cego não hesita em matar inocentes. Crueldade difusa, no cenário macro e no ambiente micro. Mesmo quando desnecessário o uso da maldade para a obtenção de resultados ilícitos, não existe pudor ou escrúpulo, de parte dos infratores, no abuso da força ou na manifestação impiedosa dos mais inferiores instintos.

O diagnóstico para esta sociedade mundial en­ferma é também plural, pois os consensos são raros. Inegável o reconhecimento de que os valores desapa­receram ou estão em acelerado declínio. As institui­ções estão frágeis e a fragmentação de pilares como legitimidade, comprometimento e pertencimento gera um clima de angustiante perplexidade.

Não adianta fugir ao real. A crueza está à espreita. Ninguém pode estar seguro sobre o porvir. Os prenún­cios não são animadores. Ainda assim, é urgente reagir.

Como é que se enfrentam dias plúmbeos?

A conversão há de ter início no tribunal inevi­tável da consciência. Mentes sensíveis não se podem sentir desobrigadas de procurar caminhos. O espaço em que a cada ser humano foi conferido vivenciar sua aventura terrena pode ser melhor se houver foco, determinação e vontade. Não é suficiente a intenção proclamada e não concretizada em ação. Mas toda e qualquer atuação no sentido do bem é parte impres­cindível do resgate da esperança.

Ser humano algum poderá ser feliz, estar inteira­mente em paz consigo mesmo, se permanecer isolado ou circunscrito ao pequeno círculo de sua intimidade. Tudo o que acontece ao redor afeta o rumo e o ritmo de nossa trajetória. Enquanto existir um semelhante excluído, a sofrer injustiça, sentir aflição ou dor, não haverá descanso para quem se considera humanista e leva a sério o respeito à dignidade da pessoa humana. Esse o supraprincípio norteador de nosso ordenamen­to, balizador de todas as condutas, sejam públicas, se­jam as atinentes à vida privada.

A implementação desse comando fundante – encarar cada ser humano como pessoa revestida de ínsita dignidade – não necessita de escala para valer. Ele é bastante em si. Não se está a falar em grandes heroísmos. São suficientes pequenos gestos. Mas di­recionados ao mesmo alvo. Basta a singeleza da boa vontade, fruto de uma reflexão consistente. Qual é o nosso papel no curto lapso que nos é dado permanecer sobre a face da Terra? Temos uma missão a cumprir ou somos objeto de um fatalismo inconsequente, que nos condenou a nascer neste país, nesta época, nesta família e nas demais circunstâncias que nos condicio­nam e limitam?

Dentro da esfera de abrangência que as circuns­tâncias nos reservaram, o que depende de nós para ser mantido ou para ser modificado nas estruturas do pen­samento, que direcionam nossos hábitos? Temos uma esfera de liberdade para tentar transformar uma parce­la do mundo, ainda que pareça insignificante, como o nosso próprio destino?

Há muita coisa que um indivíduo pode fazer para reduzir, ainda que em pequena dimensão, a enor­me carga de atribulações que onera todos os viventes. Alguns destes, muito mais penalizados do que outros.

Pense-se no compromisso extraível de uma con­cepção formulada pelo constituinte de 1988, a respei­to da mais séria questão posta à consideração dos bra­sileiros. A educação!

Direito de todos, educação é dever do Estado e da família, em colaboração com a sociedade – arti­go 205 da Constituição da República. Ninguém está excluído de participar desse processo redentor e es­sencial à solução de todos os problemas brasileiros. Absolutamente todos! Violência, emprego, saúde, am­biente, moradia, tudo encontra resposta satisfatória se houver adequado preparo das novas gerações.

Todos nos situamos numa destas três esferas de responsabilidade: ou somos família, ou somos Estado, ou somos sociedade. E temos obrigações explicitadas pelo constituinte para com as crianças e jovens.

Por que não dispor de algum tempo, por menor que pareça, para acompanhar o desenvolvimento do aprendizado de um só estudante? Por que não partici­par do projeto Escola da Família, que aproxima o nú­cleo familiar e a comunidade da escola pública, centro de convergência dos superiores interesses daquele es­paço de convívio?

Há pessoas e entidades privilegiadas que usu­fruem o êxito propiciado pelo mercado e poderiam fazer mais do que outros. Todavia poucos são os que, embora nessa condição, respondem positivamente ao convite de participação na vida escolar. Os que aten­dem podem testemunhar que em regra recebem mais do que ofertam. Saber-se importante para transformar o destino de um educando é prêmio significativo para os homens de boa vontade, que já foram chamados no decorrer da História a acolher a verdade e mudar a rota do individualismo egoísta.

Se o século 21 não nos presenteou com a dis­ponibilidade plena do tempo nem trouxe a merecida ampliação das oportunidades de prazer, não nos pri­vou do exercício da generosidade. Arte maior, virtude fundamental para validar uma vida e para ressignificar a frágil e efêmera passagem de cada pessoa por este vale de lágrimas.

 

Fonte: Estadão.com | Data: 18/04/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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