13 de maio de 1888…

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Queridos leitores;

antes que comecem a leitura do artigo do Leandro Karnal publicado no Estadão do dia 10 de maio de 2017, deixo-lhes aqui alguns lembretes.

A libertação dos escravos no Brasil em 1888 não foi um ato humanista e sim um acerto de contas político econômicas da Inglaterra, o país mais rico no mundo, do Império Britânico,  durante o século XIX.

Em plena Era Vitoriana, os bens de consumo eram ali fabricados e exportados principalmente para Portugal e, acessoriamente ao Brasil, em troca do vinho do Porto.

As máquinas pesadas igualmente exportadas, principalmente ligadas à ferrovia e aos transportes precisavam de compradores; somente para falar da maior fazenda de café do Estado de São Paulo, de propriedade da família Santos Dumont,  contava no seu interior (propriedade privada) uma estrada de ferro com 60 Km de extensão.(sessenta quilômetros – é isso mesmo!)

Outros cafeicultores brasileiros também beneficiaram daquele progresso pois a malha ferroviária do Estado de São Paulo cresceu naquele momento; na capital do Império, o industrial conde d’Eu, genro do imperador, modernizou o transporte no Rio de Janeiro com a construção da estrada de ferro Leopoldina Raiways… em troca de café!

Evidentemente, os ingleses chegaram com a lorota da libertação da escravidão, enxergando no escravo liberto o assalariado que compraria os bens de consumo por ela produzidos, aumentando exponencialmente suas exportações.

Os senhores de escravo, entretanto, não pensaram jamais em utilizar a mão-de-obra que lhes fora praticamente gratuita noutro estatuto qualquer.

Enrolaram tanto que a Abolição foi uma ópera em 3 Atos:

1- com a Lei dos Sexagenários, que na prática servia para colocar de lado o escravo ancião, incapaz de fazer trabalhos pesados e à beira do túmulo, gerando ainda mais lucro ao seu proprietário;

2- com a Lei do Ventre-Livre, libertando os recém-nascidos que sobrevivessem e que deveriam atingir, pelo manos a infância, para servir de mão-de-obra; digamos que a “lei” empurrou com a barriga uma população inativa por força da pequena idade.

3- com a Lei Áurea, que a Redentora assinou, encalacrada pela diplomacia inglesa.

Ora; os escravos libertos não tiveram nenhuma proteção social no Brasil e se amontoaram nos quilombos e favelas, sem quaiqueres direitos. Era uma época cujos  primeiros sociólogos, principalmente apoiando a colonização africana do Império Britânico, encontrou meios de construir uma imagem negativa do homem negro, para consolidar a sua dominação naquele continente.

O Brasil querendo “embranquecer” a população mais tarde, com as teorias de Nina Rodrigues, fez apelo aos países “brancos”, “convidando ” italianos e alemães (e depois os japoneses) em grande dificuldade para sobreviver, para substituir o trabalho escravo desde que fora proclamada a Lei Áurea.

Para a Inglaterra foi o começo das perdas comerciais: a maioria dos escravos libertos vivia numa penúria sem par, e os imigrantes europeus e japoneses, num primeiro tempo,  não tinham meios para consumir produtos importados de objetos usados no seu dia-a-dia.

A “libertação ” dos escravos empobreceu ainda mais os negros; em compensação, os imigrantes destinados ao trabalho da terra, sem nenhuma vocação de serem tratados como escravos, pouco a pouco saíram daquele esquema que se queria lhes impor: muitos tendo exercido o trabalho artesanal na Europa e sendo proprietários de suas ferramentas começaram a fabricar utensílios domésticos, móveis e maquinários que, evoluindo, se tornou a verdaeira razão da industrialização no Brasil.

Obrigada pela leitura.

Abraços livres,

wilma 13/05/2017.

 

 Pinterst

Houve escravidão no Brasil?

Um dos grandes mitos nacionais: o caráter benigno da escravidão tupiniquim

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

10 Maio 2017 | 03h00

No próximo sábado, chegaremos aos 129 anos da abolição da escravidão. A data era a efeméride desejada pela elite brasileira, pois mostrava a Lei Áurea como um gesto da generosidade da princesa Isabel. Católica, a princesa de olhos claros, com uma penada, redimira uma raça. Sua frase ousada era lembrada nos textos didáticos antigos: sob o risco de perder o trono pela iniciativa, Isabel teria respondido que, se mil tronos tivesse, mil tronos daria para libertar os escravos do Brasil.

Quando eu estava na quarta série do então primário, a professora comentava o 13 de Maio afirmando, com segurança, que a maioria dos negros gostava tanto dos seus donos que permaneceram nas fazendas mesmo após o domingo da libertação. Claro, professora e alunos éramos todos brancos e felizes que, afinal, a escravidão não era assim tão terrível e tínhamos uma certa felicidade em pertencer a um país sem atritos graves e destituído de terremotos. Esse foi um dos grandes mitos nacionais: o caráter benigno da escravidão tupiniquim.

A escravidão foi uma violência sem precedentes. A barbárie do transporte, a desumanização, a violência de grupos negros que capturavam outros africanos e de brancos dos navios tumbeiros. O leilão, o transporte interno, a introdução no universo do trabalho escravo: tudo se revelava um genocídio de milhões de seres humanos.

 

A instituição do trabalho escravo é tão forte no processo histórico nacional que, em 2017, ainda dialogamos com a herança derivada. Considerar o racismo um crime inafiançável, mesmo sendo um imenso avanço jurídico na luta pela cidadania, é também prova da intensidade do sentimento entre nós. Avanço das leis em resposta a uma consciência presa ao mundo da casa grande e da senzala: esse o fato objetivo e direto de uma sociedade que ainda incorporou pouco a ideia da igualdade.

A escravidão é um fato e é uma memória. O interessante da memória é que ela incomoda há muito tempo. O Hino da República, que quase foi escolhido como novo Hino Nacional Brasileiro, dizia num verso pouco cantado hoje: “Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país”. Outrora… O hino foi publicado no Diário Oficial menos de dois anos após a abolição do trabalho compulsório negro. Seria como alguém dizer que não acredita em algo que ocorreu antigamente, em 2015… Há uma tendência de se negar o passado, porém, normalmente, os negadores esperam passar um número respeitável de anos antes de sepultarem um fato. O Hino da República, no seu impulso político de associar o Império à escravidão e ao atraso, esperou bem menos.

Existe um princípio em História e em jornalismo: devemos contrapor fontes, checar e também escutar “o outro lado”. Isso é fundamental para discutir temas clássicos e espinhosos. Porém, como já debati com colegas da imprensa, há fatos que não possuem o outro lado. Não existe o ponto de vista do estuprador ou do nazista ou, pelo menos, não é um ponto de vista válido. Não existe a versão do traficante de escravos ou do escravocrata da lavoura. Não pode existir o argumento do homem que chicoteia seres humanos ou do racista. O limite de todo relativismo é este: a ética e a lei. Não se podem equiparar versões quando existe um crime hediondo e vítimas.

De tempos em tempos, o pensamento conservador erige descobertas como novidades absolutas. Já citei antes, mas trazer à tona o fato de que tribos litorâneas colaboraram com o tráfico parece indicar algo do estilo: bem, se é assim, a culpa europeia e branca deve ser bem menor. Da mesma forma, identificar que nazistas usaram mão de obra da Letônia e da Ucrânia como guardas em campo de concentração deveria indicar que o nazismo não é tão reprovável. A extensão do número de criminosos não diminui o crime e a dívida histórica continua. Tais argumentos são formas de neorracismo e não nascem de um esforço historiográfico e de pesquisa, mas de um esforço contemporâneo de negar políticas afirmativas como cotas. Amnésia e memória seletiva são recursos interessantes. Em tempo de “escola sem crítica”, nada impede que, em breve, o hino republicano passe a ser axioma histórico: nós nem cremos que escravos outrora tenham existido por aqui… Escravocratas de ontem e de hoje não são o outro lado que deve ser ouvido, são criminosos que devem sofrer os rigores das penas constitucionais. Liberdade de expressão não pode incorporar apologia ao crime. Racismo é crime: simples e direto. A memória deve trazer à tona nossas angústias, jamais encobrir desvios.

Velho axioma de Clemenceau, líder francês ao refletir sobre como os historiadores tratariam a Grande Guerra no futuro: ele esperava que nunca se dissesse que a guerra começou com a Bélgica invadindo a Alemanha. Nos dias que correm, temo que novos livros didáticos “neutros” mostrem como negros escravizaram negros, depois transportaram em navios de traficantes negros para as Américas e venderam negros aos grandes latifundiários negros do Brasil, apesar dos protestos imensos da oprimida população branca no cais do Valongo.

Você pode ser conservador, liberal, socialista, anarquista ou qualquer posição do espectro; só não pode ser racista. Isso é coisa de radical? Para mim é apenas coisa de quem leu a Constituição de 1988 e que sabe que o presente é carregado de passado. Boa semana a todos vocês.

(http://biblioafrogriot.blogspot.com/2009/
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