Nosso colega Renato Castanhari Jr volta ao blog!

A PODA

Seu José era um jardineiro que fazia de tudo, cuidava do jardim, da árvore, dos vasos. E se precisasse cuidava da piscina, da torneira que pingava, da lâmpada que não acendia, da porta que não fechava. Não parecia ter tido estudo, na sua época o foco não era esse, era entrar logo na lida, ajudar os pais, na roça, onde fosse preciso. Nas minhas caminhadas, trombava com o seu José sempre, cuidando do jardim de um, pintando o portão da garage do outro. Sempre com o seu chapéu de palha, pitando o cigarro enrolado por ele, focado no serviço. E proseando quando estimulado.
Passei por ele, dei o costumeiro “bom dia”, mas minha expressão não devia estar de bom dia, não. Ele tirou o cigarro de palha da boca e me inquiriu, com as sobrancelhas franzidas.
– Pelo jeito num tão bão não.
Dei o meu primeiro sorriso do dia, agachei ao seu lado e dei um tapinha nas costas dele.
– Esse é o seu José, olhar preciso!
– Hehe… com a minha rodagem, não é difícil sabê, basta oia, hehe…
– A coisa não fácil, seu José, ando desanimado, cheio de problemas. Difícil.
– Sofrendo?
– Muito.
– Que bão!
– Como que bão, seu José?? Não quero sofrer, quero ser feliz!
– Ser feliz é ser bão, fazer o bem. Sofrer faz parte da estrada, faz a gente pensar, buscar uma saída, correr atrás. Se tudo bão, a gente acomoda, senta no pudim, deita na rede.
Fiquei olhando para ele, para aquele rosto cheio de rugas, mas de olhar vigoroso, vivo. Ele continuou, me mostrando a tesoura de podar.
vendo isso? Vou usar aqui na planta.

– Pronto, cortei ela. Matei ela?
– Não.
– Fiz ela sofrer, cortou, deve ter doido. Mas só depois de podada é que ela volta a crescer forte, bonita, com mais vida. Quando eu cortei ela gostou? Acho que não, se eu pedisse dá licença, ela não ia . Eu cortei, porque eu sei que é melhor pra ela. Quem te mandou esse seu sofrimento sabe que é melhor procê.

Ficamos ainda alguns minutos proseando. Eu de pé, bermuda, tênis, boné, seu José agachado, chapéu de palha e tesoura de poda cuidando do jardim, falando do efeito do sofrer.
O sofrimento e o seu propósito, não aquele que salta aos olhos, de nos jogar para baixo, mas o de provocar um movimento nosso, íntimo, que estimula uma reação, de buscar alguma forma de acabarmos com ele. Para alguns, o sofrimento apenas nos joga para o fundo do poço. Para outros, o sofrimento empurra para uma mudança e é nessa hora que crescemos.
O sofrimento nos aprimora, gera grandeza, não a dor. A dor é efeito colateral da poda. A poda que nos faz mais fortes.

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