Pasternak precisa ir ao Brasil.

(wilma schiesari-legris)

Se eu citar aqui o nome de um jovem cineasta argentino que em 2014 teve o seu filme « Les nouveaux selvages » (« Relatos selvagens », nas telas argentinas) selecionado para a competição do 67° Festival de Cannes e  nomeado aos Oscars de 2015, talvez nem todos vocês  o conheçam.

Pois bem : trata-se de Damián Szifron e uma das sete historietas daquele seu filme está rodando na minha cabeça desde que começaram as discussões jurídicas que acontecem em Curitiba e no Planalto Central.

Les Nouveaux Sauvages é um filme que narra um conjunto de histórias onde a barbárie consegue ultrapassar o estado individual de humanidade de uma pessoa qualquer decepcionada socialmente, seja no seu microcosmos, seja com o sistema do seu macrocosmos.

A primeira das narrativas leva o nome de « Pasternak » e, à primeira vista,  nada tem a ver com o autor do livro  O Doutor Jivago, cujo romance se passa durante a Revolução de 1917, quando o Império Russo é substituído pela União Soviética.

Talvez as metáforas utilizadas  em « Pasternak » , sejam a única razão para  que o personagem principal  assim tenha sido batizado.

O leitor que não assistiu a essa maravilhosa obra  de Damián Szifron merece um resumo :

Pasternak é um homem machucado pela existência e, mesmo tendo sido psicanalisado por longo tempo, não conseguiu dissipar os traumas da infância, adolescência e da vida adulta.

Inteligente, ele organiza anonimamente uma viagem-surpresa (maravilhosa) com todos os seus detratores,  convidando-os para  um encontro inesquecível, cada qual com a sua passagem de avião devidamente  em mãos.

Se não me falha  a memória, a película  tem seu primeiro plano já na cabina de avião quando um homem tentando arrumar a bagagem de mão antes da decolagem do aparelho começa a trocar umas palavrinhas com a sua companheira de assento e, acostumado a ouvir, fica sabendo que ela também foi a feliz ganhadora do périplo aéreo.

Psicanalista de profissão, ele escuta calado; não  a toa que um analista  passe sete anos em aprendizado psicanalítico e saiba construir hipóteses,  teses e, rapidamente, tire conclusões sobre o que diga um paciente deitado no seu  divã ou poltrona e, seguindo os elos narrativos,  possa concluir que Pasternak faz parte da vida de ambos.

Incomodado com a coincidência, inquere outros passageiros à sua volta; à aeromoça que passa pelo corredor da cabina, pergunta-lhe se ela conhece alguém chamado Pasternak.

Confusão  a bordo: Pasternak era conhecido de todos os contemplados  presentes!

Apenas a aeromoça não era do seu meio privado, embora, dissesse ela, que acabara de conhecer Pasternak , o piloto do avião,  irremediavelmente fechado no  cockpit do aparelho.

O psicanalista nervoso e desesperado tentou um diálogo com o seu ex-psicanalizando, cada qual separado pela porta do cockpit. Chegou até a dizer ao antigo paciente que suas frustrações eram marcas da infância, frutos de um processo revelado pela atuação nefasta de pais incúrios  e que, os demais passageiros não tinham nada a ver com seus traumas atuais.

Provavelmente  tratava-se de um analista freudiano; um bom analista; o piloto era igualmente excelente comandante de bordo,  tanto que  Pasternak terminou a inesquecível  odisseia explodindo seu avião no jardim da propriedade  paterna, exatamente na hora em que os “seus  velhos” costumavam diariamente, ali, a tomar sol.

Por que, mesmo, eu resolvi lhes contar essa história?

 
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