Renato Castanhari Jr. de volta, CORTANDO CAMINHO.

CORTANDO CAMINHO

Trânsito parado, atrasado para a reunião, olho para o cruzamento à direita pensando numa alternativa de cortar caminho e reduzir meu atraso.
Cortar caminho. Tem hora que é a única alternativa que resta para não perder mais tempo. Enquanto a gente pensava em cortar caminho apenas dos nossos trajetos de ir e vir, tudo bem, racionalizar sempre é bom. Mas parece que estamos nos especializando na “cultura” do corte de caminho. Cabral foi o primeiro que pensou em cortar e caiu aqui. O Xará dele está preso de tanto cortar caminho, sangrar as contas públicas e encher o bolso.
Cortar caminho nos estudos, na escalada profissional, nas conquistas pessoais, até mesmos nos games que jogamos nas horas vagas.
Em uma maratona de Sioux, EUA, um sudanês venceu a prova quebrando o recorde do percurso. Venceu? Não. Os fiscais desconfiaram do tempo da prova, checaram e descobriram que ele cortou caminho. Vitória cancelada. Mas nem sempre existem fiscais. Ainda bem. Para muitos, mais ainda bem ainda!
Na década de 90 havia um game chamado DOOM, onde você enfrentava monstros, barris com lixo tóxico e mais uma série de desafios em meio a labirintos, áreas secretas, para finalmente encontrar o “Exit” e passar para a próxima fase, sem morrer, claro. Até que um hacker desenvolveu uma senha que burlava o jogo e dava imortalidade ao jogador. Game zerado, cortando caminho. O mérito? Era apenas um jogo, diversão sem importância.
Atualmente existe, ainda, um outro game, que mescla o virtual com o real, Pokémon Go. Uma criação complexa, genial, que tem como princípio básico fazer com que o jogador saia de casa para jogar. Para isso, faz uso de alta tecnologia, Google Map, coordenadas de GPS, ginásios virtuais para combate, caça de Pokémon pelas ruas da cidade, tudo junto e misturado, em uma concepção realmente incrível, repleta de detalhes e elementos gráficos, sonoros, brilhante. Mais uma vez surge um hacker que burla o jogo, quebra as regras, permite que você jogue de sua casa e cace os Pokémon na sua cidade ou em qualquer cidade do planeta, entre outras coisas. Mérito das conquistas no jogo, passagem de fase, index de Pokémon completo? Nenhum. Mas todo mundo está cortando caminho, “se você não fizer vai ficar pra trás” e é apenas um jogo, diversão sem importância, dizem novamente os que burlam as regras.
Aí, a gente tira os olhos dos games e abre os olhos para este país, completamente derrubado eticamente, moralmente. Um país que jogou por terra todos os princípios de conduta, de cumprimento às regras ao ser comandado por verdadeiras quadrilhas de cortadores de caminho.
Cortadores de caminho eleitos democraticamente por nós. Cortadores de caminho que focam apenas as suas necessidades de conquistas, não importa o “como”. Cortadores de caminho que visam chegar aos seus objetivos da forma mais direta e rápida possível. Cortadores de caminho que se justificam dizendo que está todo mundo fazendo e quem não faz é que é idiota. Cortadores de caminho que ainda conseguem ser defendidos pelos partidários de escudo, de camisa, de seita. Cortadores de caminho que dizem não saberem de nada, mas que se comprometem delatar, os até então companheiros, por alguma contrapartida.
Aí, a gente chega à conclusão que cortar caminho neste país é a regra.
Cortar caminho neste país faz parte da índole, do DNA. Afinal, só um povo corrupto tem um governo corrupto.
Mas tudo bem, é apenas um jogo. Mesmo que seja o jogo da vida.

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