Corte moderno – 2

 

Queridos leitores;

nestes tempos de perda temporária de visão, com restabelecimento previsto para setembro, tenho feito apelos a vocês para que colaborem com artigos, fatos e fotosdestinados ao blog.

Jéthero Cardoso já prometeu colaborar e, José Manzano nos enviou as crônicas de seu irmão Francisco de Paula, que também foi caetanista nos anos 60; aliás, os três meninos e as três meninas Horta Manzano frequentaram os bancos da nossa Escola.

São seis crônicas que,  publicadas diariamente, trarão a prova que as aulas de português do Instituto de Educação Caetano de Campos serviram para que nós todos pudéssemos nos expressar com criatividade e clareza.

Não lhes contei ainda, mas tenho uma perna engessada para melhorar a situação!

Abraços desfocados e mancos,

wilma.

05/07/2017.

Corte moderno

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Lá pelos idos anos 70, eu não poderia ser considerado exatamente um fã de visitas ao barbeiro, a quem hoje chamam cabeleireiro. Nos dias de hoje, moderninhos toda a vida, ainda existem os salões de barbearia, que só atendem a homens e os salões de beleza, que dão atendimento a mulheres. Há ainda os chamados unisex, que eu não imagino a quem atendam. Coisas dos tempos.

Naquela época, eu ia a um salão de barbeiro lá muito de vez em quando, geralmente quando minha mãe ameaçava me deserdar, ameaça que só fui descobrir muito tempo mais tarde não ser verdadeira, pois nunca houve herança nenhuma. Mas, na época, funcionava sempre.

Enfim, era até interessante quando eu ia cortar o cabelo. As más línguas diziam que eu ia, na verdade, podar os cabelos. Intriga apenas. Eu ia cortá-los mesmo. Mas era, de fato, interessante. Meus sobrinhos, pequenos àquela época, ficavam ansiosos esperando por minha volta, na esperança de ter sido encontrado algum dos carrinhos de brinquedo deles em meio a minha longa e farta cabeleira enfim cortada (ou podada, se preferirem).

Mas os tempos mudaram. Hoje eu vou frequentemente ao barbeiro e desconfio que ele só trocou de carro este ano graças a minhas repetidas visitas. Agora ando torcendo para que ele troque a tesoura, que já não corta mais nem água. O pente ainda é um daqueles Carioca, banguela de alguns dentes. Calculo que deve datar de quando ele (o barbeiro) ainda era mocinho. Agora ambos são velhinhos, o barbeiro e o pente.

Ainda na semana passada, fiz minha mais recente visita ao salão. É um salão antigo, tradicional. O barbeiro é velhinho, já sofreu derrame e treme muito, justamente com a mão direita, o que, para quem não o conhece, pode assustar um pouco, uma vez que ele é destro. Mas, por hábito, após frequentar o mesmo lugar por anos e anos, confesso que me afeiçoei ao profissional e talvez até sentisse falta dele se um outro mexesse em meus cabelos sem que a mão tremesse. Acharia muito estranho.

O salão é uma festa permanente com todo aquele pessoal que vai apenas para conversar, contar piadas, contar mentiras, fazer hora. Uma opção inclusive para aqueles que querem chegar um pouco mais tarde em casa, fugindo da sogra. E eu lá, ajudando o seu Antenor a trocar de carro. Assim é o salão O Pente de Ouro. Luxuoso, não se pode dizer que seja, mas pelo menos nome pomposo, isso com certeza ele tem.

Barbeiro 2Em minha mais recente aventura (é literalmente uma aventura) n’O Pente de Ouro, cheguei, cumprimentei todos os presentes, um a um, e levei certo tempo até descobrir quem realmente esperava para ser atendido e quem apenas se escondia da sogra.

Depois de algum tempo, consegui finalmente sentar-me na cadeira para ser atendido. Tirei meus óculos e meu aparelho de surdez. As pernas não tirei porque, por enquanto, ainda são minhas mesmo. (E procuro aproveitar bem enquanto elas ainda o são!) Estava pronto para ser atendido. Eu disse que queria que ele desse apenas uma aparadinha. Ele perguntou se eu não gostaria de um corte mais moderninho, uma coisa assim mais ou menos entre Ronaldinho e Chico César quem sabe. Eu agradeci pelo oferecimento, mas insisti que queria apenas uma aparadinha.

Já sem meus óculos, portanto, sem ter como enxergar a mim mesmo no espelho, ainda tive a cadeira virada de tal forma que fiquei de costas para o dito. Cá entre nós, comecei a sentir um certo temor naquela hora.

Ele me perguntou alguma coisa sobre como deveria cortar na parte de trás da cabeça, mas eu, já sem aparelho para surdez, não entendi direito e, antes que eu pedisse para repetir a pergunta, ele empurrou minha cabeça para a frente, forçando o pescoço para baixo, de forma que eu não consegui mais falar. Mesmo que falasse, não seria ouvido daquele jeito.

Barbeiro 1

E ele continuava a cortar, fazendo pequena pausa a cada duas ou três tesouradas para olhar para o lado, segurando o pente e a tesoura no ar, enquanto fazia algum comentário em voz muito alta e animada com o pessoal que estava por lá. Ele conversava, a prestação, sobre futebol, mulher, sogra, política. E fofocava, coisa que a gente acha que só ocorre em salão de mulheres. Assim continuou até que eu percebi que ele se afastou um pouco de mim, foi até perto do colega, barbeiro da cadeira ao lado, e cochichou alguma coisa enquanto os dois olhavam para mim. Percebi um movimento negativo da cabeça de um dos dois, não soube definir qual deles – os dois eram apenas vultos para mim, sem óculos naquela hora. Aquilo me causou um mau pressentimento. Mesmo assim, continuei firme em meu lugar.

Quando ele voltou para continuar o corte moderninho, percebi que não falava mais com o pessoal do salão. Agora se concentrava no trabalho como deveria ter feito desde o início. Apenas dava algumas tesouradas, assim meio no ar, como se tentasse aparar um pouco mais aqui e ali, parecendo não saber mais onde deveria cortar.

Não demorou muito até que ele fez minha cadeira voltar à posição inicial, de frente para o espelho. Quando finalmente consegui pôr meus óculos, dei-me conta de que minha cabeça estava com uma aparência muito semelhante a, eu diria, uma pizza calabresa com orelhas…

Só após reposicionar meu aparelho de surdez consegui ouvir a voz dele, agora baixinha, meio sem jeito, me dizendo que, com aquele sol todo de verão, seria aconselhável eu usar um chapéu bem grande para me proteger. Considerando o corte que ele havia feito, ficou patente que a sugestão do chapéu era para me proteger, sim, não do sol mas do ridículo. Com certeza.

Era uma daquelas situações em que você percebe logo que o melhor que tem a fazer é resignar-se e ficar quieto, pois não vai adiantar nada dizer ou fazer o que seja. Definitivus est.

Despedi-me e ainda agradeci. Tive dificuldade em fazê-lo aceitar o pagamento. Ele deve ter achado injusto deixar-me pagar por aquilo. Para minha tristeza, eu estava a pé e assim voltei para casa. Agradeci a Deus por não ter encontrado nenhum conhecido pelo caminho.

Agora, caso precisem de mim, continuo em casa tentando descobrir onde foi que guardei o chapéu que usei no último baile do cafona a que compareci, muitos anos atrás, mas que agora vai ficar até bonitinho em meu cocuruto. Pelo menos até eu conseguir consumir um pouco da cobertura da pizza. Aceita uma linguicinha?

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), caetanista, foi escritor, cronista e articulista.

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