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   Minicontos

                                                                    Raul Machado

 

                                  GATO FELIZ

 

        Permita, caro leitor, que eu fale de meu gato, antes que a tragédia

        ecológica extinga toda a espécie felina.

        É preto apanterado de cor. Ronroneia em troca dos mimos que faço

        em seu lombo. Sobe na cômoda de meu quarto para olhar meus pesadelos.

        (Deve erguer o rabo horrorizado). Corcoveia por entre meus passos

        com a graça de um bailarino.

        Quando repousa sente que estou passando. Abre então o amarelo dos olhos

        e logo os fecha indiferente. Dorme esparramado com o focinho para

        o alto, ignorando o tráfego da casa.

        À noite, sai saltitante sobre os muros com miados a chamar o amor.

        Depois, de manhãzinha, regressa ao lar, aliviado.

        Na ciência que os humanos inventaram ficará identificado como:

        FELIX CATUS, mamífero, carnívoro, da família dos felinos.

        Para mim, entretanto será para sempre: o meu Gato Feliz.

 Wikipédia

 

                      PARA EXORCIZAR 13 DE AGOSTO, SEXTA-FEIRA

 

        Invoco os 4 ventos para apaziguar o terror do menino insone que fui

        a fim de não perder-me no naufrágio dos pesadelos. Os ventos do norte

        que vergastam navios no porto e limpam a lepra do mar que se mete

        no íntimo das coisas.

        Exconjuro o gato preto – sombra de sombra – que causou a desgraça

        de meus ancestrais, ao cruzar no caminho de minha avó. Sob uma nuvem

        que pressagia a sexta-feira, 13, ponho o retrato mais triste de meu pai,

        menino sem valor que a seus olhos fui, na clara condição de abandonado.

        Abro a porta, liberando a onda que sufoca.

        Levanto-me, valente, com todos os amuletos protetores que o Senhor do

        Bom Fim, no ardente neon dos motéis, no sabor de teus músculos, me

        devolvem aquela ânsia adolescente de masturbação.

        Conclamo as legiões de anjos selvagens, obrigando a revelar-me o lugar

        onde nascem as palavras que rompem mordaças para entregar-me à

        pantera fiel da luxúria.

        Que a luz do corpo afaste a miséria da alma!

        Que exconjure a desgraça maior das sextas-feiras, 13,

        sem tirar-me a vontade de amar-te, en todos los 13 de martes.

        Amen.

        Papillon d avril –

 

                                   MINICONTOS POÉTICOS

 

 

                                         PALAVRAS

 

    O vazio das coisas está expresso na palavra, cuja superfície já nada diz.

    Um abismo separa as coisas dos termos que as designam.

    A palavra é um imenso sudário.

    Sob a página não há história certa ou ambígua. Só violência cega e

    abstrações inumeráveis. Vazias pululam estas mortas palavras.

    Elas são um mar de afogadas existências no muro branco do papel.

    Espelhos de imagens repercutindo ecos de vozes já sem vida.

    O branco da página não basta para esconder o nada que buscam expressar.

    A palavra, orgulhosa, querendo tudo dizer, nada mais é que um escalafrio,

    como a figura de um Washington nas notas de 1 dólar.

 

 AliExpress.com 

 

 

                                       A  LAGARTIXA

 

 

    A lagartixa tem muita força. Trepa pelos muros claros como dias de verão.

    Elege um raio de sol. Um só e se detém sobre o muro a gozá-lo.

    Logo, elege outro e outro e outro. Cada raio é um dia de verão

    que ela absorve em sua pele rugosa, gota a gota, até fartar-se de luz.

    Em cada mil insolações, muda de pele, renovando-se.

    Também o raio de sol vai mudando pelo muro, até morrer

    no nascer da lua nova.

 

 Vers le Nige

 

 

                                           OLHO D`ÁGUA

 

 

    Nossa ilha é uma caravela solta nos olhos d`água das poças que a chuva deixou.

    Sua vela é uma palmeira de ramos como estrelas verdes. Nela embarcamos felizes na direção de um porto infinitamente remoto, onde a morte vive. Este vagar às velas soltas sobre as águas translúcidas é o nosso caminho de vida. Apenas isso. O céu aberto se estende até os limites permitidos pelo Grande Assassino, onisciente e todo-poderoso. De nada adianta fugir do irremediável, buscar escapatória em outros mares, pois nosso olho d`água é este que nos foi dado: aberto a um céu que nos exila.

Pinterest

 

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