Agora… “José”, de Raul Machado.

    Nasceu no dia 19 de março de 1968. Daí seu nome, batizado pela mãe muito religiosa e  que o esperava para mais tarde, em abril, quem sabe. Mas adiantou-se algumas semanas. Seu pai teria preferido outro nome, Pedro, quem sabe. Signo de Áries, pelo dia e pela hora.

    Era mirrado de corpo. De infância doentia, o nariz sempre escorrendo. No inverno,

tinha frieiras nos dedos das mãos e dos pés. Seu pai logo desiludiu-se com um filho sempre adoentado, pois sonhava em vê-lo jogador de futebol na Capital do Estado.

Mas logo deu-se conta de que isso jamais se tornaria uma realidade.

    A mãe queixava-se afirmando que José  parecia não  ter talento para nada. O pai trabalhava num cassino de jogatina, com roleta e carteado, onde os ricos fazendeiros vinham  tentar a sorte. Nos fundos, havia uma série de quartos frequentados  pelas prostitutas da cidade, prontas para arrancar algum dinheiro dos  fregueses, a fim de pagar  o aluguel do quartinho e os devidos  50%  para o dono do cassino.

    Na escola pública, onde fora matriculado, José sofria com as maldades de colegas

que nele se vingavam, desafiando a recomendação de algumas professoras para que o protegessem, pois era frágil. A maioria de seus colegas o chamavam de mariquinhas. Seu pai, sempre desejoso de vê-lo como jogador de futebol,  solicitou ao professor de educação física que o pusesse a jogar, talvez como goleiro. E assim foi feito. José, muito a contragosto, ia para a goleira e suava frio quando os atacantes dos adversários se aproximavam. Era golo na certa. Somente uma vez conseguiu segurar a bola. E os adversários gritavam e assobiavam:  O Mariquinhas é boa goleira!

    José gostava mesmo era das férias, passadas numa cidade próxima, na casa de sua avó materna, uma senhora morena, filha de uma índia charrua com um aventureiro português, já falecido. A avó era uma doceira excelente e José, além de se deliciar com os doces, tinha grande prazer em ajudá-la na preparação das figadas, marmeladas  brancas, vermelhas e róseas, além dos quindins, queijadas, bem-casados

e inúmeras conservas  para os tempos frios. Também trabalhavam duas tias. Era uma família pobre e ele já sabia que o destino dos pobres é não ter férias como os ricos, que viajavam para as praias de Tramandaí. Sonhava em viajar. Quem sabe, quando fosse adulto poderia conhecer o mar, com suas ondas de água salgada.

    Alguns anos depois passou a estudar no noturno, porque, durante o dia conseguiu emprego numa padaria e  confeitaria, onde especializou-se em construir belos bolos de casamento e aniversário. Os fregueses sempre elogiavam seus bolos, tortas de variadas frutas e, até mesmo tartes e croissants, que copiara de uma revista francesa, comprada no quiosque da Praça Central.

    Por vezes, sentia-se muito cansado, pois, além do trabalho , dedicava-se com afinco aos estudos, além de abrir no banco local uma caderneta de poupança. Pensava em estudar na Capital. Terminando o curso médio,  com os rendimentos da poupança, embarcou para  Porto Alegre. Inscreveu-se no Vestibular da UFRGS, para frequentar a Faculdade de Direito. Foi aprovado, podendo, então, ser admitido como morador na Casa do Estudante, situada na Avenida João Pessoa. Ali conheceu outra colega de faculdade, Nilza, que veio a ser sua companheira” até que a morte os separasse”.  Por influência de Nilza e por gostar de música, ingressaram ambos no Coro da Universidade, onde muitas vezes cantaram em obras de grandes  compositores como Bach, Verdi, Puccini, Beethoven,  executadas com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a OSPA. José procurou ainda entrar no Grêmio Estudantil  para fazer política, mas logo percebeu que a instituição representativa dos estudantes era constituída de alunos que ali estavam “treinando” porque só desejavam fazer carreira na política partidária como vereadores ou deputados.

    Quando ele e Nilza estavam  cursando o quinto ano ocorreu um fato totalmente inesperado: a sorte bateu-lhes à porta. Ganhou na loto.  E não foi pouco. Foram alguns milhões de reais. Recebidos os diplomas de bacharéis em Direito foram ambos, José e sua Nilza, realizar um sonho: viajar.

    Desembarcaram em Lisboa, onde provaram os famosos pastéis de Belém e visitaram os museus do Azulejo e da fundação Calouste Gulbenkian. Alugaram um carro e rumaram para Santiago de Compostela, com sua catedral e fumeiro. Devolvido o carro, em trem de grande velocidade dirigiram-se a Madri, onde visitaram o Museu do Prado e a Plaza Mayor. Sempre de trem, AVE, Alta Velocidad Española, dirigiram-se a Barcelona, terra do grande arquiteto Gaudi e suas espetaculares obras.

    Em todos esses lugares,  José adquiria livros de doces e pães. Tinha forte pressentimento de que, ao retornar, essas obras lhe seriam úteis.

    Da cidade da Catedral da Sagrada Família, rumaram para a França, pátria da “ Liberté, Égalité, Fraternité”, após a sangrenta Révolution, uma República que, nas aulas da faculdade, aprenderam a respeitar pela separação dos poderes: executivo, legislativo e judiciário.

   Na belíssima capital de urbanismo invejável, como bons turistas, visitaram a Torre Eiffel  e o Louvre, com suas magníficas coleções de arte antiga egípcia, mesopotâmica e suas incontornáveis  Vitória de Samotrácia e a preferida dos milhões de turistas, a Mona Lisa. Mas os museus que mais os impressionaram foram o Quai d`Orsay e o museu Rodin. No d`Orsay, as obras dos impressionistas Renoir, Manet, Monet fizeram Nilza se emocionar. No Rodin, José se encantou com “O Pensador” e “Os Burgueses de Calais”.

    José, grande admirador da arte da padaria e doçaria francesa, aproveitou para provar os macarons, tartes de frutas, croissants, em estabelecimentos nessas delícias especializados. Sempre adquiria livros que orientassem os doceiros e padeiros

 novatos.

    Retornando à pátria, José e Nilza se estabeleceram em São Paulo, onde adquiriu uma padaria e confeitaria na Avenida Vieira Souto, no centro novo da grande metrópole.

    Passados cinco anos, já bons mestre-cucas, eram proprietários de 12 padarias e confeitarias, espalhadas por toda a cidade.

    José pensava: Se minha avó me visse ficaria orgulhosa de mim.

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Expressão livre: textos dos leitores. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Agora… “José”, de Raul Machado.

  1. Ressalva feita à licença poética devida a todo autor, tenho de assinalar que, no dia 19 de março de 1968, o Sol ainda passava pelo signo de Peixes. Lá permaneceu o dia inteiro.

    O Hemisfério Sul só entrou no outono no meio do dia 20, com a entrada do Sol em Áries.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s