Raul Machado; alta literatura…

Primeiro, olha à esquerda. Se vires uma igreja, de Santo Ambrósio-o-Bruxo,  de preferência, podes então girar o corpo à direita, até ao ponto onde se lê, numa pedra encastada na parede da esquina: Pátio dos Judeus. A seguir, abre cuidadosamente o mapa. Não esqueças de orientá-lo, fazendo coincidir a parte superior dele na direção da pedra. Olha para o chão e recolhe a breve cigarreira a teus pés. Caiu-te da algibeira e fora presente de tua mãe. De imediato, olha para o alto e, por entre a dureza austera dos velhos prédios, verás, no recanto que sobrou, um pedaço saudoso do Cruzeiro do Sul, caso já sejam mais de 24 horas. É, então que, girando 180 graus sobre a perna direita, toparás, bem à frente, com uma ruela estreita a esgueirar-se por um declive acentuado de terreno. Desce por ela cambaleando, contando os degraus e arranhando muros e paredes grafitados. Não te preocupes se sangrarem as pontas dos dedos, olha para baixo até que teus pés, exaustos, fiquem num mesmo plano. Estás no Largo da Fonte dos Sedentos, uma pequena praceta circundada por casas brancas tumulares, enobrecida por um chafariz seco. Destaca-se um palacete, com janelas avarandadas e nenhuma porta no térreo. Outrora, farto de moedas, o Chafariz as comia avidamente. Hoje, dorme insípido como uma instalação de Bienal do Mercosul. Seguindo, passarás por um Café, cujo nome “La Punhalada” se anuncia em tremeluzentes letras de neon. Aí, ao redor de mesinhas, cobertas por toalhas axadrezadas e puídas, mulheres pálidas e homens de caras fechadas discutem filosofias suicidas. Cuidado. Não pares para ouvi-los. São Cassandras. Mui malevas, como diziam os extintos gaúchos. Mais alguns passos e…pronto, caíste na Avenida. Ampla como um bulevar de árvores disciplinadas de uma cidade-luz qualquer. Segue por ela, lendo a poesia do Fernando Pessoa.

Teus olhos se acenderão com as cores tentadoras a prometer a felicidade espumante dos champagnes jorrando de taças erguidas por belas atrizes proclamando que 9 em cada 10 estrelas cinematográficas gozam da mais-valia da beleza que vende a Felicidade em promoções de cheque pré-datado. Aproveita, aproveita.

bashny.net

Segue em frente. Não importa que vejas, aqui e ali, pequenos e andrajosos seres mijando nas rodas dos automóveis. São meninos-lobos das ruas demarcando território. Por todos os lados, multidões atarefadas se acotovelam na direção de seus escritórios, oficinas e lojas de shoppings. Estão seriamente ocupadas em ganhar dinheiro para construírem seus futuros ataúdes com a melhor madeira-de-lei. Dentro de seus carros de muitos cavalos-força, respeitáveis senhores encharutados e vagas senhoras dirigem-se a soturnos palácios subterrâneos. De lá, emergirão para as luzes de restaurantes, onde as cartas de vinho sonham com franças e outras terras d`appelation controlée. Não te detenhas.. Vai em frente. Mas cuidado com os traidores gatos da Praça das Flores, melancólica, verdinha e leviana. Aí já aconteceram estranhos atentados terroristas suicidas islâmicos, a tal ponto que, um ruído, pouco mais incisivo que o silêncio circundante, provoca o desprendimento dos pombos  do cume das árvores.

Esvoaçam esbaforidos por todos os céus, indo morrer muitos deles contra os altos edifícios. Não, não chores por eles. Eram mais felizes que tu. Podiam voar. E se da alta arte de voar gozaram, em tão breve vida, foi porque assim o quis o Grande Carrasco. Observa que, vez por outra, há portas abertas conduzindo a longos corredores com ruídos de ratos e tábuas gementes, desaguando pessoas em salas de luzes fúnebres. Aí são velados os seres insubstituíveis. E se alguma lágrima aflorar, gerada por teu elan teatreiro, retira da outra algibeira a brancura debruada de um lenço que te fora dado pela criada velha, há tempos, quando eras menino e inocente. Segue sem deter-te apiedado por alguma visão de cadafalso, guilhotina ou auto-da-fé, onde se eliminam os inimigos de alguma ideologia poderosa, em meio à arraia-miúda ululante, saída de seus cus-de-judas para a luz das chamas, aclamando os poderosos do dia. Desconfia, sobretudo, das cúpulas e minaretes e de outros monumentos de semelhantes desenhos esféricos ou pontiagudos. Cuidado, aí se escondem os deuses enganadores. Sob tais formas arquitetônicas, armam-se estratégias teocráticas, nas quais só tens a perder. Deixa o menino que tu foste descer distraído por teus fatigados olhos e atirar pedras de intifada, aquelas mesmas pedras que o poeta encontrara no meio do caminho para ferir os magnificentes senhores e, extenuado, retornar à sombra de teus olhos. Entra nesta imprecisa sala e observa-te: pequenino, esquelético, no meio de coleguinhas atléticos. Todos ao redor da mesa grande e suja de tinta, soletrando o be-a-bá e cantando a taboada. A mestra, brandindo a ameaçadora régua, tem os cabelos azulados e um olhar cinzento de madrasta. Não te demores por aí, porque, na sala adiante, há um cadáver de mulher com uma barriga enorme. “—Sai logo daqui, menino. É cheiro de podridão.” Pedaços de pessoas cantam as ladainhas dos infelizes. Elas são peixes que emergem das águas e da morte se esforçam para consolar os que restaram. Isso tudo te provoca uma dor de buraco fundo de onde jorram ruínas de palavras sussurrantes, descendo pela garganta afogueada, sufocando-se nos olhos aflitos, para subir pela espinha como uma neblina fria que, no calor do cachecol, vai aí abrigar-se. Procura não imaginar muito. Deixa-te viver sem pensar. Cuida de tua saúde. Ela é o que mais importa. Fecha o quarto contaminado pela fedentina dos cadáveres insepultos. Fantasmas que assombram tuas noites mal dormidas. Uma avó longínqua, das ilhas, que fazia doces de figo e marmeladas, rosas e brancas, em grandes tachos ciganos. E que renasce em teus sonhos nas festas de fim de ano, em meio a massas ululantes de comedores de panetone. Agora  estás caminhando, apoiado nessa bengala, por meio de velhos aposentados que jogam damas em tabuleiros de pedra, numa praça qualquer, a sonhar com a juventude, quando a próstata nem existia e todos eram bem machos, sim senhor. Agora sabes que sexo é commodity, cujo valor sobe ou desce na bolsa escrotal. Gozar o máximo e pagar o mínimo. Um filósofo marxista dissera que tudo é – ou acabará por ser – mercadoria. Acreditaste nisso por algum tempo. Depois, já maduro, percebeste que os afetos não se compram nem se vendem. São como a poesia: não têm preço. Daí para a frente, no viver e sofrer cotidiano, a poesia passou a ser uma âncora, um porto, uma companheira exigente, uma escravidão. Vampiresca e consoladora.

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