ELA – ( Breve história de uma vida anônima) – Raul Machado

          ELA

 

            ( Breve história de uma vida anônima)

 

                                                                     Raul  Machado

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Ela já não mais tinha um teto que protegesse seu corpo envelhecido. Vivia na rua, com seus poucos pertences que colocara numa bolsa com rodinhas encontrada num contêiner para lixo. Ao lado, ela colocou uma bandejinha de alumínio, onde os passantes mais compadecidos lançavam umas moedas. Nos braços ossudos apertava um ursinho de pelúcia que pertencera a sua filha, já falecida há tempos, quando fora estuprada e morta. Quando alguma moeda tilintava na bandeja, ela segurava seu ursinho de pelúcia com mais força. Esse ato era para ela uma forma de rezar a uma santa que brilhava barrocamente no altar-mor da igreja onde se casara num dia 13, fazia já muitos anos. Pariu sete meses depois uma menina, com a ajuda de uma amiga. O marido desapareceu ao dar-se conta de que a filha era mongoloide. Numa noite fria, quando dormia com a filha de quatro anos, policiais de uma agência governamental levaram a menina para um abrigo, chamado Lar do Menino Jesus de Praga. Sob a marquise onde tinha se instalado, observava diariamente os passantes. Todos os dias, entretanto, saía para comer um “prato feito” com arroz, feijão, alguma carne e salada de tomate, alface e cebola, que o empregado dum bar-ambulante lhe fornecia por poucos reais.Fazia suas necessidades fisiológicas no banheiro municipal,  que ela utilizava para “livrar-se do que não prestava”, como costumava dizer. Às vezes, acontecia algo diferente, como o som de uma banda marcial, seguido de militares que desfilavam batendo forte suas botas no asfalto,  ela sabia que era uma comemoração de 7 de setembro. Treze dias depois, era a vez de gaúchos pilchados em cavalos fogosos passarem cantando as glórias de uma revolução perdida. E ela pensava que o mundo era mesmo muito estranho e difícil de se entender. Todos os dias e até mesmo de madrugada , ouvia os passos de homens e mulheres com sapatos de salto alto dirigindo-se apressados para o trabalho ou para alguma festa no clube social do outro lado da rua. Essas pessoas raramente lhe atiravam uma moeda.  Os que mais lhe davam  eram os que usavam tênis. Quando se sentia muito suja e com a roupa fedendo, ela dirigia-se a um abrigo espírita, o Lar do Amigo Germano, onde  lavava sua roupa e tomava um bom banho. Retornava ao abrigo da marquise, sentindo-se mais leve. Gostava de ver a criançada fazendo algazarra, todas as manhãs, dirigindo-se para a escola, guiados por responsáveis. E ela pensava na sua filhinha, apertando o ursinho de pelúcia e pensando que, talvez, sua filha  nunca conseguiria ler e escrever. Uma vez, resolveu ir até à beira do rio. Sentou-se na margem. Foi então que viu um grande saco, encalhado na margem com um pé calçado com sapato preto e lustroso, aparecendo na boca do saco. Pensou que devia ter lá dentro um corpo de homem.  Seria uma vítima de assassinato? Deveria ir até uma delegacia e avisar a polícia? Não. Não gostava de polícia. Por isso, pediu ao amigo do bar-ambulante que avisasse aos guardas, mas sem dizer que era ela que tinha visto o saco. O amigo foi até a delegacia mais próxima e avisou o delegado, afirmando, como prometera,  que ele tinha visto. Às vezes, pela manhã, passava na calçada uma senhora idosa numa cadeira de rodas empurrada por uma moça. Seria sua filha ou neta? Ela pensava que não era tão infeliz, que havia gente mais infeliz do que ela. Afinal, ela podia até caminhar. Não que pudesse correr, como esses moços e essas mocinhas que passavam por ela apressados  para  chegar rapidamente no Parque da Redenção e preparar-se para a maratona. Um dia, também 13, seu amigo do bar entregou-lhe um papel  onde pode ler que um juiz a convocara para comparecer no tribunal, pois o assassino de sua filha ia ser julgado. Ela preparou-se: tomou banho no abrigo espírita e lavou as roupas novas recebidas no Lar do Amigo Germano. No dia e na hora que o juiz decidira, ela compareceu no tribunal. Havia uma juíza e um juiz, todos de preto. Só ela vestia roupas brancas.  O assassino de sua filha estava em pé. Os juízes leram papéis, até que perguntaram se ela queria falar. Ela disse que sim. Contou a história toda: casamento, marido desaparecido, filha doente, a rua onde morava. Enfim, tudo que se lembrava.  Um advogado de defesa do réu também falou. Ela teve pena do assassino. E, então, surpreendentemente, pediu para falar de novo. Os juízes concederam-lhe a palavra. E ela disse: Eu perdoo esse moço que matou minha filhinha. Aprendi, no catecismo que se deve perdoar. O padre até disse: se alguém te der um tapa numa das faces, oferece-lhe a outra. E perdoa. Jesus perdoou seus algozes. Os juízes estavam aturdidos. Isso nunca tinha acontecido naquele tribunal. Ela pediu para ir embora. E foi. O assassino desabou num choro convulso. Os juízes e até o advogado e alguns estudantes de Direito que  visitavam o tribunal e o público estavam todos emocionados. Alguns até choravam.  No dia seguinte, um homem velho, de bengala, lançou na bandeja 50 reais. Ela não pode agradecer. Era uma nota de papel e, por isso, não tinha tilintado na bandeja. Com esse dinheiro, ela realizou um sonho : dormir uma noite no hotel do outro lado da rua. E foi o que fez. Pagou adiantado na portaria. Deram-lhe o quarto número13. Era um quarto todo branco, azulejos, fronhas, cobertas, toalhas e até um banheiro, onde havia uma banheira branca. Ela abriu o quarto e pensou: Hoje vou ter sorte. Apertou seu ursinho entre os braços e deixou-o deitado na cama . Chorou um pouco. Encheu a banheira de água e nela entrou. A água estava  morna e agradável . Lavou-se com sabonetes perfumados. Depois, foi aos poucos deitando, mergulhando na água. Até que parou de respirar.  No outro dia, como não respondia no telefone da portaria, o porteiro chamou o dono do hotel. Abriram a porta do quarto 13 e encontraram ela morta por afogamento na banheira branca. Chamaram o SAMU, para que constatasse a morte. Era um suicídio muito raro. Foi sepultada numa vala comum, junto a outras pessoas anônimas, no cemitério São Miguel e Almas. Um padre oficiou, pedindo a Deus que perdoasse aqueles pecadores,  abençoando-os com jatos de água benta. E retirou-se com seus dois coroinhas.

 

Nota do Autor : Tudo nesse conto é fruto de minha observação e imaginação.  Mas isso não tem a menor importância. O que interessa é o que você, leitor(a) perceber/ler/interpretar. Você também recria esse meu conto. Obrigado por tê-lo lido. Raul Machado

 

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Uma resposta para ELA – ( Breve história de uma vida anônima) – Raul Machado

  1. msuplicy disse:

    É uma sensação muito estranha a que seus contos provocam. Às vezes me perco na leitura e fico fantasiando outras estórias. Só posso dizer que, graças às emoções que eles geram, eu os entendo com a alma

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